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Os três tipos de apartheid impostos por Israel

Para o historiador Ilan Pappé, que vem a Lisboa esta semana, a criação de Israel assenta na limpeza étnica dos palestinianos

ILUSTRAÇÃO DE CARLOS LATUFF

Israel está em contagem decrescente para o seu 70º aniversário a 14 de maio, com a promessa de um presente desejado — a instalação da embaixada dos EUA em Jerusalém — que constitui uma grande provocação aos palestinianos. “Israel é uma história de sucesso em termos de criação de uma nova cultura, de uma economia vibrante, de uma nação altamente tecnológica e da união de imigrantes judeus de tantas partes do mundo. Mas esse sucesso foi construído sobre a ruína do povo palestiniano”, defende o historiador israelita Ilan Pappé, em entrevista ao Expresso. “Todo o projeto sionista consistiu na substituição dos palestinianos, que eram a população nativa, por imigrantes e colonos. Israel foi um projeto catastrófico para os palestinianos, e ainda o é em muitos aspetos.”

Professor na Universidade inglesa de Exeter, Ilan Pappé participará, esta semana, na conferência “Beyond Planetary Apartheid” (Além do Apartheid Planetário), no ISCTE, Lisboa. “Há três tipos de apartheid em Israel”, adianta. “Dentro das fronteiras de 1967 [o território israelita reconhecido internacionalmente], há um regime que discrimina os cidadãos palestinianos”, cerca de 20% da população total de Israel. “A maior parte da terra pertence à Agência Judaica, que não está autorizada a vender terra a ‘não judeus’; há locais onde os palestinianos não estão autorizados a viver; há subsídios, ajudas governamentais e financiamento público que dependem de ‘bom comportamento’, ou seja, se as pessoas negarem a sua identidade palestiniana”, por exemplo.

“Israel é uma história de sucesso, construída sobre a ruína do povo palestiniano”

Um segundo nível de apartheid acontece no território palestiniano da Cisjordânia, onde vivem 2,8 milhões de palestinianos e 400 mil colonos judeus. “Há uma segregação total, com ruas, reservas naturais, recursos hídricos só para judeus.” A ‘guetização’ da Faixa de Gaza, o outro território palestiniano, é um terceiro tipo de apartheid. Ali vigora um bloqueio por terra, mar e ar imposto por Israel e Egito.

Esta realidade faz de Ilan Pappé — nascido em 1954, em Haifa — defensor de um Estado único, binacional. “A solução de dois Estados poderia nunca acabar com o problema principal que é a natureza colonial do projeto sionista. É preciso descolonizar toda a Palestina histórica”, ou seja, os territórios palestinianos e Israel. “Com dois Estados, não há forma de se concretizar o direito de regresso dos palestinianos”, a reivindicação da Grande Marcha em curso em Gaza, pois a população árabe de Israel cresceria exponencialmente.

Ilan Pappé notabilizou-se em 2006, com o livro “A Limpeza Étnica da Palestina”, onde analisa o processo de independência de Israel (1948), a expulsão de milhares de palestinianos das terras onde viviam e a criação de uma realidade colonial que o novo Estado tentou alcançar “limpando etnicamente metade da população da Palestina, destruindo as suas cidades e demolindo metade das suas aldeias”. Esse processo continuou até à Guerra dos Seis Dias (1967) com “a imposição de medidas militares aos palestinianos de Israel” e depois aos da Cisjordânia e de Gaza.

Para conter Telavive, Pappé considera “muito útil” o movimento internacional que visa isolar Israel através de ações de boicote, desinvestimento e sanções (BDS). “Envia uma mensagem dolorosa de que há um preço decorrente daquilo que Israel faz aos palestinianos.” E considera imperioso um maior envolvimento dos europeus. “Até agora, a Europa nada fez. Paga pela ocupação [é o maior doador dos palestinianos] e reage à impunidade de Israel dando-lhe imunidade. Reconhecer um Estado palestiniano seria um passo na direção certa.”

Artigo publicado no Expresso Diário, a 5 de maio de 2018. Pode ser consultado aqui

A Guernica da Palestina

Planeados para durar 45 dias, os protestos na Faixa de Gaza vão a meio. O número de mortos não esmorece um protestos que os palestinianos consideram justo e moral

ILUSTRAÇÃO DE CARLOS LATUFF

Na Faixa de Gaza, a Grande Marcha do Regresso vai sensivelmente a meio caminho. Iniciados a 30 de março e com fim previsto para 15 de maio, os protestos massivos junto à fronteira com Israel pelo direito de retorno dos refugiados palestinianos às terras de onde foram expulsos após a criação do Estado judeu cumpriram, esta sexta-feira, a sua 22º jornada. Pelo caminho já tombaram mortos 37 palestinianos, quatro deles nos protestos desta sexta-feira.

Uma das vítimas é Yaser Murtaja, um fotojornalista de 31 anos. Morreu há uma semana, atingido a tiro por um “sniper” israelita quando se preparava para continuar a disparar… fotografias. Na cabeça tinha um capacete protetor e no corpo um colete que o identificava com a palavra “press”. “Foi abatido a sangue frio apenas porque segurava uma câmara, com a qual transmitia imagens para o mundo”, diz ao Expresso Asad Abu Sharkh, de 65 anos, professor universitário na área de Linguísticas e porta-voz da Grande Marcha. “São as ordens que eles têm do chefe de Estado-Maior, Gadi Eizenkot: atirar a matar contra quem se aproximar da cerca. Matar o maior número possível de palestinianos para intimidar. Sentem-se apoiados pela política de ‘dois pesos’ dos países ocidentais e estão protegidos pelo veto dos Estados Unidos” nas Nações Unidas.

Nascido em Ashkelon (atual território de Israel), Asad é um dos milhões de palestinianos que sonham com o regresso à terra onde nasceram. Um tio seu foi o último presidente da Câmara da cidade, até 1948, ano da criação de Israel. “Esta Marcha é um grito para o mundo exterior. Um apelo à comunidade internacional para que aplique as resoluções adotadas na ONU em defesa dos refugiados palestinianos” — como a resolução 194, sobre o direito de regresso e de repatriamento.

“Não podemos esperar mais, sentimo-nos desumanizados, perseguidos. Israel está a fazer uma guerra genocida contra o povo da Faixa de Gaza e da Cisjordânia. Nega os nossos direitos e ignora as resoluções internacionais relativas à questão palestiniana. Intimida os palestinianos para forçá-los a abandonar as terras e traz judeus de todo o mundo para as ocupar. Isto é uma limpeza étnica.”

Asad Abu Sharkh, no uso da palavra, durante uma palestra sobre “formas de resistência popular”, numa das “tendas do regresso”, em Gaza HAIDAR EID

Os protestos em Gaza tornam-se notícia à sexta-feira — o “domingo” dos muçulmanos, dia em que estão mais disponíveis para ações de intervenção social, muitas vezes incentivados pela oração do meio-dia, nas mesquitas, a principal da semana. Mas a iniciativa “vive” durante toda a semana, especialmente no interior das tendas montadas próximo da fronteira.

Na quarta-feira, no interior de uma delas, Asad participou numa palestra intitulada “A Grande Marcha do Regresso e o Movimento BDS: Formas principais de resistência popular”. BDS significa “Boicote, Desinvestimento e Sanções” e alude a uma campanha internacional que visa isolar Israel a todos os níveis, sobretudo académico e cultural.

No dia seguinte, o movimento assinalaria uma vitória importante. Galardoada com o Prémio Genesis, que reconhece “pessoas extraordinárias que inspiram a próxima geração de judeus”, a atriz norte-americana e israelita Natalie Portman — nascida em Jerusalém, em 1981 — anunciou que não iria a Israel receber a distinção devido a “acontecimento recentes” no país. A cerimónia, marcada para junho, foi cancelada.

“Batalha” dos panfletos

Em antecipação a mais uma jornada forte de protestos, na quinta-feira, as Forças de Defesa de Israel (IDF) “bombardearam” Gaza com panfletos: “Residentes de Gaza: Vocês estão a participar em atos de violência. O Hamas usa-vos para os seus objetivos extremistas. As IDF estão preparadas para tudo”. A mensagem aconselhava os locais a não se aproximarem da cerca e a manterem-se “longe de terroristas que praticam atos de violência. As nossas forças de defesa farão tudo o que for necessário para travar qualquer ataque ou assalto”.

O Expresso perguntou a Asad Abu Sharkh se os manifestantes irão tentar derrubar a cerca. “Os palestinianos estão muito determinados em continuar com os protestos de forma pacífica, de forma pacífica”, repete, “sem violência”, realça, “usando meios e métodos legais nos termos do direito internacional e das resoluções da ONU”.

Os factos dizem que, desde o início da Grande Marcha, nenhum “rocket” foi disparado desde a Faixa de Gaza contra território israelita, como muitas vezes acontece em contextos de agitação.

Ao estilo de uma “guerra psicológica”, o Hamas divulgou panfletos em árabe e hebraico destinados aos israelitas: “Sionistas: Vocês não têm lugar na Palestina. Regressem ao lugar de onde vieram. Não respondam aos vossos líderes. Eles estão a enviar-vos para a morte”. A mensagem atravessou a fronteira em papagaios de papel.

Na quinta-feira, as chamadas “tendas do regresso” receberam ordem para avançar 50 metros no terreno, sentido da fronteira. A medida foi “uma mensagem de persistência por parte do nosso povo para o mundo de que estamos a movimentar-nos na direção dos nossos objetivos legítimos”, anunciou o comité organizador. As tendas estão agora entre 500 e 700 metros de distância de Israel.

Interior de uma “tenda do regresso”, montada próximo da fronteira, onde se assiste a uma conferencia sobre a questão palestiniana HAIDAR EID

Habitantes de um retângulo de território de 41 quilómetros de comprido por seis a doze de largura, cerca de dois milhões de pessoas vivem em Gaza ao estilo de “uma prisão a céu aberto”, diz Asad Abu Sharkh.

Se, no passado, Israel chegou a adotar uma política de assassinatos seletivos para “eliminar” alvos concretos — como o “sheikh” Ahmed Yassin, líder espiritual do Hamas, alvejado por um helicóptero da Força Aérea israelita na sua cadeira de rodas, em 2004 —, hoje a estratégia em Gaza passa por uma “punição coletiva”.

O bloqueio israelita e egípcio asfixia o território e condena a sua população ao desespero. O único posto de fronteira que permite a saída de pessoas de Gaza — Rafah, no sul, que dá para a Península do Sinai — tem estado quase sempre fechado: em 2016 abriu 42 dias e em 2017 apenas 36.

E, no domínio da política palestiniana, o interminável braço de ferro constante entre o Hamas (que controla a Faixa de Gaza) e a Fatah (a fação dominante na Autoridade Palestiniana) mina a tão desejada reconciliação nacional.

Nascido no campo de refugiados de Nusairat (centro da Faixa de Gaza), Haidar Eid cresceu sob ocupação israelita. A família é originária da aldeia de Zarnuqa, área de Ramla (centro de Israel), cidade com uma população predominante judia, mas onde ainda vive uma minoria de árabes. Na sua página no Facebook, Haidar tem como imagem principal a famosa pintura de Pablo Picasso que alude ao sofrimento humano em contexto de violência. Diz ao Expresso: “Gaza é a Guernica da Palestina”.

Artigo publicado no Expresso Diário, a 20 de abril de 2018. Pode ser consultado aqui

O pior pesadelo de Israel

Depois dos “rockets” disparados contra território de Israel e dos ataques surpresa através de túneis, os palestinianos da Faixa de Gaza parecem apostados num novo método de confronto. Começou na passada sexta-feira e está planeado para durar mais seis semanas — até ao 70º aniversário de Israel

Uma onda gigante de protestos pacíficos cresce na direção do território de Israel ISMAIL ELBOZOM

É o pior dos pesadelos de Israel — hordas de palestinianos a caminho da fronteira, com a intenção de a derrubar, motivados pela ideia de recuperarem terras que outrora foram suas e que foram ocupadas por Israel quando da criação do estado judeu. Este pesadelo ganhou vida e está a acontecer na Faixa de Gaza. “Vai acontecer todos os dias. Às sextas-feiras, será o dia principal”, diz ao Expresso, desde Gaza, o fotógrafo Ahmed Salama, de 23 anos. “Os palestinianos vão usar um método novo. Vão tentar e tentar e tentar… Talvez na próxima sexta-feira consigam entrar. Não temos nada a perder. O bloqueio está a matar-nos lentamente.”

Depois de anos em que Gaza reagiu ao bloqueio por terra, mar e ar, imposto por Israel e pelo Egito, lançando “rockets” contra território israelita ou tentando surpreender o inimigo através de túneis escavados sob a fronteira, uma nova estratégia está a mobilizar os palestinianos daquele território: marchas volumosas e persistentes na direção da fronteira, “indiferentes” aos que tombam mortos pelo caminho.

“Há tendas em cinco posições principais ao longo da fronteira” de 65 quilómetros, diz Ahmed. Chamam-lhes “cidades de tendas” e começaram a erguer-se no início de março para acomodar os manifestantes, incluindo famílias inteiras, “no ponto seguro mais próximo da fronteira”, explicava então Ahmed Abu Ayesh, porta-voz do comité coordenador, garantindo que as Nações Unidas seriam notificadas dos protestos.

Na sexta-feira passada, dia da primeira grande investida, milhares de palestinianos seguiram desarmados. Muitos outros não, arremessando pedras, bombas incendiárias, pneus a arder e tentando destruir a fronteira e entrar em território de Israel.

Da resposta das forças de segurança israelitas resultaram 17 palestinianos mortos (Israel diz que tem registos de “atividades terroristas” de “pelo menos 10”) e 1479 feridos — 757 alvejados com fogo real, informou, no domingo, o Ministério palestiniano da Saúde. Os restantes foram atingidos por balas de borracha e inalaram gás lacrimogéneo, disparado a partir de pequenos drones, a mais recente inovação tecnológica ao serviço das tropas de Israel.

Mahmud Abbas, o presidente da Autoridade Palestiniana — que, no ano passado, para pressionar o rival Hamas, que controla Gaza, ordenou cortes de energia no território, obrigando a população a viver com quatro horas de luz —, apelou à intervenção urgente das Nações Unidas. Logo na sexta-feira, o secretário-geral da organização, António Guterres, pediu “uma investigação independente e transparente a estes incidentes”. O assunto foi a debate, com urgência, no Conselho de Segurança (CS) das Nações Unidas e sucumbiu às sensibilidades da geopolítica.

O Kuwait, o único país árabe atualmente representado no CS, apresentou uma proposta de declaração apelando a uma investigação à violência, no mesmo sentido das palavras de Guterres. Citado pela agência AFP, “um diplomata do CS” disse que os Estados Unidos — que têm o poder de veto naquele organismo — levantaram objeções e fizeram saber que não apoiariam a adoção do documento.

Em Israel, o ministro da defesa, Avigdor Lieberman, lançava combustível para a fogueira, rejeitando qualquer comissão de inquérito aos factos ocorridos junto à fronteira com Gaza e afirmando que os soldados israelitas ali em missão “merecem uma medalha”.

Festa de uns, lamento de outros

A “Marcha do Regresso” tem inerente todo um simbolismo ao qual nenhum palestiniano ou israelita é indiferente. Começou na sexta-feira, 30 de março, no tradicional “Dia da Terra” que assinala a morte, em 1976, no norte de Israel, de seis israelitas árabes, às mãos da polícia, durante protestos contra a expropriação de terras árabes por parte do Governo de Telavive.

Está planeada para terminar a 15 de maio, dia em que os palestinianos assinalam a “catástrofe” (“Nakba”), o início do atual problema dos refugiados quando mais de 700 mil palestinianos fugiram ou foram expulsos das suas terras na sequência da criação, nas Nações Unidas, do Estado de Israel (1948), e da guerra da Independência que se lhe seguiu.

Na véspera do aniversário da “Nakba”, Israel comemorará o seu 70º aniversário — este ano, antevê-se, de forma mais esfusiante do que o habitual, em virtude do “presente” dado pelo aliado norte-americano: a transferência da sua embaixada de Telavive para Jerusalém, prevista para coincidir com o aniversário.

Na sexta-feira, quando participava nos protestos, o líder do Hamas enunciou o objetivo: “O nosso povo não pode abdicar de um centímetro de terra da Palestina. Os protestos continuarão até que os palestinianos regressem às terras de onde foram expulsos há 70 anos”, declarou Yahya Sinwar.

O movimento islamita — que convocou estes protestos — controla a Faixa de Gaza desde há quase 12 anos. Desde então, Hamas e Israel já travaram três guerras, em 2008/09, 2012 e 2014. A próxima poderá estar já em curso — seis semanas de confrontos na fronteira, em que os palestinianos adivinham-se persistentes e os israelitas intransigentes. E se há garantia neste conflito é que em cada funeral de um palestiniano abatido por Israel — e vice-versa — a dor é acompanhada pelo desejo de vingança.

Artigo publicado no Expresso Diário, a 2 de abril de 2018, e republicado no “Expresso Online”, no dia seguinte. Pode ser consultado aqui e aqui

Quanto custa esbofetear um militar israelita? Depende de quem dá a estalada

Ahed Tamimi, a palestiniana de cabelos rebeldes tornada famosa após atingir à estalada um soldado israelita, vai ser presente a tribunal esta terça-feira. O seu caso revela a persistência palestiniana na luta contra a ocupação israelita e expõe a dualidade com que Israel aplica a lei nos territórios que controla consoante se trata de alguém israelita ou palestiniano

Ahed Tamimi e Yifat Alkobi D.R.

“Morte para Ahed Tamimi”, “não há lugar neste mundo para Ahed Tamimi”. Pela calada da noite, no passado dia 1 de fevereiro, paredes da aldeia palestiniana de Nabi Saleh, perto de Ramallah, no território ocupado da Cisjordânia, foram grafitadas com ameaças a uma filha da terra. Os habitantes não viram quem vandalizou a aldeia, mas têm uma suspeita: “Os colonos escreveram que Ahed deve ser morta para assustar os habitantes de Nabi Saleh”, defendeu Bassem Tamimi, pai da jovem visada, em declarações ao sítio Mondoweiss. Nas redes sociais, acrescentou, um grupo de colonos já tinha declarado que iria esperar pela libertação da rapariga no exterior da prisão de HaSharon, onde está detida, para matá-la. “Temo pela minha filha. Não só por ser palestiniana, mas porque a sua cara tornou-se tão conhecida que toda a gente sabe com exatidão quem ela é e como se parece.”

Ahed Tamimi — 17 anos feitos a 31 de janeiro — foi presa a 19 de dezembro após um vídeo em que surge a esbofetear e pontapear um soldado israelita se ter tornado viral nas redes sociais. As imagens foram captadas quatro dias antes, pela mãe da jovem, Nariman, que também está detida, acusada de “incitamento”. Não era a primeira vez que Ahed surgia de punho cerrado, ameaçando bater em militares armados até aos dentes. Esta terça-feira, será presente a um juiz para responder por aquelas estaladas e pontapés e por outras afrontas ao longo dos anos.

Ahed não é a primeira mulher palestiniana a ser detida por Israel no âmbito de protestos antiocupação. Nem tão pouco a primeira menor. Este domingo, por exemplo, foi libertada Razan Abu Sal, oriunda do campo de refugiados de Arroub, entre Belém e Hebron (Cisjordânia), condenada a 16 de janeiro a quatro meses de prisão e uma multa de 2500 shekels (580 euros) pelo arremesso de pedras. Razan tem… 13 anos. Mas várias razões contribuem para que o caso de Ahed seja especial, ao ponto de ter centrado atenções em todo o mundo como nenhum outro anteriormente.

“Ahed Tamimi tem estado, desde os oito anos de idade, na fila da frente das manifestações semanais do comité popular da sua aldeia contra a ocupação militar israelita, em geral, e contra o colonato de Halamish, em particular, que usa ilegalmente as fontes de água dos palestinianos”, explica ao Expresso Giulia Daniele, investigadora no Centro de Estudos Internacionais do ISCTE (Lisboa).

Em Nabi Saleh, a revolta palestiniana contra a ocupação israelita tem um alvo específico: o colonato de Halamish, uma comunidade de judeus ortodoxos estabelecida em 1977 que não para de crescer às custas de hectares de terra confiscados aos palestinianos. Em 2009, os colonos apoderaram-se da nascente de Ein el Qaws, perto da aldeia, obrigando os habitantes a procurarem fontes alternativas para irrigar oliveiras e árvores de fruto.

As manifestações contra a ocupação ganharam então um caráter mais regular e Ahed tornou-se uma presença permanente e cada vez mais indiscreta. Em 2012, a Turquia atribuiu-lhe o Prémio Handala para a Coragem na sequência de imagens onde ela surge a confrontar militares israelitas que tinham levado preso o seu irmão. Quando foi recebê-lo, Ahed teve direito a um encontro com Recep Tayyip Erdogan, então primeiro-ministro e hoje presidente da Turquia.

Um segundo aspeto que faz de Ahed especial, diz Giulia Daniele, decorre do facto de ela pertencer à família Tamimi, um clã muito ativo na luta contra a ocupação, por força do seu impacto na aldeia onde vive. Bassem, o pai de Ahed, já foi, também ele, preso e condenado a prisão pela justiça israelita.

A farta cabeleira de Ahed — tão rebelde como ela —, os seus olhos azuis e os meios que utiliza nos protestos também contribuem para a composição do ícone. “Ela não aparenta ser uma jovem ativista palestiniana, não cai nos cânones que Israel e o Ocidente em geral atribuem às mulheres palestinianas. Como é possível que uma jovem com aquele aspeto possa lutar contra os soldados israelitas utilizando uma máquina fotográfica ou um cartão vermelho?” O recurso a câmaras fotográficas ou de filmar é frequente nas manifestações semanais antiocupação em aldeias como Bilin, Nilin ou Kafr Qaddum: visam registar o uso excessivo da força com que Israel retalia os protestos.

Giulia Daniele identifica ainda uma quarta razão para o destaque dado a Ahed: ela é a prova de que “a luta popular e não-violenta palestiniana continua, apesar da ocupação ilegal israelita se tornar, dia após dia, mais violenta e mais enraizada — parece infinita”.

Dois pesos, duas medidas

Ahed está a ser julgada num tribunal militar, tratada como uma ameaça à segurança de Israel. “Em muitos casos, os palestinianos são julgados por acusações falsas ou ficam presos sem qualquer acusação”, as chamadas “detenções administrativas”, muito frequentes. “Aos palestinianos aplica-se a lei militar, enquanto aos colonos israelitas, que ali moram ilegalmente, tal como em Jerusalém Oriental, aplica-se a lei civil”, refere Giulia Daniele. “Obviamente, tratando-se de tribunais diferentes, há também diferentes penalizações e tratamentos.”

Ahed responde por 12 acusações, algumas delas — como o arremesso de pedras e a interferência nos deveres de um soldado — relativas a episódios passados anos antes da bofetada que a pôs atrás das grades. Arrisca uma pena de prisão entre os 12 e os 14 anos. Pelo mesmo “crime” — uma bofetada a um soldado israelita —, e por cinco outras condenações (entre elas o arremesso de pedras, o ataque a um polícia israelita e conduta desordeira), Yifat Alkobi, uma colona judia de Hebron, “não foi presa uma única vez”, escreveu o diário israelita “Haaretz”, a 5 de janeiro. “A agressora [judia], que deu uma bofetada a um soldado que tentava impedi-la de atirar pedras, foi levada para interrogatório mas libertada sob fiança no mesmo dia, e autorizada a ir para casa” — impune.

A diferença de tratamento entre a palestiniana Ahed e a israelita Yifat expõe a dualidade de sistemas legais que Israel aplica nos territórios que controla, consoante o acusado é israelita ou palestiniano. No caso de Ahed, sabe-se hoje que agiu movida pela revolta, ao saber que um primo de 15 anos tinha sido alvejado na cabeça, uma hora antes, por um agente da segurança israelita. Mohammed sobreviveu, mas perdeu parte do crânio e tem a cara desfigurada.

Na perspetiva de Giulia Daniele, autora do livro “Women, Reconciliation and the Israeli-Palestinian Conflict: The Road Not Yet Taken” (Routledge, 2014), Ahed Tamimi é uma palestiniana na linha de outras mulheres carismáticas que têm contribuído para uma forma feminina de protestar no conflito israelo-palestiniano. São exemplos Hanan Ashrawi, figura central dos Acordos de Oslo e do nascimento da Autoridade Nacional Palestiniana, Amal Khreishe, líder da Sociedade das Mulheres Trabalhadoras Palestinianas para o Desenvolvimento (PWWSD) e Naila Ayesh (diretora do Centro para os Assuntos das Mulheres na Faixa de Gaza).

“Não só há uma presença feminina nestes protestos, como também uma presença histórica e crucial para a relevância do movimento nacional palestiniano na sua complexidade”, diz Giulia Daniele. “A partir da Nakba [o êxodo dos palestinianos após a criação de Israel, a que chamam “catástrofe”] em 1948, o movimento das mulheres palestinianas desempenhou um papel fundamental na luta contra os ocupantes israelitas. Na sua especificidade, elas tiveram de protestar contra uma dupla opressão: uma externa – a ocupação militar israelita – e uma interna – a própria sociedade patriarcal.”

Conclui Giulia Daniele: “Hoje, o papel das mulheres palestinianas é muito importante, sobretudo ao nível das bases, embora seja impossível falar de um único movimento, dado haver uma variedade de perspetivas e práticas políticas entre as diferentes organizações de mulheres. Há diferenças entre ativistas laicas e religiosas, entre ativistas da Faixa de Gaza e da Cisjordânia, entre as mais jovens e as mais velhas, entre as do mundo rural e as de áreas urbanas”. Todas, porém, partilham dois grandes objetivos: o fim da ocupação militar israelita e o direito à autodeterminação do povo palestiniano.

Artigo publicado no Expresso Diário, a 12 de fevereiro de 2018 e republicado no Expresso Online, no dia seguinte. Pode ser consultado aqui e aqui

Nova lei israelita dificulta divisão de Jerusalém

Dominado por partidos nacionalistas e religiosos, o Parlamento de Israel reviu a lei sobre Jerusalém. Mesmo que, no futuro, o Governo de Telavive e a Autoridade Palestiniana acordem a partilha da Cidade Santa, a transferência de território terá de ser aprovada por dois terços dos deputados israelitas

O sismo político desencadeado pelo reconhecimento de Jerusalém como capital do Estado de Israel, por parte dos Estados Unidos, provocou uma réplica, esta terça-feira, no Parlamento de Israel. Iam os trabalhos madrugada dentro quando o Knesset aprovou legislação que faz depender, no futuro, a cedência de território de Jerusalém de uma maioria parlamentar qualificada.

Aprovada por 64 votos a favor, 51 contra e uma abstenção, a Lei Jerusalém Unida exige o “sim” de dois terços para que o controlo sobre qualquer área de Jerusalém seja transferido para uma entidade estrangeira, política, governamental ou de outro tipo.

Sem o especificar, este diploma significa que, mesmo que a divisão de Jerusalém seja acordada, em negociações de paz, entre o Governo de Telavive e a Autoridade Palestiniana, a sua concretização ficará dependente da vontade de, no mínimo, 80 dos 120 deputados israelitas.

Jerusalém explode, tudo explode

A nova lei foi proposta por Shuli Moalem-Refaeli, deputada do partido Casa Judaica, uma formação política religiosa, ortodoxa e sionista, liderada pelo ultranacionalista ministro da educação Naftali Bennett. “O objetivo da lei é impedir concessões no âmbito de acordos diplomáticos”, admitiu Shuli Moalem-Refaeli, durante este processo parlamentar. “Jerusalém nunca estará sobre a mesa das negociações.”

Na bancada da oposição, o deputado Nahman Shai, da União Sionista (coligação de centro-esquerda que integra o Partido Trabalhista) criticou o novo diploma, alertando para o potencial de conflito do estatuto de Jerusalém. “Não precisamos de novas leis sobre Jerusalém, já vimos o que acontece no Monte do Templo”, disse, aludindo à violência desencadeada no verão passado quando da imposição de novos procedimentos de segurança no acesso à Esplanada das Mesquitas. “Quando Jerusalém explode, tudo explode.”

Foi na Guerra dos Seis Dias (1967) que Israel ocupou a parte oriental de Jerusalém (que os palestinianos desejam para capital do futuro Estado palestiniano e onde se situam os lugares sagrados das três religiões monoteístas).

Em 1980, através de uma lei votada no Knesset, esse território foi anexado e a Cidade Santa decretada como “capital una e indivisível de Israel”. Com a nova legislação, o Governo de Telavive mostra que a anexação da Cidade Santa é um processo sem retorno.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 2 de janeiro de 2018. Pode ser consultado aqui