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Ataque aéreo a Gaza. “Qualquer lugar pode ser um alvo de Israel a qualquer momento. Por isso o ataque é em todo o lado”

Perto da uma da manhã (23h00 em Portugal continental), Israel terá lançado uma série de ataques aéreos contra posições do Hamas na Faixa de Gaza. Este tipo de ataques já aconteceram outras vezes e o último foi há menos de uma semana. “O hotel abanou, as janelas abanaram. Dezenas de mísseis foram lançados por drones e F-16”, conta Jomma Sommarstrom, jornalista sueco da Swedish Radio em Gaza. Já Ahmed Salama, fotografo em Gaza, diz que os ataques devem ter atingido zonas descampadas mas como Gaza é tão pequeno, “há pessoas e edifícios perto dos locais atacados”

Na madrugada desta quinta-feira (quando passava pouco das 23h00 em Portugal), Israel voltou a bombardear a Faixa de Gaza. Sexta-feira passada tinha ficado marcada como o dia mais violento em Gaza desde 2014. Mais de 50 palestinianos foram mortos pelo exército israelita em protestos na Faixa de Gaza contra o bloqueio económico e social que sofrem há mais de dez anos — e pelo direito de regressarem a um território que consideram ocupado por Israel. No sábado, Israel fechou um dos principais postos fronteiriços com Gaza e destruíram um dos túneis construídos pela milícia palestiniana Hamas construidos numa tentativa de continuar a trazer bens essenciais para Gaza.

O jornal “Times of Israel” confirmou que Israel conduziu uma série de ataques a bases militares no norte da Faixa de Gaza e cita fontes da imprensa palestiniana avançando ainda que estes ataques terão sido uma reposta aos alegados ataques da milícia palestiniana Hamas à cidade israelita de Sderot, que fica perto da fronteira com Gaza. De acordo com o jornal, seis alvos foram atacados.

Nisreen Ashabrawi, estudante de Gaza de 21 anos, ouviu as explosões e conta uma revolta que não é só contra Israel mas também contra o armamento fornecido pelos Estados Unidos. “As forças israelitas estão a bombardear Gaza não apenas com F-16 norte-americanos como também nos estão a atingir com gás lacrimógeneo”. Em Gaza, diz, “qualquer lugar pode ser um alvo de Israel a qualquer momento. Por isso o ataque é em todo o lado”.

Ahmed Salama é fotógrafo em Gaza e descreveu ao Expresso, através de uma conversa no serviço de mensagens instantâneas do Twitter, os primeiros momentos depois do ataque: “Ouvi três fortes explosões a cerca de quinze quilómetros de onde estou. Penso que os ataques tenham atingido zonas descampadas e até agora não me chegaram notícias de que tenha havido mortos”. Ainda assim, salienta, “há pessoas e edifícios perto dos locais atacados”. Não há registo de vítimas até ao momento e, por isso, Ahmed ironiza: “Não há mortos ou feridos por isso isto é tudo normal”.

Alguns palestinianos, contudo, preferem não dramatizar, apesar de também falar de uma normalidade que não tem nada de normal. “Este ataque não foi mais forte que os outros, teve a mesma intensidade e não creio que tenha sido o início de uma ação prolongada, foi só mais um ataque”, diz por seu lado Mohamed Halabi, funcionário público em Gaza.

Cerca de cinco horas antes do ataque, as Forças de Defesa israelitas confirmaram, através da sua conta no Twitter, que tinham atingido dois postos militares do Hamas no Sul de Gaza. As informações agora parecem ser que os ataques divergiram para o ocidente e norte da pequena faixa de terra que, no total, tem 41 quilómetros de comprimento.

As mortes de sexta-feira elevaram para 112 o número de palestinianos mortos na Faixa de Gaza desde o início, a 30 de março, de um movimento de contestação em massa, a “Marcha do Retorno”. Entre os 60 civis palestinianos hoje abatidos a tiro pelo exército israelita, contavam-se “oito crianças com menos de 16 anos”, afirmou o embaixador palestiniano na ONU, Riyad Mansour, em conferência de imprensa, acrescentando que “mais de 2.000 palestinianos ficaram feridos” durante os protestos.

Jomma Sommarstrom, jornalista sueco da Swedish Radio em Gaza, também partilhou o que viu — e sentiu. Estava no quarto de hotel em Gaza quando as explosões aconteceram e ouviu quatro, duas delas muito próximas de onde está. “O hotel abanou, as janelas abanaram. Dezenas de mísseis foram lançados por drones e F-16”, conta ao Expresso. As informações que recolheu no local, e que partilhou, dão conta de seis ataques a fábricas de armamento e posições militares do Hamas.

Artigo escrito com Ana França, Helena Bento e Marta Gonçalves.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 16 de maio de 2018. Pode ser consultado aqui

O dia em que os palestinianos choraram duas catástrofes

A história registará que um dos dias mais importantes para Israel coincidiu com mais um banho de sangue na Faixa de Gaza. Esta terça-feira, começaram a ser enterrados os 60 palestinianos mortos durante protestos junto à fronteira no dia do 70º aniversário do Estado judeu. Entre eles está um homem que tinha ficado sem pernas num bombardeamento israelita anterior

ILUSTRAÇÃO DE JOÃO CARLOS SANTOS

É assim há 70 anos. Ano após ano, os palestinianos vivem cada 15 de maio como um dia de luto, em memória da “Nakba”, a “catástrofe” que para eles significou a fundação do Estado de Israel e o êxodo de mais de 700 mil palestinianos das terras onde sempre viveram. Este ano, a catástrofe foi sentida duplamente.

Esta terça-feira, na Faixa de Gaza, começaram a ser enterrados os 60 palestinianos abatidos na véspera por atiradores israelitas posicionados no outro lado da fronteira, naquele que foi o dia mais sangrento desde a última guerra entre Israel e o Hamas, em 2014. Munidos com o mais sofisticado equipamento militar, tinham ordem para alvejar quem ousasse aproximar-se da fronteira para reclamar o que é seu — as terras ocupadas por Israel.

No outro território palestiniano, a Cisjordânia, a solidariedade manifestou-se sob a forma de uma greve geral que parou lojas e escolas. Em várias cidades, as sirenes tocaram durante 70 segundos para assinalar a “Nakba” e homenagear as vítimas.

Na segunda-feira, morreram 60, mas desde o início da Grande Marcha do Regresso, a 30 de março, que tombaram pelo menos 108 palestinianos. “Parece que qualquer um está sujeito a ser morto”, reagiu o porta-voz do Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos, Rupert Colville. “Não é aceitável que [Israel] diga: ‘Isto é o Hamas, por isso [a nossa reação] está bem’”, acrescentou. “Que ameaça representa um duplo amputado para quem está do outro lado de uma cerca altamente fortificada?”

O Conselho de Segurança das Nações Unidas reuniu-se, esta terça-feira, para debater a situação em Gaza, e escutou a embaixadora dos Estados Unidos defender o indefensável: “Nenhum país nesta sala agiria com mais moderação do que Israel”, afirmou Nikki Haley. Na segunda-feira, nos corredores da ONU, os norte-americanos saíram em defesa dos israelitas e bloquearam uma declaração que apelava a uma “investigação independente e transparente” às ações de Israel junto à fronteira.

Aos microfones da rádio, a ministra da Justiça, Ayelet Shaked — defensora da pena de morte e da amputação de direitos à população árabe de Israel em nome da maioria de judeus —, tranquilizou os israelitas dizendo que Israel não tem medo do Tribunal Internacional de Justiça de Haia. “As Forças de Defesa de Israel estão a atuar muito, muito bem, ao abrigo dos protocolos de uso de fogo real e dentro da lei e do direito.”

O governo israelita considera que os protestos junto à fronteira constituem um “estado de guerra” pelo que a lei humanitária internacional não se aplica.

O mais recente massacre na Faixa de Gaza motivou reações em todo o mundo, mas poucas ações. África do Sul e Turquia mandaram regressar os seus embaixadores em Telavive e expulsaram os diplomatas israelitas nos seus países. “Netanyahu é o primeiro-ministro de um Estado de apartheid… Tem o sangue dos palestinianos nas suas mãos”, acusou o Presidente turco, Recep Tayyip Erdogan.

Na Europa, a Bélgica convocou a embaixadora israelita no país para uma reunião, esta quarta-feira, no ministério dos Negócios Estrangeiros. Dos outros países ouviram-se as condenações vagas habituais. “Israel tem de respeitar o direito aos protestos pacíficos e o princípio da proporcionalidade no uso da força”, disse a chefe da diplomacia da União Europeia, Federica Mogherini. “França condena a violência”, disse a presidência. “Estamos preocupados com relatos de violência e perdas de vidas em Gaza”, reagiu o gabinete da primeira-ministra britânica.

“Chocada e profundamente preocupada”, a Alemanha disse que “Israel tem o direito a defender-se e a garantir a segurança da vedação [na fronteira] contra incursões violentas. Porém, deve aplicar-se o princípio da proporcionalidade.” O Governo português apelou “à contenção de todas as partes envolvidas, no sentido de pôr fim à violência”.

Portugal não se fez representar na inauguração da embaixada dos EUA, como a esmagadora maioria dos 28 Estados membros da UE. Entre os 32 países que assistiram à cerimónia, quatro europeus quebraram a unanimidade europeia: Áustria, Hungria, República Checa e Roménia.

Em Jerusalém, estiveram presentes também Angola e três países que, no rasto dos EUA, vão transferir as suas embaixadas de Telavive para Jerusalém: Guatemala, Paraguai e Honduras.

Esta terça-feira, o dia foi de ressaca também em Telavive. Ontem à noite, a capital de Israel recebeu em êxtase Netta Barzilai, a vencedora da Eurovisão que, acabada de chegar de Lisboa, subiu ao palco, apresentada pelo presidente da Câmara, Ron Huldai, e cantou “Toy” para dezenas de milhares de pessoas que encheram a Praça Rabin. A 70 quilómetros de distância, enquanto se choravam os mortos, crescia o ódio a Israel.

Artigo publicado no Expresso Diário, a 15 de maio de 2018. Pode ser consultado aqui

Os palestinianos de Israel

A criação de Israel tornou-os uma minoria involuntária no território onde sempre viveram. Os israelitas árabes correspondem a um quinto da população, num país que ora reconhece o seu mérito ora os discrimina pela cultura a que pertencem

No norte de Israel, na cidade de Nazaré — de grande simbolismo para os cristãos —, o movimento à volta da Igreja da Anunciação é uma pequena montra do quão diversificada é a sociedade israelita. Aos domingos, é muito frequente ver-se chegar àquele templo cortejos matrimoniais de cidadãos israelitas árabes cristãos. Confuso para quem aterra em Israel pensando que ali só vivem judeus.

Cerca de 20% da população de Israel é árabe. Ali moravam ou descendem de quem ali vivia quando Israel foi fundado, e optaram por ficar apesar do êxodo de centenas de milhares de árabes aquando da Guerra da Independência. Involuntariamente, tornaram-se uma minoria. “A maior parte dos cidadãos árabes de Israel não celebra o aniversário do Estado, exceção feita à minoria drusa. Alguns até o consideram a ‘Nakba’, o desastre, como o sentem, que atingiu a comunidade árabe palestiniana” após a fundação de Israel, explica ao Expresso Frish Hillel, professor no Departamento de Estudos do Médio Oriente, da Universidade Bar-Ilan, arredores de Telavive. “Muitos árabes são ambivalentes, entre um sentimento de perda e a perceção de viverem muito melhor e num ambiente mais democrático enquanto cidadãos israelitas do que concidadãos seus em países árabes.”

Frish Hillel, um estudioso da comunidade árabe em Israel, diz que israelitas árabes e palestinianos dos territórios (Cisjordânia e Faixa de Gaza) têm uma perceção de Israel “totalmente diferente. A maioria dos israelitas árabes, de forma consistente, em sondagens, abomina tanto a violência dos palestinianos como a reação dos israelitas, e gostaria de ver o conflito resolvido. Nos territórios, perto de metade dos palestinianos ainda estão comprometidos com a destruição de Israel”.

Considerados, frequentemente, como uma “quinta coluna” — por força da sua identidade palestiniana, pelo facto de serem maioritariamente muçulmanos (há também cristãos e drusos) e dados os laços culturais que os ligam aos palestinianos dos territórios e de países árabes, alguns considerados “inimigos” por Israel —, vários israelitas árabes venceram o estigma e ganharam notoriedade e reconhecimento.

Há futebolistas árabes na seleção nacional; Lucy Aharish tornou-se, em 2007, a primeira árabe a apresentar o noticiário em horário nobre numa das principais televisões em língua hebraica; e, em 2009, Mira Awad tornou-se a primeira árabe a representar Israel na Eurovisão. Num dueto com a judia Noa, interpretou “There must be another way” (Tem de haver outro caminho), com algumas estrofes cantadas em árabe — tal como o hebraico, o árabe é língua oficial de Israel. “Os israelitas árabes estão envolvidos em todas as esferas da vida, do futebol às profissões médicas e científicas”, confirma Frish Hillel. “Porém, os símbolos do Estado são judaicos.”

Mas, em matéria de integração, há também o reverso da medalha. Segundo a polícia, os árabes estão envolvidos em 57% dos homicídios, 59% dos casos de fogo posto e 45% dos roubos. E estão especialmente na mira das autoridades de Telavive em questões de terrorismo. “O envolvimento de israelitas árabes em atos terroristas é alto quando comparado com terroristas islâmicos na Europa, mas muito menor do que os palestinianos nos territórios”, constata Frish Hillel. “Apesar de os israelitas árabes representarem 25% dos árabes sob domínio de Israel ou da Autoridade Palestiniana, eles estão envolvidos em menos de 5% dos atos terroristas.”

Contrariamente aos judeus e à minoria drusa, o serviço militar não é obrigatório para os árabes de Israel. Têm direito a votar e estão representados no Knesset (Parlamento, 120 assentos) com 13 deputados da Lista Árabe Unida, uma aliança de quatro partidos árabes que defende a solução de dois Estados e Jerusalém Leste como capital de uma Palestina independente, mas que nunca integrou o governo.

Dezenas de leis discriminatórias

Os “palestinianos de Israel”, como também são chamados, vivem sobretudo em cidades de maioria árabe — Nazaré é a maior de todas —, que estão entre as mais pobres do país, o que contribui para um sentimento de “cidadãos de segunda” partilhado por muitos deles.

Com sede em Haifa, norte de Israel, o Centro Legal para os Direitos da Minoria Árabe em Israel (Adalah) identificou 65 leis israelitas que, direta ou indiretamente, discriminam os cidadãos árabes de Israel e/ou palestinianos residentes nos territórios “com base na sua pertença nacional”. Se o cônjuge de um israelita árabe for um palestiniano residente nos territórios, por exemplo, não consegue obter cidadania israelita ou mesmo estatuto de residência.

Israel justifica os obstáculos à reunião familiar com razões de segurança — que passam também pela necessidade de garantir uma ampla maioria de judeus no país.

“Em tempos, a criação de novas cidades e aldeias era um grande problema em Israel, mas gradualmente o Estado tem vindo a abordar essa necessidade, especialmente em relação aos beduínos, que anteriormente eram nómadas e agora são sedentários”, conclui o professor.

Mas há domínios em que, dada a natureza do Estado de Israel, os árabes não devem esperar por conquistas. “Os árabes sentem-se discriminados na esfera pública: o hino refere-se exclusivamente ao povo judeu, tal como a bandeira de Israel.”

(Imagem: Bandeira fictícia da minoria árabe de Israel WIKIMEDIA COMMONS)

Artigo publicado no Expresso Diário, a 14 de maio de 2018. Pode ser consultado aqui

As guerreiras de Gaza

Estão na “linha da frente” dos protestos contra Israel. Numa sociedade conservadora como é a da Faixa de Gaza, as mulheres desdobram-se em formas de luta para reclamar um direito histórico — o regresso às terras que outrora foram palestinianas e que agora são território de Israel. “Somos todos terra”, diz ao Expresso uma jovem envolvida nos protestos

ILUSTRAÇÃO DE CARLOS LATUFF

Voluntariam-se para prestar assistência aos feridos, lançam balões e papagaios de papel com as cores da Palestina, fazem pão para matar a fome a quem esgota o corpo a “dar luta” a um dos exércitos mais poderosos do mundo, aproximam-se corajosamente da fronteira para gritar a sua revolta contra a ocupação israelita que transformou o território onde vivem num gueto de onde é difícil sair.

São as mulheres da Faixa de Gaza que, por estes dias, passam grande parte do tempo “em serviço” junto à fronteira com Israel para lembrar, a Telavive e ao mundo, que há algo em dívida para com os palestinianos — o direito do regresso às terras que já foram suas.

“Se queremos alguma coisa, o melhor é fazermos barulho. E quando aquilo que queremos é a nossa terra? O nosso direito? É por essa razão que participo na Grande Marcha do Regresso”, diz ao Expresso Samah, uma palestiniana de 26 anos. “Tenho conhecimentos na área de primeiros socorros, o que me permite ajudar os feridos. Saio de casa às oito horas da manhã e regresso às sete da tarde.”

ILUSTRAÇÃO DE CARLOS LATUFF

Na Faixa de Gaza, a vida está refém da falta de soluções para o conflito israelo-palestiniano. Em entrevista ao Expresso, o historiador israelita Ilan Pappé defendeu que “a guetização de Gaza é uma forma de apartheid” promovida por Israel, que aplica no território “políticas genocidas”.

Ocupada por Israel na Guerra dos Seis Dias (1967) e entregue à Autoridade Palestiniana após a retirada israelita, em 2005, a Faixa de Gaza viu a sua situação complicar-se após o Hamas tomar o poder pela força, em meados de 2006. A 25 de janeiro desse ano, os islamitas venceram as eleições legislativas palestinianas, mas viram o resultado não ser reconhecido nem pela rival Fatah, nem por Israel nem pela comunidade internacional. O golpe do Hamas motivou, então, um bloqueio às fronteiras do território onde, hoje, para se entrar e sair está-se dependente da boa vontade das autoridades israelitas e egípcias.

“As mulheres veem os seus filhos sem trabalho e ficam desesperadas. Então, participam muito nos protestos, talvez não a pensar nelas próprias mas na terra e nos filhos”, diz Samah. “As mulheres mais jovens também participam. Aqui, na Palestina, quando o assunto é a terra ninguém fica indiferente, seja-se homem ou mulher. Somos todos terra.”

Pressão psicológica de Israel sobre as mulheres

A 5 de abril passado, já com a Grande Marcha do Regresso nas ruas — começou a 30 de março e terminará esta terça-feira, 15 de maio —, Avichay Adraee, o porta-voz do Exército israelita, tentou falar ao coração dos setores mais conservadores de Gaza. Ao estilo de um fanático talibã, escreveu na sua conta em língua árabe no Twitter: “Uma boa mulher é a mulher honrada que se importa com o interesse da sua casa e dos seus filhos, sendo um bom exemplo para que eles a sigam. Quanto à mulher má e sem honra, essa não se importa com nada disso, age como uma selvagem que não tem nada a ver com a feminilidade e não se preocupa com o olhar de desprezo com que a sociedade a olha”.

Nesta como noutras guerras, a psicologia é uma arma e, com este “post”, o militar israelita, ironica e propositadamente, adotou o discurso do mais fundamentalista dos militantes do Hamas para tentar fechar as mulheres de Gaza em suas casas.

“Ser uma sociedade conservadora nunca foi um problema. Gaza pode continuar a ser uma sociedade conservadora mesmo que homens e mulheres, juntamente com os seus filhos, saiam de casa para participarem na Marcha”, diz Samah. “Ser ‘conservador’ não quer dizer ficar em casa e não participar em eventos. Nunca poderá significar que as mulheres não possam gritar pela verdade e que tenham de ficar de lado. Significa apenas saber comportar-se e respeitar a sua fé quando se está fora.”

ILUSTRAÇÃO DE CARLOS LATUFF

Samah estudou Literatura na Universidade Islâmica de Gaza e fez formação na área da segurança e proteção. Hoje trabalha como tradutora e coloca os seus conhecimentos de socorrista ao serviço do seu ativismo pelo futuro da Palestina.

Entre as cerca de 50 pessoas mortas desde o início dos protestos — a maioria atingida a tiro por “snipers” israelitas posicionados do outro lado da fronteira — não consta nenhuma mulher. Mas muitas estão entre os milhares de feridos. “Houve apenas ferimentos ligeiros, nada de grave”, diz Samah. “Quando as mulheres participam, os homens estão sempre lá para as proteger.”

Com uma pedra numa mão, o telemóvel na outra e carteira a tiracolo, esta palestiniana mostra que a revolta contra Israel faz parte do quotidiano da população de Gaza MOHAMMED SALEM / REUTERS
Uma jovem carrega um pneu em chamas, uma das “armas” usadas nos protestos em Gaza MAHMUD HAMS / AFP / GETTY IMAGES
Balões de esperança com duas bandeiras palestinianas presas à corda SAID KHATIB / AFP / GETTY IMAGES
“Derrubar” a fronteira com papagaios de papel, alguns com as cores da bandeira palestiniana MOMEN FAIZ / GETTY IMAGES
Zona de leitura numa área mais afastada da “linha da frente” dos protestos MUSTAFA HASSONA / ANADOLU AGENCY / GETTY IMAGES
Palestinianas “de serviço” às redes sociais, outra frente importante da Grande Marcha do RegressoSAMAR ABO ELOUF / REUTERS
A bandeira da Palestina que, neste contexto, vale mais do que 1000 slogans MAJDI FATHI / GETTY IMAGES
IBRAHEEM ABU MUSTAFA / REUTERS
Arrojadas e destemidas, junto a uma cerca de arame farpado separando Gaza de Israel MAHMUD HAMS / AFP / GETTY IMAGES
Um cordão de quatro rapazes “protege” uma rapariga, enquanto se afastam da fronteira a correr SAID KHATIB / AFP / GETTY IMAGES
Mulheres que inspiram as palestinianas: a cantora Rim Banna, recentemente falecida, voz de temas patrióticos, e Ahed Tamimi, a cumprir pena de prisão por esbofetear um soldado israelita SAMAR ABO ELOUF
Uma máscara feita com um pedaço de uma garrafa plástica e, sobre o nariz, uma proteção com odor de cebola resguardam esta mulher da inalação de gás lacrimogéneo IBRAHEEM ABU MUSTAFA / REUTERS
Perfume, vinagre, limão, cebola são cheiros fortes a que os manifestantes recorrem para se defenderem dos gases tóxicos lançados por Israel MOHAMMED ABED / AFP / GETTY IMAGES
Palestiniana com dificuldades respiratórias atingida por uma nuvem de gás lacrimogéneo MOHAMMED SALEM / REUTERS
No terreno para assistir as vítimas, esta médica palestiniana sofre com os efeitos do gás lacrimogéneo IBRAHEEM ABU MUSTAFA / REUTERS
Azáfama no interior de um posto de primeiros socorros SAMAR ABO ELOUF / REUTERS
A Marcha mobiliza sucessivas gerações de palestinianos, como o prova esta idosa, sentada numa das “tendas do regresso” MOHAMMED ABED / AFP / GETTY IMAGES
Jovens de Gaza, com a máscara associada ao movimento de hacktivismo internacional anonymous, tiram uma “selfie” ALI JADALLAH / ANADOLU AGENCY / GETTY IMAGES
Duas palestinianas fazem pão, num dos acampamentos erguidos junto à fronteira IBRAHEEM ABU MUSTAFA / REUTERS
Uma artista pinta um quadro em memória de Yasser Murtaja, um dos jornalistas palestinianos mortos durante a Grande Marcha SAID KHATIB / AFP / GETTY IMAGES
Acarinhada por outras mulheres, uma palestiniana de Khan Yunis chora a morte de um filho de 15 anos, atingido a tiro pelas forças israelitas MAHMUD HAMS / AFP / GETTY IMAGES
O silêncio e a tranquilidade propiciados pela noite trazem à “cidade das tendas” momentos de oração MOHAMMED SALEM / REUTERS
Montadas propositadamente para a Grande Marcha, as tendas foram batizadas com o nome das aldeias de onde palestinianos foram expulsos em 1948, após a criação de Israel IBRAHEEM ABU MUSTAFA / REUTERS
Uma pilha de pneus, que, depois de incendiados, vão criar uma cortina de fumo negro com que os palestinianos esperam perturbar a mira dos atiradores israelitas MAJDI FATHI / GETTY IMAGES
Vozes que não se calam, apesar de esbarrarem num muro de indiferença MOHAMMED SALEM / REUTERS
MOHAMMED SALEM / REUTERS

Artigo publicado no Expresso Online, a 14 de maio de 2018. Pode ser consultado aqui

Uma bomba prestes a detonar

A tendência demográfica e o impasse no conflito com os palestinianos confrontam Israel com um desafio à sua identidade enquanto Estado. A prazo, sem uma Palestina independente, terá de optar se quer conservar a sua maioria judaica ou ser uma democracia

“O ventre da mulher árabe é a minha arma mais forte.” A máxima do líder histórico palestiniano, Yasser Arafat, soa como uma maldição em Israel, onde uma “bomba” bate silenciosamente, em contagem decrescente para a explosão — a demografia. Atualmente, entre o Mar Mediterrâneo e o Rio Jordão — abarcando Israel e os territórios palestinianos da Cisjordânia e da Faixa de Gaza —, existe praticamente uma paridade entre judeus e árabes.

“Ainda não há uma paridade real, mas está-se a aproximar disso. Há uma pequena maioria de judeus, digamos de 51% contra 49% de árabes”, diz ao Expresso o italiano Sergio DellaPergola, um dos maiores especialistas mundiais em demografia israelita e judaica.

O número de judeus na Terra Santa ronda os 6.900.000 — 400.000 deles vivem em colonatos na Cisjordânia; os árabes são cerca de 6.500.000 — incluindo 1.500.000 com cidadania israelita. Porém, “a população árabe está a crescer mais rapidamente do que a judaica”, alerta este professor emérito da Universidade Hebraica de Jerusalém. “Por isso, algures no futuro, num horizonte de 15 a 20 anos, é possível que se chegue a uma paridade real. A tendência é muito clara.”

Esta constatação coloca a demografia no coração do processo de paz israelo-palestiniano. “A questão é fundamentalmente política”, diz Sergio DellaPergola. “Se considerarmos apenas Israel e a Cisjordânia [sem a Faixa de Gaza], que é a situação ‘de facto’ atualmente, a maioria de judeus é de pouco mais de 60%. Se retirarmos da equação a população palestiniana da Cisjordânia, então a maioria de judeus chega quase aos 80%.”

Isto significa que a solução política que daria a Israel uma ampla maioria de judeus no seu Estado é aquela que o Governo de Benjamin Netanyahu (direita nacionalista) mais se tem empenhado em destruir: a de dois Estados para dois povos. Com a contínua expansão dos colonatos judeus na Cisjordânia, a aplicação de um bloqueio por terra, mar e ar à Faixa de Gaza, com as negociações entre as partes estagnadas e o tradicional mediador, Estados Unidos, a tomar parte por Israel — reconhecendo Jerusalém como sua capital —, uma Palestina independente é cada vez mais inviável.

Por essa razão, entre os palestinianos, há cada vez mais vozes a defenderem um Estado único, binacional. Esse cenário coloca Israel num dilema: ser um Estado judeu ou ser uma democracia? “Para ser um Estado judeu, Israel tem de ter uma forte maioria de judeus e, para tal, tem de abdicar de territórios e da população não judaica que aí vive”, explica o especialista. “Se Israel quiser manter os territórios, mas não quiser dar às populações não judaicas direitos cívicos e participação em eleições livres então será um Estado judeu mas não será democrático.”

“Se não acordarmos das ilusões da anexação [da Cisjordânia], perderemos a maioria judaica. É simples”, afirmou, recentemente, a ex-ministra israelita dos Negócios Estrangeiros e atual deputada Tzipi Livni, apologista da fórmula de dois Estados.

Os milagres da imigração

Se hoje Israel tem 8.500.000 habitantes, à época da criação do Estado não ia além dos 850.000. “Em 70 anos, a população cresceu dez vezes”, constata Sergio DellaPergola. “Mais de 3.500.000 deve-se à entrada de imigrantes, um contributo muito significativo para o aumento da população.”

Em 1950, apenas dois anos após a criação do Estado, Israel aprovou a Lei do Retorno que confere a “todos os judeus” o direito de irem para Israel com garantia imediata de cidadania. Fazer a “aliyah” — a viagem para Israel com o intuito de lá ficar — tornou-se, na mente de judeus de todo o mundo, um imperativo moral para alimentar o sonho sionista.

O impacto da imigração no Estado de Israel tem sido crucial para as estatísticas mas também para a qualidade da mão de obra que tem construído o país ao longo de décadas. “A imigração para Israel não foi seletiva, não mobilizou apenas as camadas mais baixas, mas todos os sectores sociais. Foi uma imigração muito motivada por situações negativas que afetaram todos os judeus independentemente do sítio onde viviam e sem distinção entre ricos e pobres, inteligentes e estúpidos”, defende Sergio DellaPergola. “Entre aqueles que foram para Israel, muitos eram peritos em tecnologia, sobretudo vindos da União soviética, e especialistas em muitas outras áreas, o que enriqueceu muito o capital humano de Israel. O país fez um progresso sócio-económico tremendo devido à imigração e à assimilação dos imigrantes.”

Rodeado de países árabes, o desafio de Israel começa dentro de portas, onde um quinto da população é árabe. “A taxa de fertilidade [número de filhos] de judeus e árabes não é muito diferente: os judeus têm em média 3,1 filhos e os árabes à volta de 3,2. Há uma motivação muito grande para se ter filhos, e não apenas junto dos sectores religiosos.”

Mas a maioria de judeus tende a sofrer uma erosão a cada ano que passa. “A população árabe é bastante mais jovem do que a judaica, logo há mais árabes que podem ter filhos. O crescimento anual dos judeus anda à volta de 1,5% a 1,8% e os árabes crescem a um ritmo de 2,5% a 2,8%. A diferença é de um ponto percentual, mas imaginemos que vamos a um banco e depositamos 100 euros a uma taxa de 1,5% ao ano e outros 100 a 2,5%? Ao fim de 10 anos, a diferença é considerável.”

O Expresso pergunta a Sergio DellaPergola se acha que o Governo de Benjamin Netanyahu é sensível às questões demográficas. O professor solta uma gargalhada antes de responder: “Não tenho a certeza. A atitude deles é dizerem que sabem que há um problema e que é importante, mas que há outros mais importantes, como o Irão, a Síria, o Líbano, Gaza. Por isso, dirão: ‘O melhor, por enquanto, é não se falar muito de demografia. Pensemos nisso noutro dia’.”

(Imagem: Um árabe e um judeu disputam o território entre o Mar Mediterrâneo e o Rio Jordão GEORGRAPHY.MRDONN.ORG)

Artigo publicado no Expresso Diário, a 14 de maio de 2018. Pode ser consultado aqui