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O pior atentado cometido por um judeu foi há 25 anos. E hoje ainda há crianças que vão à escola com “escudos humanos”

Há 25 anos, o judeu Baruch Goldstein matou muito mais do que 29 palestinianos. O que então aconteceu “mudou drasticamente o cenário de uma perspetiva de paz — ainda que ilusória — entre palestinianos e israelitas”. Ou, como disse ao Expresso outro analista, o seu legado é “um míssil contra o processo de paz”

Hebron é uma cidade palestiniana onde ir à escola exige das crianças cada vez mais coragem. No centro daquela que é uma das cidades mais antigas do mundo — há várias referências a Hebron na Bíblia — vivem colonos judeus radicais que, não raras vezes, tentam intimidar os jovens insultando-os e levantando obstáculos à sua passagem a caminho da escola.

Até há cerca de um mês, nalgumas zonas mais sensíveis, nos percursos entre casa e escola os estudantes eram escoltados por observadores internacionais de duas organizações — a Presença Internacional Temporária em Hebron (TIPH) e o Programa de Acompanhamento Ecuménico na Palestina e Israel (EAPPI). Lado a lado com as crianças, os voluntários funcionavam como ‘escudos humanos’ perante o assédio dos colonos.

A 28 de janeiro último, o primeiro-ministro de Israel disse que não renovaria o mandato da TIPH, no terreno desde 1997. “Não vamos permitir a presença continuada de uma força internacional que age contra nós”, disse Benjamin Netanyahu. Invocando “questões de segurança”, também a EAPPI debandou da cidade, alegando sentir-se alvo de uma campanha de assédio por parte do grupo sionista de extrema-direita Im Tirtzu.

Para preencher esse vazio, ativistas da organização local Juventude Contra os Colonatos (YAS, na sigla inglesa) passaram a assegurar essas escoltas e a responder a situações de emergência. Recentemente, estes “Observadores dos Direitos Humanos”, como se intitulam, foram chamados a casa de uma família palestiniana que viu soldados israelitas entrarem pelo telhado para levar o filho de 13 anos, a quem acusavam de ter atirado pedras. Frequentemente confrontados na rua pelos colonos, estes “coletes azuis” têm nas câmaras de vídeo uma “arma”, com as quais registam tudo aquilo que — dizem — Israel não quer que se veja.

A necessidade de observadores internacionais em Hebron decorre de uma chacina que ocorreu faz esta segunda-feira precisamente 25 anos e que entrou para a História como o pior ataque terrorista levado a cabo por judeus.

A 25 de fevereiro de 1994 — era sexta-feira e os muçulmanos cumpriam o mês do Ramadão (jejum) —, a Mesquita de Ibrahim (Abraão), no centro histórico de Hebron, encheu-se para a oração da manhã. Envergando uniforme militar, Baruch Goldstein, um judeu ortodoxo de 37 anos, nascido em Nova Iorque (EUA) e residente no colonato de Kiryat Arba, nos arredores da cidade, entrou no templo e disparou sobre os fieis: matou 29 e feriu outros 125. Morreu no local, espancado por sobreviventes.

“O que aconteceu naquele dia mudou drasticamente o cenário de uma perspetiva de paz — ainda que ilusória — entre palestinianos e israelitas”, comenta ao Expresso Giulia Daniele, investigadora no Centro de Estudos Internacionais do ISCTE (Lisboa). “Embora o início da segunda Intifada seja, formalmente, o ano 2000, este massacre marcou o início do rápido aumento da violência que fez jorrar muito sangue na Palestina.”

A matança de Goldstein aconteceu escassos cinco meses após a assinatura do Acordo de Oslo, nos jardins da Casa Branca, em Washington D.C. (EUA), selado com um histórico aperto de mão entre Itzhak Rabin (primeiro-ministro de Israel) e Yasser Arafat (líder palestiniano). Era o primeiro sintoma de que o processo de paz não era consensual. A machadada final não tardaria: a 4 de novembro de 1995, Itzhak Rabin, um dos protagonistas de Oslo, era assassinado em Telavive por um judeu ortodoxo.

“Desde o início, o Acordo de Oslo suscitou uma oposição frontal por parte dos sectores radicais tanto no campo israelita como no palestiniano. Ambos tentaram fazê-lo fracassar a qualquer preço”, explica ao Expresso Ignacio Álvarez-Ossorio, professor na Universidade de Alicante (Espanha). “No caso israelita, o Likud [partido de direita, atualmente liderado pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu] e os grupos de colonos tiveram um papel central nesta tarefa. Tanto Goldstein, o autor do massacre de Hebron, como Yigal Amir, o assassino de Rabin, eram colonos que consideravam os territórios palestinianos parte da Terra Prometida ao ‘povo eleito’.”

Para os judeus, o Túmulo dos Patriarcas — que abriga os mausoléus dos patriarcas e das matriarcas do judaísmo, incluindo Abraão, que está na origem das três religiões monoteístas — é o segundo local mais sagrado, a seguir ao Muro das Lamentações, em Jerusalém. Para muitos muçulmanos, a importância da Mesquita de Ibrahim, situada no mesmo local do Túmulo dos Patriarcas, só é superada pelas cidades santas de Meca, Medina e Jerusalém. No interior, há espaços de oração separados para as duas sensibilidades religiosas. No exterior, quem controla o acesso é Israel.

“Dado o seu significado religioso e histórico”, alerta Giulia Daniele, “Hebron sempre foi uma fortaleza do extremismo ultraortodoxo e dos colonos, com a presença de grupos como Gush Emunim, Kach e Kahane Chai.” Para os judeus mais radicais, outro local de peregrinação na cidade é a sepultura de Baruch Goldstein, em Kiryat Arba, onde vivia. Neste colonato, um dos mais violentos e racistas, vivem à volta de 8000 pessoas. Já depois do massacre de 1994, num episódio particularmente ofensivo para com os próprios judeus, colonos desta comunidade grafitaram paredes de casas palestinianas com a frase: “Árabes para as câmaras de gás.”

Situada na Cisjordânia — território palestiniano ocupado por Israel em 1967 —, a cerca de 30 km para sul de Jerusalém, Hebron é a única grande cidade palestiniana cuja soberania, pelo Acordo de Oslo, não foi totalmente transferida para a Autoridade Palestiniana (AP). O seu estatuto foi regulado pelo Protocolo de Hebron de 1997, que instituiu a partilha da cidade: 80% da área, onde viviam 200 mil pessoas, foi entregue à AP (H-1) e os restantes 20% ficaram sob controlo israelita: hoje vivem ali cerca de 40 mil palestinianos e 800 colonos judeus, estes protegidos por uma força militar em número muito superior (H-2). É também na área H-2 que fica o Túmulo dos Patriarcas.

“O Protocolo de 1997 contemplou uma divisão da cidade completamente assimétrica”, explica o professor espanhol. “Obviamente, não é um acordo equilibrado, é mais um sinal de que o processo de paz não foi entre iguais, mas entre uma parte forte (Israel) e uma parte débil (a Autoridade Palestiniana).”

Na área controlada por Israel existe hoje uma situação de “apartheid” (separação) entre árabes e judeus. A discriminação começa, desde logo, pelo ordenamento jurídico que rege a vida de uns e outros: enquanto aos palestinianos são aplicadas leis militares, os colonos obedecem ao direito civil.

Esmagadoramente maioritária, a população árabe está, porém, em queda, vergada às dificuldades quotidianas colocadas pelo ocupante: “checkpoints” que dificultam a circulação, recolheres obrigatórios, menores detidos, propriedades vandalizadas, oliveiras queimadas pelos colonos, ruas vedadas. Naquelas em que os palestinianos podem andar, há linhas pintadas no chão ou divisórias em betão a mandar uns pela esquerda e outros pela direita.

“Esta política de ‘apartheid’, mais visível na peculiaridade de Hebron evidencia de forma muito significativa o objetivo final da limpeza étnica que Israel tem vindo a conduzir desde 1948 no sentido de aumentar, cada vez mais, a população israelita nos territórios palestinianos e, por outro lado, expulsar a população indígena”, conclui Giulia Daniele. “O que está a acontecer em Hebron não é um caso isolado, há muitos outros semelhantes, mas é o caso mais emblemático da lógica de ‘apartheid’ usada por Israel para dividir e fragmentar tanto o território como a população palestinianos.”

Em Hebron, uma das ações de protesto mais persistentes pugna pela reabertura da Rua Shuhada, outrora a principal artéria comercial da cidade e hoje um espaço fantasma, símbolo maior da ocupação e da discriminação. A sua interdição aos palestinianos — que tem contribuído para a asfixia económica da cidade — é uma consequência direta do massacre de 1994.

“Em vez de serem penalizados pelo seu comportamento, os colonos obtiveram um tratamento favorável de todos os governos israelitas”, diz Ignacio Álvarez-Ossorio. “Independentemente da sua cor política, deram-lhes todo o tipo de facilidades para que continuem a colonizar o território palestiniano, apesar de essa colonização representar um míssil contra o processo de paz.”

(Foto: Capa da edição de 26 de fevereiro de 1994 do jornal norte-americano “The New York Times”, em que noticia o massacre de Hebron ARQUIVO THE NEW YORK TIMES)

Artigo publicado no Expresso Diário, a 25 de fevereiro de 2019. Pode ser consultado aqui

De Nazaré a Belém, 2018 anos depois

O trilho percorrido por José e Maria a caminho de Belém, onde nasceria Jesus Cristo, far-se-ia hoje entre checkpoints militares, colonatos, campos de refugiados e paredes de betão

A Bíblia é omissa em pormenores mas, no terceiro Evangelho, São Lucas refere-se à viagem de José e Maria, nas vésperas do nascimento de Jesus. “Por aqueles dias, saiu um édito da parte de César Augusto para ser recenseada toda a terra. (…) Todos iam recensear-se, cada qual à sua própria cidade. Também José, deixando a cidade de Nazaré, na Galileia, subiu até à Judeia, à cidade de David, chamada Belém, por ser da casa e linhagem de David, a fim de se recensear com Maria, sua esposa, que se encontrava grávida. E, quando eles ali se encontravam, completaram-se os dias de ela dar à luz.”

Nos dias de hoje, esse seria um percurso bastante sinuoso. O casal teria de atravessar duas entidades políticas e ultrapassar obstáculos decorrentes de uma das disputas mais insolúveis do nosso tempo — o conflito israelo-palestiniano.

INFOGRAFIA DE JAIME FIGUEIREDO

NAZARÉ
A cidade que identifica a origem de Jesus situa-se hoje no norte de Israel. Até à criação do Estado judeu, em 1948, tinha uma matriz cristã. Após a eclosão da primeira guerra israelo-árabe (1948-49), a região recebeu um grande fluxo de palestinianos em fuga ou expulsos de suas casas. Hoje, Nazaré é a maior cidade árabe israelita, com cerca de 75 mil habitantes, maioritariamente muçulmanos.

Para os peregrinos cristãos que rumam à Terra Santa, é paragem obrigatória, como Belém (onde Jesus nasceu) e Jerusalém (onde morreu). Junto às ruínas da carpintaria de José, ergue-se a Igreja de São José. E sobre os vestígios da casa de Maria foi construída a Igreja da Anunciação, muito procurada para casamentos de cidadãos israelitas árabes cristãos.

Seguindo para sul, o caminho faz-se entre povoações que ora falam árabe e rezam em igrejas ou mesquitas ora se expressam em hebraico e frequentam sinagogas. Uma delas é o moshav de Balfurya — um moshav é uma propriedade agrícola comunitária —, fundado em 1922 e assim batizado em homenagem ao conde de Balfour, ministro dos Negócios Estrangeiros britânico, que cinco anos antes defendera um “lar judeu” no território histórico da Palestina. Em 2017, viviam ali 491 pessoas.

Não muito longe, Mqeibleh é uma aldeia árabe com população cristã e muçulmana. É o último aglomerado antes da fronteira.

JALAMAH
Cerca de 20 quilómetros para sul de Nazaré, o checkpoint de Jalamah assinala a fronteira entre Israel e o território palestiniano ocupado da Cisjordânia. Junto ao este posto de controlo, ergue-se o muro — a que Israel chama “vedação de segurança” — que, ora em betão ora em arame, vai contornando o território palestiniano.

Quem ali vive diz que o muro é uma forma de Israel roubar terras que não lhe pertencem, já que nem sempre o traçado do muro coincide com a Linha Verde, a fronteira estabelecida pelo Armistício de 1949 e internacionalmente reconhecida.

Em vários pontos, o muro corta aldeias ao meio, dividindo famílias e, por vezes, separando a casa do quintal. Para quem fica com propriedades no “lado errado” do muro, as burocracias exigidas para ir de um lado ao outro impossibilitam a prática agrícola — o ganha-pão.

No checkpoint, só passam árabes com cidadania israelita ou palestinianos da Cisjordânia devidamente autorizados pelas autoridades de Telavive. É o caso de muitos trabalhadores que moram na Cisjordânia e labutam em Israel.

JENIN
Situada no coração de uma área agrícola fértil, Jenin foi outrora uma movimentada zona comercial — até que o muro a privou de liberdade de acesso aos mercados da região e a Intifada de Al-Aqsa (a segunda, entre 2000 e 2005) fez da povoação alvo da retaliação israelita.

Em Jenin fica o campo de refugiados mais a norte da Cisjordânia, estabelecido em 1953 e onde vivem 14 mil pessoas. Vistos por Israel como bastiões de militância, nem o campo nem a cidade estão a salvo de incursões do exército judeu (Tsahal). Muitas vezes pela calada da noite, invadem povoações, revistam casas, interrogam famílias, confiscam bens e detêm pessoas sem acusação.

NABLUS
A 45 quilómetros de Jenin surge Nablus, uma das cidades mais antigas do mundo, referida na Bíblia como Shechem. À semelhança de Jenin, Nablus é uma fortaleza de resistência à ocupação israelita, o que a sujeita a raides militares israelitas. Está também exposta à violência de colonos judeus que, com frequência, vandalizam sobretudo olivais.

A sul de Nablus, o colonato de Yitzhar — fundado em 1984 e onde vivem 1500 judeus — tem fama de ser dos mais violentos. Atacam não só povoações palestinianas mas também as próprias forças israelitas.

BALATA
É o maior dos 19 campos de refugiados existentes na Cisjordânia, geridos pela UNRWA, agência das Nações Unidas criada em 1949 para responder ao êxodo palestiniano que se seguiu à criação de Israel. Então, estavam em causa à volta de 750 mil pessoas; hoje, mais de cinco milhões estão habilitadas a recorrer aos serviços providenciados pela ONU, em campos na Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Líbano, Síria e Jerusalém Oriental. Se antes viviam em tendas, hoje moram em prédios. O que devia ter sido uma situação temporária tem — na falta de paz — um carácter cada vez mais definitivo.

O atual mandato da UNRWA termina em 2020. Até lá, a agência lutará com dificuldades inesperadas: em agosto, os EUA — o maior doador — cortaram o financiamento.

HUWWARAH
Segundo a ONG israelita B’Tselem, em janeiro de 2017 havia 98 checkpoints fixos na Cisjordânia, 59 dos quais internos, como o de Huwwarah, passagem obrigatória para quem vai para sul.

A pé ou de carro, pode ser-se interrogado sobre os motivos da deslocação. A espera na fila pode ser demorada e mesmo ambulâncias podem ter de aguardar por vez. Várias mulheres já deram à luz em checkpoints. Em Huwwarah, um bebé morreu a 12 de setembro de 2008, após nascer prematuro no local.

O funcionamento dos postos de controlo obedece a horários rígidos. Em épocas de tensão — após atentados, ataques isolados ou bombardeamentos à Faixa de Gaza, por exemplo —, os checkpoints podem encerrar.

SHILO
Para Israel, os checkpoints são fundamentais para abortar planos de ataque contra judeus, nomeadamente os mais de 500 mil colonos que vivem na Judeia e Samaria (como o Estado hebraico chama à Cisjordânia). Cerca de 4 mil vivem em Shilo, colonato religioso fundado em 1978 de forma engenhosa — e em terras privadas, denunciam os palestinianos. Aproveitando a existência na zona de vestígios arqueológicos com significado para os judeus, uma comunidade liderada pelo extremista Ira Rappaport obteve autorização do Governo para aí fazer uma escavação arqueológica. O aglomerado foi crescendo, em dimensão e habitantes.

Em nome do bem-estar nos colonatos — ilegais, ao abrigo do direito internacional —, há estradas só para judeus, que beneficiam também de acesso privilegiado às melhores terras e aos recursos hídricos, com prejuízo sobretudo das populações nómadas beduínas.

Este apartheid é fonte de tensão permanente. A 9 de dezembro, sete judeus foram feridos a tiro num entroncamento perto do colonato de Ofra, na região de Ramallah, durante uma vigília noturna.

RAMALLAH
É a capital administrativa da Autoridade Nacional Palestiniana, que, pelos Acordos de Oslo (1993), é o Governo provisório até à proclamação da independência e subsequente eleição de órgãos de soberania. Em Ramallah (e na cidade adjacente de Al-Bireh) estão sediadas as principais instituições palestinianas, bem como representações diplomáticas.

A cidade é, por isso, naturalmente cosmopolita, economicamente dinâmica e socialmente mais aberta, com restaurantes modernos e bares com todo o tipo de álcool e plasmas sintonizados em partidas de futebol das principais ligas europeias.

QALANDIA
Para se ir de Ramallah a Belém, há duas opções. Uma implica atravessar o checkpoint da Qalandia, passagem obrigatória para quem quer ir para Jerusalém. No exterior, o muro que passa rente é uma autêntica galeria, transformado em tela por artistas e ativistas de todo o mundo que expressam a sua oposição à ocupação da Palestina através de grafitos.

O caminho alternativo permite contornar o posto, mas é mais longo. Esta opção dá razão aos palestinianos quando dizem que os checkpoints surgem no caminho para lhes infernizar o dia a dia, fazendo-os gastar mais tempo e dinheiro. Vencidos pelo cansaço, talvez um dia partam dali.

BEIT SAHOUR
Discreta aldeia nas imediações de Belém, estima-se que corresponda ao campo de pastores que, segundo São Lucas, recebeu a visita do anjo: “Não temais, porque aqui vos trago novas de grande alegria (…). Pois, na cidade de David, nasceu hoje o Salvador.”

BELÉM
Passados cerca de 100 quilómetros, por fim Belém. Para entrar na cidade há que atravessar mais um checkpoint junto ao muro que, como o da Qalandia, é uma montra de street art. Em 2017, à distância de uma rua para o muro, foi ali inaugurado o Walled Off Hotel, que promete “as piores vistas do mundo”. Inacessível a qualquer bolsa, é propriedade de Banksy, o misterioso artista britânico que assina muitos grafitos no muro.

Como acontece por todo o Médio Oriente, a população cristã de Belém está em queda. Outrora esmagadora, em 2016 não ia além dos 16%. Resiliente, a cidade — cujo presidente da Câmara é sempre um cristão (atualmente uma mulher, Vera Baboun) — não esquece a herança que a notabiliza. Todos os anos é montada uma grande árvore de Natal na Praça da Manjedoura. Contígua, a Igreja da Natividade abriga a gruta onde se crê que Jesus nasceu.

Artigo publicado no Expresso, a 22 de dezembro de 2018 e republicado no “Expresso Online”, no dia seguinte. Pode ser consultado aqui

Austrália reconhece (metade de) Jerusalém como capital de Israel

A embaixada australiana continuará em Telavive. A mudança fica dependente de um acordo entre israelitas e palestinianos. O Brasil poderá ser o próximo país a ir no rasto da histórica decisão de Donald Trump que reconheceu Jerusalém como capital de Israel

O Governo australiano anunciou, este sábado, o reconhecimento de Jerusalém Ocidental como capital de Israel. A embaixada australiana continuará, porém, em Telavive. A sua transferência para a Cidade Santa — bem como o reconhecimento de Jerusalém Oriental como capital do futuro Estado da Palestina — fica dependente da assinatura de um tratado de paz entre israelitas e palestinianos.

“O Governo australiano decidiu que a Austrália reconhece que Jerusalém Ocidental, o local onde se situa o Knesset [Parlamento] e muitas das instituições do Governo, é a capital de Israel”, afirmou Scott Morrison, no cargo desde agosto, num discurso no Instituto de Sidney.

O primeiro-ministro defendeu que a decisão visa apoiar a “democracia liberal” no Médio Oriente e considerou as Nações Unidas um local onde Israel é “intimidado”.

A oposição denunciou uma manobra política visando a obtenção de ganhos nas eleições legislativas previstas para o próximo ano. “Preocupa-me que o Sr. Morrison coloque os seus interesses políticos à frente do nosso interesse nacional”, reagiu o líder da oposição, Bill Shorten.

Paraguai fez marcha-atrás

A Austrália torna-se assim o último país a ir no rasto da histórica decisão dos Estados Unidos — anunciada por Donald Trump a 6 de dezembro de 2017, e que reverteu uma posição política de décadas — de reconhecer Jerusalém como capital de Israel. A embaixada norte-americana em Jerusalém foi deste ano.inaugurada por Ivanka Trump a 14 de maio

Guatemala e Paraguai seguiram a posição norte-americana. Mas em Assunção, um novo Presidente levou a um recuo na decisão. Em setembro, o novo Presidente, Mario Abdo Benítez, considerou a decisão do seu antecessor, Horacio Cartes, “absolutamente unilateral, sem consulta e sem argumentos fundados no Direito Internacional”. Benítez mandou fechar a embaixada em Jerusalém, ao que Israel respondeu encerrando a sua missão diplomática em Assunção.

O Brasil foi o último país a anunciar intenções para mudar a sua embaixada de Telavive para Jerusalém. Jair Bolsonaro referiu-se ao assunto durante a campanha eleitoral e, em finais de novembro, um dos seus filhos, o deputado federal Eduardo Bolsonaro, reuniu-se em Washington com Jared Kushner, o genro de Trump que detém a pasta do conflito israelo-palestiniano. “Isto não é uma questão de ‘se’ o vamos fazer, mas de ‘quando’ o vamos fazer”, disse Eduardo Bolsonaro.

https://twitter.com/BolsonaroSP/status/1067507960333692929

Jerusalém é a cidade desejada por israelitas e palestinianos para capital dos respetivos Estados. Na parte Oriental — ocupada por Israel na Guerra dos Seis Dias de 1967 —, localizam-se os principais lugares santos para as três religiões monoteístas: o Muro das Lamentações (judaísmo), o Santo Sepulcro (cristianismo) e a Mesquita de Al-Aqsa (islamismo).

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 15 de dezembro de 2018. Pode ser consultado aqui

Soros, pensos e compressas: as “armas” que condenaram Razan à morte

Razan al-Najjar foi alvejada a tiro por um militar israelita quando tentava socorrer palestinianos feridos nos protestos na Faixa de Gaza. Jovem, formada, corajosa e altruísta, é a prova de que mais do que punir quem se atreve a aproximar-se da sua fronteira, Israel quer minar o futuro da Palestina

ILUSTRAÇÃO DE CARLOS LATUFF

Um colete manchado com sangue. Nos bolsos, pacotes de compressas. “Isto [o colete] era a arma que a minha filha usava para lutar contra os sionistas. E isto [as compressas] eram as munições para essa arma. E aqui está a identificação dela para que possam ver se era terrorista ou não.”

Na hora de chorar a morte da filha, alvejada por um “sniper” israelita, Sabreen al-Najjar mostra as “armas” que a condenaram, num vídeo partilhado nas redes sociais, e deixa que a lucidez se sobreponha à emoção para denunciar o que se passa na Faixa de Gaza. “Os terroristas são os sionistas, que se vangloriam sobre direitos humanos e deixam-nos, aos palestinianos, sem direitos. Onde estão os direitos humanos? Nem este colete a salvou…”

Razan al-Najjar, uma paramédica de 21 anos, foi morta na passada sexta-feira, na Faixa de Gaza, junto à fronteira com Israel, atingida a tiro quando tentava prestar os primeiros socorros a um manifestante ferido, na área de Khuza’a, região de Khan Yunis (sul de Gaza). “Ela foi baleada no peito. A bala rasgou o colete branco estampado com o logótipo da Sociedade Médica de Socorro Palestiniana (PMRS) que a identificava como pessoal médico”, esclareceu, em comunicado, a organização onde Razan trabalhava como voluntária.

Testemunhas ouvidas pela Al-Jazeera relatam que tudo aconteceu quando Razan se aproximou da vedação com a intenção de resgatar um manifestante ferido, caído do lado de Israel, para onde passara após fazer um buraco na rede.

Rida, outra voluntária de 29 anos, ia com ela. Seguiam de braços no ar para mostrarem aos soldados israelitas que não constituíam qualquer perigo. “Assim que entrámos na cerca para recuperarmos os manifestantes, os israelitas lançaram gás na nossa direção. Depois, um atirador disparou uma única bala, que atingiu Razan.”

A morte da jovem não foi imediata. Assistida no local, foi levada para o Hospital Europeu de Gaza, onde acabaria por falecer. “Os fragmentos da bala feriram três outros membros da nossa equipa”, diz Rida. “Era muito claro quem éramos, dados os nossos uniformes, os nossos coletes e bolsas médicas. Não havia outros manifestantes à nossa volta, apenas nós.”

Desde o início da Grande Marcha do Regresso, a 30 de março, que Razan não falhou uma única sexta-feira, o dia dos protestos maiores, de que resultaram sempre mortos. Com esse ativismo, desafiou também estereótipos numa sociedade conservadora como a de Gaza que nem sempre vê com bons olhos o envolvimento das mulheres na vida pública. Num artigo publicado pelo site do Expresso, a 14 de maio, sobre palestinianas na linha da frente dos protestos em Gaza, Razan é uma das “guerreiras” retratadas. É ela quem surge na foto número 15, em dificuldades, após inalar gás tóxico.

Quarenta ambulâncias sob fogo

Razan al-Najjar é a 119ª vítima mortal da Grande Marcha. “No total, Israel feriu 245 paramédicos desde o fim de março, 29 dos quais com fogo real, e alvejou 40 ambulâncias. Atirar contra pessoal médico é um crime de guerra ao abrigo das Convenções de Genebra, tal como alvejar crianças, jornalistas e civis desarmados”, recordou, num comunicado, Mustafa Barghouti, presidente e fundador da PMRS, criada em 1979. “Exigimos uma resposta internacional imediata às violações israelitas ao direito humanitário em Gaza. Apelamos aos nossos amigos e parceiros internacionais que condenem publicamente o assassínio de Razan e que exijam que Israel seja responsabilizado pelos seus crimes ao abrigo do direito internacional.”

Barghouti é um médico e ativista palestiniano que concorreu como independente às eleições presidenciais de 9 de janeiro de 2005, as últimas realizadas. Obteve 19,8% dos votos — foi o segundo mais votado de sete candidatos —, perdendo apenas para Mahmud Abbas (62%). Faz o seu papel ao denunciar os abusos de Israel, mas a experiência política diz-lhe que dificilmente essa responsabilização se concretizará e que, o mais provável, é ouvir um rotundo silêncio.

No dia em que Razan al-Najjar caía morta, a defesa intransigente que os Estados Unidos fazem de Israel no Conselho de Segurança das Nações Unidas — e que, ao longo de décadas, tem comprometido administrações republicanas e democratas — ganhou contornos particularmente polémicos: num primeiro momento, os norte-americanos aplicaram o direito de veto a uma proposta de resolução de iniciativa do Kuwait apelando à “segurança e proteção das populações civis dos territórios palestinianos ocupados, incluindo a Faixa de Gaza”; em alternativa, avançaram com uma resolução exigindo o fim de “todas as ações violentas de provocação” por parte do Hamas e de outros grupos palestinianos, omitindo referências ao uso da força por parte de Israel e à necessidade de proteger os palestinianos. O texto recebeu um único voto favorável — o dos Estados Unidos.

Artigo publicado no Expresso Diário, a 4 de junho de 2018, e republicado no “Expresso Diário”, no dia seguinte. Pode ser consultado aqui e aqui

Bancos israelitas fazem negócio às custas da ocupação

Os bancos israelitas são cúmplices da ocupação da Palestina. Financiando projetos de construção, concedendo empréstimos ou simplesmente abrindo balcões — aos quais a população palestiniana não pode aceder — contribuem para perpetuar uma situação ilegal e discriminatória. Um relatório da Human Rights Watch, divulgado esta terça-feira, põe o dedo na ferida

Judeus usam o multibanco, fora de uma agência bancária no colonato de Modi’in Ilit, Cisjordânia HUMAN RIGHTS WATCH

O que de ilegal pode ter uma caixa multibanco num aglomerado populacional? Tudo, se o terminal pertencer a um banco israelita e a povoação em causa for um colonato judeu no território palestiniano da Cisjordânia. Ao abrigo do direito internacional, os colonatos são ilegais, pelo que o financiamento de projetos de construção, a concessão de empréstimos a autoridades locais ou a abertura de agências bancárias nos colonatos tornam os bancos israelitas cúmplices de crimes de guerra.

“Fazer negócios com ou nos colonatos contribui para graves violações dos direitos humanos e do direito internacional humanitário”, defende ao Expresso Sari Bashi, diretora do programa da Human Rights Watch (HRW) para Israel e a Palestina. “Infelizmente, as empresas não podem mitigar esses abusos, porque eles são inerentes aos colonatos”, que se desenvolvem em terras confiscadas ilegalmente e em condições de discriminação.

Esta terça-feira, a HRW divulgou o Relatório “Bankrolling abuse: Israeli banks in West Bank settlements” no qual defende que os maiores bancos de Israel fornecem serviços que “apoiam e ajudam a manter e a expandir os colonatos na Cisjordânia”.

“Os serviços prestados nos colonatos são intrinsecamente discriminatórios, porque os palestinianos da Cisjordânia não podem entrar nos colonatos, exceto se forem trabalhadores e tiverem licenças especiais”, explica Sari Bashi. “Por isso, os palestinianos não podem obter hipotecas para comprar casas nos colonatos — porque não podem aceder às terras dos colonatos. Não podem usar os multibancos nos colonatos — porque não podem lá entrar. Não desfrutam dos empréstimos dos bancos aos colonatos para a construção de piscinas e centros recreativos — porque o acesso a essas instalações está-lhes vedado.”

Os bancos israelitas defendem-se alegando estarem obrigados pela lei do Estado. A HRW contesta, dizendo que os bancos podiam cessar muitas das suas operações nos colonatos sem consequências legais adversas. “Contrariamente ao que dizem os bancos israelitas, eles não estão obrigados à maioria dos serviços que prestam nos colonatos”, diz Sari Bashi, que antes de trabalhar na HRW cofundou o grupo israelita de direitos humanos Gisha — Centro Legal para a Liberdade de Movimento. “Para cumprir as suas responsabilidades ao nível dos direitos humanos, os bancos deveriam cessar as suas atividades nos colonatos.”

Num relatório publicado em setembro, a HRW já tinha feito um levantamento das atividades bancárias nos colonatos. “É um mapeamento muito parcial, porque os sete grandes bancos contactados recusaram-se a divulgar publicamente o âmbito e a extensão das suas operações nos colonatos”, diz Sari Bashi. “Esse levantamento sugere que os serviços são prestados mediante oportunidades de negócios.”

Por exemplo, os bancos optam por estabelecer balcões em colonatos grandes, onde potencialmente têm mais clientes. Concorrem entre si na concessão de empréstimos às autoridades locais. E escolhem os projetos de construção que querem “acompanhar”. “Os bancos fazem negócios, mas na opinião da HRW essas decisões são contrárias às suas responsabilidades relativas aos direitos humanos” — que constam dos Princípios Orientadores sobre Empresas e Direitos Humanos, adotados pelas Nações Unidas em 2011.

Segundo a HRW, quatro grandes bancos israelitas — Bank Hapoalim, Bank Leumi, Bank Discount e Mizrahi Tefahot — subscreveram o Pacto Global da ONU, uma iniciativa que encoraja as empresas a adotarem políticas sustentáveis e de responsabilidade social e que inclui um compromisso no sentido do respeito pelos direitos humanos proclamados internacionalmente. “Cada banco publica um relatório anual sobre responsabilidade social empresarial”, lê-se no documento da HRW. Porém, “nenhum deles, nas edições de 2016, as mais recentes, aborda especificamente atividades nos colonatos israelitas”.

O relatório divulgado esta terça-feira concretiza a cumplicidade entre bancos e ocupação. Na aldeia palestiniana de Azzun, atravessada pelo chamado “muro da Cisjordânia”, o Leumi é parceiro num projeto de construção de cinco novos edifícios no colonato de Alfei Menashe, que cresceu em terras que anteriormente pertenciam à aldeia.

Noutro caso, o Mizrahi Tefahot “acompanha” dois novos projetos residenciais, nos arredores da aldeia palestiniana de Mas-ha, num total de 251 casas. Basicamente, estes planos expandem o colonato de Elkana na direção de Mas-ha, restringindo o acesso dos palestinianos às terras e forçando a deslocalização de populações.

“A transferência, por parte do ocupante [Israel], de membros da sua população civil para o território ocupado [Cisjordânia] e a deportação ou transferência de membros da população do território são crimes de guerra”, conclui o relatório. “As atividades dos bancos financiam um passo perigoso” desse processo. Ao viabilizarem a expansão dos colonatos, facilitam a transferência ilegal de população.

Artigo publicado no Expresso Diário, a 29 de maio de 2018 e republicado no “Expresso Diário” no dia seguinte. Pode ser consultado aqui e aqui