Nabil Ahmad Abuznaid, embaixador palestiniano em Portugal, diz que haverá eleições dentro de seis meses
O recente reconhecimento do Estado de Israel por parte de dois países árabes abanou os palestinianos. Nas redes sociais, muitos disseram-se traídos pela decisão de Emirados Árabes Unidos e Bahrain. Nos corredores políticos, a brecha que fragilizou a unidade árabe em torno da causa palestiniana motivou as autoridades da Cisjordânia e da Faixa de Gaza a reorganizarem a casa.
“A Fatah, o Hamas e as outras fações políticas palestinianas concordaram em realizar eleições”, disse ao Expresso o embaixador da Palestina em Portugal, Nabil Ahmad Abuznaid, à margem de uma conferência que proferiu na Faculdade de Letras do Porto. “Primeiro serão as legislativas, depois as presidenciais e a seguir eleições para o Conselho Nacional”, o órgão legislativo da Organização de Libertação da Palestina (OLP).
A concretizarem-se — “dentro de seis meses”, aponta —, serão as primeiras em quase 15 anos. “Receamos que Israel não permita, mas estamos determinados em realizá-las”, diz. “Já sofremos muito tempo com a falta de união, mas agora está a haver um entendimento comum de que temos de combater a ocupação e não continuar a pensar que é um problema contra os judeus.”
Esta reação palestiniana ocorre perante a perspetiva de que mais países árabes normalizem a sua relação diplomática com Israel. O Sudão, que está na iminência de sair da lista de países terroristas dos Estados Unidos, pode ser o próximo. E as negociações com Omã também estão bem encaminhadas.
Que esperar de Joe Biden?
Com os EUA solidamente ao lado de Israel e perante a possibilidade de mudar o inquilino da Casa Branca, Nabil Ahmad Abuznaid, que já serviu na missão palestiniana em Washington, diz que “quem quer que venha a seguir a Donald Trump será melhor” para os palestinianos. “Estive com Joe Biden muitas vezes. É um bom homem, mas não é um lutador que vá mudar o Médio Oriente. Não irá fazer regressar a embaixada americana a Telavive, mas abrirá um consulado palestiniano em Jerusalém Oriental, reabrirá a missão palestiniana em Washington que Trump fechou e irá libertar alguns dos fundos para a UNRWA [a agência da ONU para os refugiados palestinianos] e algumas organizações internacionais. Não creio que possa exercer grande pressão sobre Israel. Mas se Trump sair, consigo ver Benjamin Netanyahu [o primeiro-ministro israelita] enfraquecido.”
Da União Europeia, o embaixador diz não esperar muito. “Os europeus apoiam os palestinianos, denunciam as políticas israelitas”, mas “Netanyahu não os leva a sério”. “Se a Europa proceder ao reconhecimento da Palestina estará a cumprir a sua posição sobre a solução de dois Estados. Mas enquanto não o fizer, as suas posições só encorajarão Netanyahu. Se a Europa disser que a Cisjordânia, a Faixa de Gaza e Jerusalém Oriental são terras palestinianas, Netanyahu hesitará antes de as anexar.”
Em Lisboa desde 2017, questiona-se sobre a posição portuguesa. “O Parlamento, que representa a nação, disse [em 2014] que era hora de reconhecer a Palestina, mas o Governo diz que ainda não é o momento certo. Qual é o momento certo? Já conheço a resposta: é necessária uma posição europeia à qual Portugal possa aderir. É uma desculpa. Basta haver um país que não queira reconhecer e não há decisão europeia.”
(FOTO RUI DUARTE SILVA)
Artigo publicado no “Expresso”, a 24 de outubro de 2020. Pode ser consultado aqui
Onze ministros dos Negócios Estrangeiros da União Europeia — incluindo o português — querem que Bruxelas elabore um documento com opções de resposta ao plano de Israel para anexar partes da Cisjordânia palestiniana. “É importante haver clareza sobre as implicações legais e políticas da anexação”, alertam
Há cerca de 30 anos, comentando a postura da União Europeia durante a Crise do Golfo — desencadeada pela invasão iraquiana do Kuwait, em 1990 —, Mark Eyskens, então ministro dos Negócios Estrangeiros da Bélgica (e posterior primeiro-ministro), afirmou que a Europa era “um gigante económico, um anão político e um verme militar”.
Nos dias que correm, a questão da Palestina talvez seja dos assuntos onde essas dimensões são mais evidentes. A União Europeia (UE) é um importante parceiro económico de israelitas e palestinianos mas, em matéria política, revela-se incapaz de tomar iniciativas que contribuam para travar o desgaste contínuo da perspetiva de paz entre os dois povos.
Essa erosão pode conhecer novo capítulo se Israel for avante com a intenção de estender a sua soberania a até 30% da Cisjordânia ocupada, e em relação à qual ainda não se conhece uma posição de força por parte dos europeus.
“Falta uma estratégia política comum contra a violação contínua dos direitos humanos do povo palestiniano e, neste caso específico, de uma nova anexação ilegal de território palestiniano”, diz ao Expresso Giulia Daniele, investigadora no Centro de Estudos Internacionais do ISCTE, de Lisboa.
Recentemente, 11 ministros dos Negócios Estrangeiros europeus — entre os quais o português Augusto Santos Silva — deram conta desse desnorte e enviaram uma carta conjunta a Josep Borrell, chefe da diplomacia dos 27. Acreditam que Israel pode ser dissuadido de avançar com a anexação se for alvo de medidas punitivas e solicitaram uma lista de ações possíveis.
“Gostaríamos de ver um documento, elaborado em estreita consulta com a Comissão, que forneça uma visão geral das relações entre a UE e Israel, uma análise das consequências legais da anexação, bem como uma lista de possíveis ações como resposta”, lê-se na missiva enviada a 10 de julho.
“É importante haver clareza sobre as implicações legais e políticas da anexação”, continuam. “Compreendemos que este é um assunto sensível e que o tempo é importante, mas o tempo também é curto. Estamos preocupados que a janela para impedir a anexação se feche rapidamente.”
Para a UE, a anexação constitui a machadada final na solução de dois Estados (para dois povos), que continua a marcar a sua narrativa, ainda que no terreno essa seja uma realidade cada vez mais difícil de acontecer.
“Continuar a falar sobre a solução de dois Estados é irrelevante e fora do contexto atual, que demonstra como isso já não é possível nem praticável sob nenhum ponto de vista”, defende a investigadora do ISCTE. “Pelo contrário, analisar com mais profundidade os factos no terreno e levar em maior consideração o que está a acontecer dentro das sociedades israelita e palestiniana poderia ajudar a UE a consolidar o seu papel no debate atual.”
Uma questão moral e legal
Se Israel concretizar a anexação — estendendo a sua soberania às áreas dos colonatos judeus e às terras férteis do Vale do Jordão —, na prática uma Palestina independente ficará condenada a um rendilhado de pequenos territórios não contíguos que impossibilita um Estado viável.
Para lá da dimensão moral, a perspetiva de Israel tomar terras palestinianas é também uma questão legal, já que viola o direito internacional. “Qualquer violação do direito internacional deve ser condenada”, defende Giulia Daniele.
“Se essa prática continuar, é necessário tomar decisões para contrariá-la, como, por exemplo o uso de sanções, que já aconteceu em muitos outros contextos históricos. A UE deve ter a coragem de propor uma política própria no sentido de influenciar as decisões da agenda internacional e de condenar abertamente a continuação do regime de apartheid” que visa os palestinianos.
Além de Portugal, assinaram a carta enviada ao Alto Representante da UE para a Política Externa e de Segurança a Bélgica, Irlanda, Itália, França, Malta, Suécia, Dinamarca, Luxemburgo, Holanda e Finlândia.
Do rol, apenas Malta e Suécia reconhecem o Estado da Palestina — fizeram-no em 1988 e 2014, respetivamente. Entre os 27, há outros países que também reconhecem a Palestina a nível bilateral, mas alguns comportam-se hoje de forma contrária à posição que assumiram no passado.
É o caso da Hungria, que reconheceu a independência da Palestina em 1988 (antes de aderir à UE) e hoje, com o nacionalista e eurocético Viktor Orbán no poder, é um dos mais sólidos defensores dos interesses de Israel, dificultando dessa forma a obtenção de um consenso na UE.
A voz de 1080 deputados
“Todos sabemos que o papel dominante sempre foi e continua a ser o da política norte-americana, mas, ainda mais neste momento de protestos tanto em Israel como nos Estados Unidos, é importante pressionar a UE a avançar finalmente com um objetivo muito simples: a aplicação do direito internacional, ao abrigo do qual o plano de anexação é ilegal.”
Recentemente, duas tomadas de posição conjuntas a nível internacional foram apelaram nesse sentido. A 23 de junho, 1080 deputados de 25 países europeus — entre os quais cinco deputados portugueses — endereçaram uma carta aos governos e líderes europeus. “A aquisição do território pela força não tem lugar em 2020 e deve ter consequências proporcionais”, defenderam.
Uma semana antes, 47 peritos das Nações Unidas na área dos Direitos Humanos adotaram uma posição pública no mesmo sentido: “A manhã seguinte à anexação será a cristalização de uma realidade já de si injusta: dois povos a viver no mesmo espaço, governados pelo mesmo Estado, mas com direitos profundamente desiguais. Esta é uma visão de um apartheid do século XXI”.
Artigo publicado no “Expresso Online”, a 17 de julho de 2020. Pode ser consultado aqui
Israel quer partes da Cisjordânia. Palestinianos e israelitas dizem ao Expresso como travar esse plano
INFOGRAFIA DE SOFIA MIGUEL ROSA
Desde que Israel declarou a independência, em 1948, não passou uma década sem que se envolvesse em conflito com os vizinhos árabes. Às guerras israelo-árabes sucederam-se duas intifadas palestinianas e, mais recentemente, três ofensivas na Faixa de Gaza. Mas naquela que parece ser a disputa mais insolúvel do mundo — a questão da Palestina —, as principais armas não são as balas, antes as pessoas e as terras que ocupam.
Em 1917, quando o Governo britânico prometeu ao povo judeu um “lar nacional” (Declaração Balfour), os judeus eram 10% da população da Palestina e detinham 2% das terras. Hoje, há sensivelmente tantos judeus como árabes na Palestina histórica, mas os primeiros controlam 85% do território.
Em breve, a luta pela terra pode abrir novo capítulo. Desde quarta-feira, 1 de julho, o Governo de Israel tem carta branca para anexar formalmente 30% do território palestiniano que, na prática, já ocupa. Estão em causa áreas de colonatos e o vale do Jordão. O plano foi uma promessa eleitoral in extremis do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu após dois atos eleitorais inconclusivos que mergulharam Israel num impasse político durante mais de um ano.
Reconhecimento e sanções
A concretizar-se, será o prego final no caixão da fórmula “dois Estados para dois povos”, que a comunidade internacional mantém como solução para o conflito. A Palestina ficará condenada a ser um rendilhado de territórios não contíguos onde só por magia será possível erguer um Estado viável.
Num artigo recente no jornal britânico “The Guardian”, o historiador israelita Avi Shlaim, professor emérito na Universidade de Oxford (Reino Unido), apelou ao reconhecimento internacional da Palestina. O perito explica ao Expresso porque o fez: “Os palestinianos têm direito à autodeterminação. Quase todos os governos ocidentais apoiam a solução de dois Estados, mas não reconhecem a Palestina. Não tem lógica. Israel não será dissuadido de prosseguir com a anexação com meras expressões de reprovação. É necessário ameaçar com sanções. A União Europeia tem uma influência real, mas, infelizmente, está dividida e torna-se impotente.”
Tal como aconteceu quando a Administração Trump reconheceu Jerusalém como capital de Israel (2017) e a soberania israelita sobre os Montes Golã (2019), este plano desencadeou as habituais condenações standard. A alta comissária da ONU para os Direitos Humanos, Michele Bachelet, foi das mais inconformadas. “A anexação é ilegal. Ponto. Qualquer anexação. Seja de 30% da Cisjordânia, seja de 5%”, disse esta semana. “As ondas de choque da anexação durarão décadas e serão extremamente prejudiciais para Israel e palestinianos, mas ainda há tempo para reverter a decisão.”
No passado, várias ilegalidades israelitas à luz do direito internacional — construção de colonatos, do muro de separação, apropriação de terras, transferência forçada de populações — suscitaram reações de condenação violentas. Mas nenhuma dissuadiu Israel de continuar com o projeto de colonização.
Ocupação é lucrativa
“O reconhecimento da Palestina é importante, mas não é suficiente. Sem a responsabilização de Israel, não é possível resolver a situação”, diz ao Expresso a palestiniana Nour Odeh, de 42 anos. “A ocupação é economicamente lucrativa e não tem custos políticos. Se a anexação também não tiver custos, por que razão há de Israel preocupar-se com declarações de condenação? Se os israelitas sentirem que as ações do seu Governo têm custos para si, este caminho perigoso pode ser revertido e poderá surgir uma oportunidade credível para acabar com a ocupação.”
A anexação não engolirá as terras por igual. Estima-se que vá criar 43 enclaves, encurralando 106 mil palestinianos
Nos últimos 20 anos, Nour tem observado a erosão do sonho palestiniano de diferentes ângulos. Entre 2006 e 2011 foi correspondente da televisão Al-Jazeera em Ramallah e em 2012-13 foi porta-voz do Governo palestiniano. A experiência permite-lhe sugerir com facilidade medidas que podem travar Israel. “Os países podem rejeitar vistos a colonos, impor restrições e responsabilizar quem lucra com os colonatos, parar a cooperação militar com Israel. E, com ou sem anexação, devem proibir a comercialização de produtos dos colonatos.”
Esta semana, nos Estados Unidos, surgiu um esboço de reação musculada. Quatro congressistas enviaram uma carta ao secretário de Estado, Mike Pompeo, apelando ao corte ou à suspensão da ajuda anual de 3800 milhões de dólares a Israel (3400 milhões de euros).
Se o plano de Netanyahu for avante, será a primeira anexação de território palestiniano desde 1967, quando Israel conquistou e anexou unilateralmente Jerusalém Oriental, a parte árabe da cidade santa para judeus, cristãos e muçulmanos, que israelitas e palestinianos querem para capital. Na prática, Israel estenderá o seu ordenamento jurídico civil a terras que já ocupa e onde agora aplica leis militares.
Enclaves palestinianos
A anexação não engolirá todas as terras visadas por igual. Estima-se que sejam criados 43 enclaves palestinianos, encurralando 106 mil pessoas. “Israel vai tentar forçar as pessoas a saírem desses enclaves”, diz ao Expresso Aviv Tatarski, da ONG israelita Ir Amim. “As consequências serão devastadoras para os próprios e para as populações de Belém ou Ramallah. Dificilmente haverá um palestiniano que não seja afetado pela anexação. O quotidiano dos palestinianos das áreas A e B [sob controlo da Autoridade Palestiniana] depende muito do acesso às áreas envolvidas nesta anexação.” O vale do Jordão, por exemplo, é a zona agrícola fértil da Cisjordânia.
A Ir Amim é uma organização que observa a situação em Jerusalém Oriental, que leva mais de 50 anos em matéria de ocupação. Anexada em 1967, tem vindo a perder população árabe, graças a uma política de construção de casas “só para judeus” e demolição de casas árabes com base em artifícios administrativos. “As políticas de Israel em Jerusalém Oriental tornam claros os riscos da anexação que está a ser planeada”, avisa Tatarsky. “Israel foi claro: não tenciona conceder estatuto de residência aos palestinianos envolvidos na anexação. Sem isso, não terão liberdade de movimentos e ficarão em risco de se sentir desenraizados. Israel poderá usar todos os pretextos burocráticos para empurrar essa população para fora.”
Issa Amro vive numa das principais linhas da frente da ocupação. Hebron — que está fora do plano de anexação — é a única cidade palestiniana com colonos no centro (800, protegidos por 1500 soldados). Ali árabes e judeus vivem em regime de apartheid.
Desde 2016 que este ativista da resistência não-violenta, de 40 anos, está a ser julgado num tribunal militar israelita por, entre outros, “protestos ilegais”. Não tem dúvida que a anexação trará “mais apartheid e segregação”, diz ao Expresso. “Eles vão roubar mais terras e vão forçar a comunidade internacional a reconhecer os colonatos ilegais, ao anunciar que fazem parte de Israel.”
FRONTEIRA MÓVEL
1947 — O Plano de Partilha do mandato britânico da Palestina é aprovado na ONU. Os judeus ficam com 55% e os árabes com 42%. Jerusalém fica sob administração internacional
1967 — Na Guerra dos Seis Dias, Israel conquista a Cisjordânia e Jerusalém Oriental (à Jordânia), a Faixa de Gaza e a Península do Sinai (ao Egito) e os Montes Golã (à Síria). Jerusalém Oriental é anexada a seguir
1979 — Israel devolve a Península do Sinai ao Egito, no âmbito do Tratado de Paz bilateral
1981 — Israel anexa os Montes Golã
1993 — Nos Acordos de Oslo, os palestinianos abdicam da exigência de 78% do território da Palestina em troca de um Estado independente
2005 — Israel retira unilateralmente da Faixa de Gaza, que fica para a Autoridade Palestiniana
Artigo publicado no “Expresso”, a 4 de julho de 2020. Pode ser consultado aqui
A existência de casos de covid-19 na Faixa de Gaza motivou 240 artistas a publicar uma carta aberta. “O bloqueio de Israel impede a entrada de medicamentos e material médico, pessoal e ajuda humanitária fundamental”, alertam. “A pressão internacional é urgentemente necessária para tornar a vida em Gaza viável e digna”
A pandemia que tomou o planeta de assalto levou um pouco daquilo que é ‘a normalidade de Gaza’ aos quatro cantos do mundo: cidades confinadas, restrição de movimentos, encerramento de fronteiras, desemprego em alta, colapso económico, ansiedade, medo e incerteza em relação ao futuro.
Na origem da situação estão a ocupação israelita (1967-2005) e o bloqueio fronteiriço que dura desde 2007 – quando o grupo islamita Hamas tomou de assalto o poder –, com consequências dramáticas para quem lá vive: o desemprego entre os jovens ronda os 60% e mais de 80% da população vive dependente da ajuda internacional.
A isto se somam três guerras desencadeadas por Israel (2008/2009, 2012 e 2014) e agora a pandemia de covid-19, a que Gaza também não escapa, apesar do isolamento. Desde 21 de março foram contabilizados 20 casos positivos.
“Os relatos dos primeiros casos de coronavírus na densamente povoada Gaza são profundamente perturbadores”, alertam 240 artistas, portugueses e estrangeiros, numa carta aberta divulgada na quarta-feira. “O bloqueio de Israel impede a entrada de medicamentos e material médico, pessoal e ajuda humanitária fundamental. A pressão internacional é urgentemente necessária para tornar a vida em Gaza viável e digna. O cerco de Israel deve acabar.”
Entre os signatários portugueses estão o músico Sérgio Godinho, o rapper Chullage, a escritora Patrícia Portela, a pintora Teresa Cabral, o dramaturgo Tiago Rodrigues e o coreógrafo Rafael Alvarez.
Os subscritores internacionais incluem os músicos Peter Gabriel e Roger Waters, a banda Massive Attack, o compositor Brian Eno, a ativista Naomi Klein, o escritor Irvine Welsh e o ator Viggo Mortensen.
Ameaça mortal na maior prisão ao ar livre
“Bem antes da crise em curso, os hospitais de Gaza já estavam no ponto de rutura devido à falta de recursos essenciais negados pelo cerco israelita. O seu sistema de saúde não conseguiu dar resposta aos milhares de ferimentos por bala, obrigando a muitas amputações.”
A carta não se limita a expor a fragilidade de Gaza e do seu sistema de saúde. Vai mais longe e apela a um embargo militar internacional a Israel, “até que este país cumpra todas as suas obrigações à luz do direito internacional”.
“As epidemias (e pandemias) são desproporcionalmente violentas para as populações atormentadas pela pobreza, ocupação militar, discriminação e opressão institucionalizada”, alertam. “Com a pandemia, os quase dois milhões de habitantes de Gaza, predominantemente refugiados, enfrentam uma ameaça mortal na maior prisão ao ar livre do mundo.”
Artigo publicado no “Expresso Online”, a 15 de maio de 2020. Pode ser consultado aqui
Roger Waters pediu a Conan Osíris que boicote a Eurovisão em Israel. O fundador dos Pink Floyd, um destacado ativista da causa palestiniana, tentou sensibilizar o artista português para a ocupação da Palestina e o “apartheid” ali imposto. Mas a dois meses do Festival, a disputa entre a Rússia e a Ucrânia fez mais danos ao evento do que o conflito israelo-palestiniano…
Roger Waters, fundador dos Pink Floyd, junto ao “muro da Cisjordânia”, na região de Belém, a 21 de junho de 2006. “Stop apartheid”, lê-se AHMAD MEZHIR / REUTERS
Acolher um evento como a Eurovisão pode ser uma faca de dois gumes para um Estado como Israel. Por um lado, confere-lhe uma montra única de promoção do país, já que o evento é visto por centenas de milhões de pessoas. Por outro, tem inerente uma grande dose de risco dada a possibilidade de se registarem boicotes em protesto contra a ocupação israelita da Palestina.
A dois meses da final de Telavive – agendada para 18 de maio – não há, até ao momento, qualquer boicote anunciado. Mas desde domingo que Portugal está na linha de mira do movimento internacional BDS que promove formas de “Boicote, Desinvestimento e Sanções” contra Israel. Na sua página no Facebook, Roger Waters, fundador dos Pink Floyd e um dos mais destacados ativistas da causa palestiniana, publicou uma “carta aberta a Conan Osíris e aos outros 41 finalistas da Eurovisão”.
“Amigos meus disseram-me que Conan Osíris poderia juntar-se à vasta rede de artistas que estão atentos ao apelo palestiniano de boicote à Eurovisão na cidade de ‘apartheid’ de Telavive.” O músico inglês leu a tradução da letra de “Telemóveis”, apreendeu a mensagem “bem profunda” sobre a vida, a morte e o amor e dirigiu-se ao artista português. “[Há dez dias], escrevi-lhe e sugeri que agora ele tinha uma oportunidade para falar da vida sobre a morte e também de direitos humanos sobre erros humanos.”
Na carta, “expliquei que a Eurovisão poderia ser um ponto de inflexão [na situação de ‘apartheid’ em que vivem os palestinianos], pedi a Conan que se erguesse. Infelizmente, até agora, não há resposta de Conan”. À SIC, o português confirmou que recebeu o email, que o leu, mas escudou-se a comentar a abordagem do músico britânico.
Na bolsa das apostas, o inesperado protagonismo de Conan Osíris não o fez mais favorito à vitória do que até então. Esta segunda-feira, estava em 10º lugar quer no EurovisionWorld.com quer no OddsChecker.com — ambos os rankings são liderados pela Holanda, seguida pela Rússia e pela Suécia.
A banda Hatari, que representará a Islândia, tem sido crítica da realização da Eurovisão em Israel FOTO RUV
A ausência de boicotes não significa que as autoridades de Telavive possam confiar num evento sem casos políticos. A perspetiva de algum artista aproveitar o direto para expressar apoio aos palestinianos é real e, com todos os concorrentes já apurados, Telavive tem um receio particular: a banda Hatari, que representará a Islândia com o tema “O ódio prevalecerá”.
Há duas semanas, numa entrevista no Canal 13 de Israel, a banda techno-punk não iludiu a questão: “Houve muita pressão na Islândia para que a competição fosse boicotada. Nós temos sido críticos em relação à realização da competição em Israel, e o facto de a Islândia ter votado em nós significa que concordam com a nossa agenda de manter viva uma discussão muito importante.” A banda — que está em 7º lugar no ranking dos favoritos — não desvendou o que planeia fazer durante a atuação. Porém, “julgamos que não haverá uma bandeira palestiniana no palco”.
Atento à “ameaça”, o Ministério dos Assuntos Estratégicos de Israel montou uma “task force” interministerial para lidar com eventuais críticas de teor político que emirjam de delegações ao festival e que possam constituir uma violação da “Lei de Prevenção de Danos ao Estado de Israel através de Boicote”, de 2011. A organização Shurat HaDin, que representa judeus vítimas de terrorismo, apelou a que a banda seja proibida de entrar no país.
“Não vemos razão para que não sejam autorizados a entrar”, reagiu Jon Ola Sand, supervisor executivo do Festival. “Temos um diálogo estreito com os governantes de Israel, e eles sabem que isso pode rapidamente voltar-se contra eles e contra os organizadores se for recusado visto a alguém.” O “Sr. Eurovisão” acrescentou que a televisão pública islandesa (RUV) está ciente das consequências que podem advir de uma provocação política em palco. As regras da União Europeia de Radiodifusão (EBU, na sigla inglesa) não permitem letras, discursos ou gestos de natureza política e comercial durante a Eurovisão.
Dos 42 membros da EBU com participação prevista na Eurovisão, um saltou fora por razões políticas — não relacionadas com Israel. A Ucrânia, vencedora em 2004 e 2016, e onde Salvador Sobral ganhou, cancelou a sua participação após a candidata escolhida pelo público, Anna Korsun (MARUV de seu nome artístico) ter-se recusado a cancelar os concertos que já tinha agendados… na Rússia.
Uma outra participação envolta em polémica política é a da França. Na semana anterior à Eurovisão, a televisão pública israelita (KAN) tem prevista a transmissão de uma série em três episódios intitulada “Douze Points” (Doze Pontos) alusiva a um festival da canção realizado em Israel. Na trama, o representante francês é um jovem de origem magrebina (franco-argelino), homossexual e muçulmano que se vê pressionado pelo Daesh para realizar um atentado durante o direto do espetáculo. A série decorre num registo humorístico e nem os jiadistas nem os agentes da Mossad que tentam sabotar os planos são poupados à sátira.
Numa coincidência extraordinária, o representante francês em Telavive é Bilal Hassani, um jovem de aparência andrógina, nascido em Paris no seio de uma família franco-marroquina, muçulmano e homossexual. As autoridades francesas acusaram o desconforto, pressionaram para que a série não fosse cancelada mas esclareceu que não tenciona faltar ao evento.
Em matéria de boicotes, dir-se-ia que a organização israelita da Eurovisão tem visto o seu trabalho mais dificultado por… israelitas. Ultrapassadas as meias-finais de 14 e 16 de maio, a final realiza-se no dia 18, um sábado. Entre o pôr do sol de sexta-feira e o de sábado, os judeus observam o “sabbath”, período dedicado à oração e à introspeção, incompatível com qualquer atividade laboral. Ainda que a gala da Eurovisão possa decorrer já num horário posterior, o dia será necessário para ensaios.
Se a escolha de Telavive em detrimento de Jerusalém — a opção preferida do Governo israelita para acolher a Eurovisão — afastou o evento do epicentro de eventuais protestos por parte de judeus ultraortodoxos, não o protegeu em absoluto de danos motivados por questões religiosas. Desafiado pela organização para abrir o espetáculo da final, Omer Adam, estrela da pop israelita, declinou o convite por respeito ao “sabbath”. Já na fase de apuramento do candidato israelita, The Shalva Band, composta por músicos com deficiências e um dos favoritos à vitória, desistiu da competição por incompatibilidade entre os deveres religiosos e o calendário da Eurovisão.
Artigo publicado no “Expresso Diário”, a 18 de março de 2019. Pode ser consultado aqui
Jornalista de Internacional no "Expresso". A cada artigo que escrevo, passo a olhar para o mundo de forma diferente. Acho que é isso que me apaixona no jornalismo.