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Perfil de Yoon Suk-yeol. Novo Presidente promete inverter o rumo

Novato e conservador, quer ser duro com o vizinho do Norte. A 21 de maio recebe Joe Biden em Seul

O Presidente sul-coreano Yoon Suk-yeol e a primeira dama Kim Keon-hee de partida para uma viagem ao Cambodja, a 11 de novembro de 2022 FLICKR REPUBLIC OF KOREA

A tomada de posse do conservador Yoon Suk-yeol como Presidente da Coreia do Sul, terça-feira, augura uma nova era. O sucessor do liberal Moon Jae-in (impedido por lei de se recandidatar) venceu as eleições de 9 de março com um discurso anticorrupção e assumindo um tom duro face à Coreia do Norte.

Na política há menos de um ano, Yoon venceu com menos de 1% de vantagem sobre o adversário mais direto, Lee Jae-myung, do partido de Moon. Com 61 anos, Yoon formou-se em Direito e só entrou na Ordem dos Advogados à nona tentativa. Promotor de justiça durante muitos anos, procurador-geral do país entre 2019 e 2021, enfrentou pesos pesados da política e magnatas dos negócios, incluindo membros do Executivo de Moon e ainda a ex-Presidente Park Geun-hye, que acabou impugnada e condenada a 25 anos de cadeia (entretanto foi indultada).

Para desanuviar, o novo Presidente tem como prazer pessoal a culinária. Católico, casado e sem filhos, é doido por animais, possuindo quatro cães e três gatos.

Estimular a economia na era pós-pandémica com menos intervenção estatal, combater os altos preços da habitação e o desemprego persistente entre os jovens, abolir o salário mínimo e a semana laboral de 52 horas (defende que “os trabalhadores devem poder trabalhar 120 horas”) foram algumas das suas promessas de campanha. Mais polémica foi a ideia de abolir o Ministério da Igualdade de Género e Família e a associação que traçou entre feminismo e baixa natalidade.

Maior desafio reside em Pyongyang

Há desafios à agenda do novo Presidente, nomeadamente o facto de o seu Partido do Poder Popular só ter 113 dos 300 deputados da Assembleia Nacional e a realização de eleições locais em junho, que já levaram Yoon a um périplo pelo país.

Mas será a relação com o imprevisível vizinho do Norte a ditar muito do êxito da sua governação. “Yoon prometeu continuar os esforços diplomáticos com a Coreia do Norte e apoiou o envio de ajuda humanitária. Ao mesmo tempo, defendeu o reforço da [relação de] dissuasão entre a Coreia do Sul e os Estados Unidos contra as ameaças/provocações da Coreia do Norte e a continuação das sanções internacionais até que Pyongyang registe uma desnuclearização substancial”, diz ao Expresso Jong Eun Lee, professor na Universidade Americana, em Washington. “Enquanto a Coreia do Norte continuar com testes com mísseis [desde janeiro já fez pelo menos 15], é provável que a Administração Yoon adote uma atitude de linha dura. É previsível que responda com iniciativas com vista ao fortalecimento do sistema de defesa antimíssil da Coreia do Sul e a realização de exercícios de defesa em larga escala com os EUA.”

Em campanha, Yoon defendeu ataques preventivos contra a Coreia do Norte como única forma de conter o perigo dos novos mísseis hipersónicos, testados com êxito por Pyongyang. Prometeu pedir aos EUA que colocassem no país armas nuclea­res táticas. Dentro de dias saberá o que pensa o homólogo americano. Entre 20 e 24 de maio, Joe Biden fará o seu primeiro périplo asiático: Coreia do Sul e Japão. O encontro Yoon-Biden será a 21.

Jong Eun Lee antecipa “o fortalecimento da aliança entre os dois países”, formalizada em 1949, após a divisão da península. “A Administração Yoon defende uma ‘aliança estratégica abrangente’, que passe pela expansão das áreas de cooperação com os EUA, em concreto a participação na estrutura de segurança do Indo-Pacífico — como o Diálogo de Segurança Quadrilateral (Quad, na sigla inglesa) —, a cooperação tecnológica nas áreas biológica, nuclear, cibernética e espacial e a parceria Coreia do Sul-EUA-Japão.”

O desejo de ser parte ativa no Quad insere-se na vontade de Yoon de projetar o país como “Estado-pivô global”, não exclusivamente focado na Coreia do Norte. Isso terá impacto na relação com a China — o maior parceiro comercial da Coreia do Sul, que absorve mais de 25% das suas exportações —, já que o Quad (EUA, Austrália, Índia e Japão) visa conter a influência de Pequim na região. “É inquestionável que [Coreia do Sul e China] não podem negligenciar-se ou ignorar-se”, disse Yoon ao “The Washington Post”. “Ao nível da política e da segurança, a China tem uma aliança com a Coreia do Norte, e nós com os EUA. Mas há 40 divisões militares ao longo da DMZ [zona desmilitarizada entre as Coreias]. É essa a nossa realidade no terreno.”

Versão integral do perfil aqui.

Artigo publicado no “Expresso”, a 13 de maio de 2022. Pode ser consultado aqui

A Coreia do Sul tem novo Presidente. Yoon Suk-yeol debutou na política há menos de um ano

A décima maior economia do mundo tem, a partir desta terça-feira, um político inexperiente aos seus comandos. Yoon Suk-yeol trabalhou toda a vida no sector da justiça e acumulou prestígio no combate à corrupção. Para este conservador, os trabalhadores sul-coreanos devem poder trabalhar 120 horas por semana. E a relação com a Coreia do Norte e com a China é para endurecer

Yoon Suk-yeol, na cerimónia de tomada de posse como Presidente da Coreia do Sul, a 10 de maio de 2022 FLICKR REPUBLIC OF KOREA

Coreia do Sul pertence a uma minoria de países que, tendo adotado o sistema presidencialista como forma de governo, apenas permite que chefe de Estado desempenhe um mandato de cinco anos, sem reeleição. A regra radica na Constituição de 1987, que pôs termo à ditadura militar.

“O mandato único foi fundamental para a obtenção de um compromisso político. Havia muito medo que de que o Presidente em exercício não perdesse a reeleição” e se eternizasse no cargo. “Um mandato único garantia a mudança ao fim de cinco anos”, explica ao Expresso Jong Eun Lee, professor adjunto na Universidade Americana, Washington DC.

Esta terça-feira, a Coreia do Sul inaugura um novo capítulo na sua jovem democracia de 35 anos. Toma posse um novo Presidente, de seu nome Yoon Suk-yeol.

Estando o Presidente Moon Jae-in, do Partido Democrático da Coreia (centro liberal, maioritário no Parlamento), impossibilitado de se recandidatar, os eleitores escolheram novo rumo. O país depositou confiança no candidato do Partido do Poder Popular (direita), formação que tem liderado a oposição.

Yoon Suk-yeol venceu as eleições de 9 de março com 48,56% dos votos. O candidato derrotado, Lee Jae-myung, do Partido Democrático, ficou a menos de 1%. A diferença entre ambos foi de 247.077 votos, num universo de mais de 44 milhões de eleitores.

Esta vantagem exígua — num escrutínio que ficou conhecido como “eleições squid game” (por analogia com uma série sul-coreana violenta de grande sucesso na Netflix), dado o nível de agressividade entre os candidatos — revelou quão dividida está a sociedade na 10.ª maior economia do mundo.

Yoon Suk-yeol é um novato da política. Nascido em Seul a 18 de dezembro de 1960, a um casal de professores universitários, foi no sector da justiça que trabalhou toda a vida. Formou-se em Direito na Universidade Nacional de Seul e só entrou na Ordem dos Advogados… à nona tentativa. Os anos como promotor de justiça contribuíram para construir a imagem de homem destemido, que não vacila na hora de enfrentar pesos-pesados da política e magnatas dos negócios.

“Passei muitos anos da minha carreira a morar sozinho, enquanto trabalhava como promotor em gabinetes locais e regionais. Então, passei a cozinhar muito para mim e gostei. Julgo que aprendi habilidades naturalmente, a observar a minha mãe na cozinha quando eu era jovem”, disse a 14 de abril, numa entrevista ao jornal norte-americano “The Washington Post”, desvendando, desta forma, um dos seus prazeres particulares: a cozinha. As suas especialidades são kimchi jjigae, uma espécie de ensopado, e bulgogi, conhecido como “churrasco coreano”.

Cruzada anticorrupção

Em 2016, o prestígio de Yoon Suk-yeol disparou quando passou a liderar uma equipa de investigação a um escândalo de corrupção e abuso de poder envolvendo a então Presidente do país. Park Geun-hye acabaria por ser impugnada e condenada a 25 anos de prisão. Foi indultada e libertada a 31 de dezembro passado.

Entre 2019 e 2021, Yoon desempenhou o cargo de procurador-geral do país. Expôs casos de corrupção que implicavam membros do Governo de Moon Jae-in, o que foi determinante para ter sido escolhido pelos conservadores para candidato à presidência. Aderiu ao Partido do Poder Popular a 30 de julho de 2021 — a sua entrada oficial na política —, após ter anunciado a intenção de concorrer como independente.

Durante a campanha eleitoral, Yoon, que se opõe ao intervencionismo económico do Estado, prometeu combater a estagnação económica, os altos preços das casas e o desemprego persistente entre os jovens. Defendeu também a abolição do salário mínimo e a semana laboral de 52 horas, defendendo que “os trabalhadores devem poder trabalhar 120 horas”.

Numa promessa eleitoral que causou polémica, Yoon comprometeu-se a abolir o Ministério da Igualdade de Género e Família e culpou o aumento do feminismo pela baixa taxa de natalidade no país.

Batizado na fé católica, em 2012 casou-se com Kim Kun-hee, mais nova 12 anos, atual presidente de uma empresa especializada na organização de exposições de arte. O casal não tem filhos e não esconde o seu amor por animais: vive com quatro cães e três gatos.

Quebrando uma prática de décadas, o novo Presidente vai instalar o seu gabinete não na tradicional Casa Azul, a norte de Seul, mas no complexo do Ministério da Defesa, na zona de Yongsan, no centro da capital.

A nível interno, as prioridades da Administração Yoon serão “a resposta ao impacto da pandemia de covid-19 e o mercado imobiliário”, prevê Jong Eun Lee. “Como é que a Coreia vai recuperar-se da pandemia e que compensações serão dadas, especialmente aos pequenos empresários? O Governo conseguirá controlar o aumento do preço da habitação e/ou aumentar a oferta de novas casas? Eis as principais prioridades dos eleitores sul-coreanos. E, uma vez que haverá eleições locais a 1 de junho, o Executivo irá dar preferência a essas agendas.”

A pensar nesse desafio eleitoral, o novo Presidente — cujo partido só tem garantido o apoio de 113 dos 300 deputados da Assembleia Nacional — realizou recentemente uma volta ao país: visitou 29 cidades em 50 dias.

Desnuclearização é pré-requisito

O académico ouvido pelo Expresso refere outra prioridade doméstica: o apoio à inovação tecnológica (a Revolução Industrial de 4ª Geração) visando o crescimento económico e a criação de emprego, sobretudo para os jovens. “A inovação tecnológica e o crescimento impulsionado pelo mercado parecem ser uma marca registada da governação de Yoon.”

Por último, o reforço da segurança nacional e a paz na península coreana. Se o seu antecessor se empenhou pessoalmente num processo de diálogo intercoreano — Moon Jae-in protagonizou três cimeiras com o homólogo norte-coreano, Kim Jong-un —, Yoon já identificou um pré-requisito para se envolver em mais iniciativas: a completa desnuclearização da Coreia do Norte.

“Yoon prometeu continuar os esforços no sentido de um envolvimento diplomático com a Coreia do Norte e apoiou o envio de ajuda humanitária. Ao mesmo tempo, defendeu o fortalecimento da [relação de] dissuasão entre a Coreia do Sul e os Estados Unidos contra as ameaças/provocações da Coreia do Norte e a continuação das sanções internacionais até que Pyongyang registe uma desnuclearização substancial”, diz Jong Eun Lee.

“Enquanto a Coreia do Norte continuar com uma série de testes com mísseis, é provável que a Administração Yoon adote uma atitude de linha-dura, em parte para contrastar com o Governo anterior. Provavelmente, Yoon responderá com iniciativas com vista ao fortalecimento do sistema de defesa antimíssil da Coreia do Sul e a realização de exercícios de defesa em larga escala com os Estados Unidos.”

Durante a campanha eleitoral, Yoon defendeu ataques preventivos contra a Coreia do Norte como única forma de conter o perigo dos novos mísseis hipersónicos, testados com êxito por Pyongyang em janeiro deste ano. E disse que iria pedir aos EUA que estacionassem no país armas nucleares táticas, em caso de ameaça por parte do Norte.

Em alguns dias, Yoon ficará a saber o que pensa o homólogo norte-americano da sua estratégia. Entre 20 e 24 de maio, Joe Biden visitará a Coreia do Sul e o Japão, naquele que será o seu primeiro périplo pela Ásia. Os dois Presidentes têm uma cimeira agendada para o dia 21.

Ajudar a conter a China

Jong Eun Lee antecipa “o fortalecimento da aliança entre os dois países”, que têm uma relação tão antiga quanto o próprio país (formalizada em 1949, após a divisão da península).

“Procurando dar um passo em frente, a Administração Yoon é apologista de uma ‘aliança estratégica abrangente’, que passa pela expansão das áreas de cooperação com os EUA, em específico a participação na estrutura de segurança da região do Indo-Pacífico — como o Diálogo de Segurança Quadrilátero (Quad, na sigla inglesa) —, a cooperação tecnológica nas áreas biológica, nuclear, cibernética e espacial, e a parceria trilateral Coreia do Sul-EUA-Japão.”

O desejo de ser parte ativa no Quad insere-se na visão de Yoon de querer projetar a Coreia do Sul como “Estado pivô global”, não exclusivamente focado na Coreia do Norte. Isso terá impacto na relação com a China — o maior parceiro comercial da Coreia do Sul, que absorve mais de 25% das suas exportações — já que o Quad, aliança composta por EUA, Austrália, Índia e Japão, foi criado para conter a crescente influência de Pequim na região.

“É inquestionável que os dois países [Coreia do Sul e China] não podem negligenciar-se ou ignorar-se”, explicou Yoon a “The Washington Post”. “Ao nível da política e da segurança, a China tem uma aliança com a Coreia do Norte, e nós temos uma aliança com os EUA. Mas há 40 divisões militares colocadas ao longo da DMZ [zona desmilitarizada entre as Coreias]. É essa a nossa realidade no terreno.”

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 10 de maio de 2022. Pode ser consultado aqui

Viragem na presidência após campanha para esquecer

Yoon Suk-yeol venceu as eleições por menos de 1%. Ex-procurador-geral, propõe política mais dura com a Coreia do Norte

A democracia sul-coreana assinala, este ano, 35 anos de vida. Quarta-feira, o país foi a votos para escolher novo Presidente e, a atentar no perfil dos principais candidatos que disputaram as eleições até ao último voto, talvez não seja exagerado dizer que os sul-coreanos estão fartos de políticos. Pela primeira vez na era democrática, nenhum dos candidatos mais votados tem experiência parlamentar ou governamental.

O nome a memorizar é Yoon Suk-yeol. Representante do Partido do Poder Popular (conservador), até agora na oposição, recebeu mais de 16,4 milhões de votos (48,56%). Em segundo lugar ficou Lee Jae-myung, do Partido Democrático (liberal, no poder) e veterano da administração pública (até há pouco, governador da província de Gyeonggi). Foi o preferido de 16,1 milhões de eleitores (47,83%). A afluência foi de 77,1%, entre 44 milhões de eleitores.

Os dois candidatos terminaram a corrida à Casa Azul separados por menos de 1% dos votos. Na Coreia do Sul, o chefe de Estado só pode exercer um mandato de cinco anos e as presidenciais ficam concluídas numa volta só, ou seja, ganha o candidato mais votado, independentemente da robustez do seu resultado. “Considerarei a unidade nacional a minha prio­ridade de topo”, disse o vencedor.

O novo Presidente, de 61 anos, dedicou 26 à justiça, onde exerceu como promotor. Entre 2019 e 2021, Yoon Suk-yeo foi procurador-geral do país, tendo ganho prestígio ao liderar investigações relativas a escândalos de corrupção que implicavam assessores do Presidente Moon Jae-in.

Durante a campanha eleitoral, Yoon ganhou fama de ser antifeminista, depois de ter dito que a discriminação de género não existe no país de forma estrutural, e de prometer abolir o Ministério da Igualdade de Género e da Família.

Votar no “mal menor”

Esta foi uma de muitas polémicas, escândalos e insultos que marcaram o período pré-eleitoral. Os dois principais aspirantes atacaram a esposa um do outro, Lee acusou Yoon de ser bêbado e denunciaram “xamãs” (pessoas com poderes especiais) na campanha adversária. A alta taxa de reprovação de ambos levou a que este escrutínio fosse visto como a escolha “do mal menor” ou rotulado de “eleição desagradável” ou “eleição ‘Squid Game’” (por analogia com uma violenta série sul-coreana de grande sucesso na Netflix), pelo nível de agressividade entre os principais nomes em liça. Numa reportagem do jornal “Korea Times” realizada junto de jovens que votavam pela primeira vez, um deles afirmava: “Alguns candidatos parecem umas cabeças ocas, a julgar pelas suas palavras e ações.”

Na hora da vitória, Yoon prometeu “prestar atenção aos meios de subsistência das pessoas”, “fornecer serviços de bem-estar aos necessitados”, acabar com a corrupção e fazer o máximo para que a Coreia do Sul “sirva como membro orgulhoso e responsável da comunidade internacional e do mundo livre”.

A estratégia de Yoon à frente da quarta maior economia da Ásia (a seguir à China, Japão e Índia) passa por redefinir a relação com a China e endurecer a posição do país para com a Coreia do Norte. Nos últimos meses, Pyongyang lançou um número recorde de mísseis.

Artigo publicado no “Expresso”, a 11 de março de 2022. Pode ser consultado aqui ou aqui

Bennett já governa. E Netanyahu já quer abatê-lo

O “Governo da mudança” enfrenta desafios internos e externos e uma moção de censura no Parlamento

Naftali Bennett, com a kippah, e Benjamin Netanyahu MIRIAM ALSTER / FLASH90

Os primeiros dias do autoproclamado “Governo da mudança” — sem Benjamin Netanyahu ao leme após muitos anos — mais parecem dignos da era… Netanyahu. Terça-feira, uma marcha nacionalista desfilou, de forma provocadora, em Jerusalém Oriental, celebrando a conquista dessa parte da cidade aos árabes em 1967.

Aos gritos de “morte aos árabes”, “Maomé está morto” e “a segunda Nakba [expulsão de árabes da Palestina] está a chegar”, a marcha não evitou passar pela Porta de Damasco — principal entrada no bairro árabe da Cidade Velha —, tornando os confrontos com palestinianos inevitáveis.

Tal como aconteceu há um mês, quando a iminência de despejos de famílias árabes do bairro de Sheikh Jarrah, em Jerusalém Oriental, desencadeou uma inédita chuva de rockets sobre Israel, disparados pelo Hamas, o grupo islamita reagiu agora à marcha lançando balões incendiários a partir da Faixa de Gaza. Os artefactos provocaram 20 fogos no sul de Israel, que respondeu com bombardeamentos a Gaza — em maio durante 11 dias, esta semana durante umas horas.

Estes acontecimentos traduzem o principal desafio interno que enfrenta o novo Governo em funções desde domingo, liderado pelo nacionalista Naftali Bennett: a coexistência entre israelitas árabes e judeus. Na frente externa, o grande problema é o de sempre nos últimos anos: o programa nuclear iraniano.

“Netanyahu juntou-se à viagem vergonhosa dos seus co-conspiradores anti-Irão — Bolton, Trump e Pompeo — para o caixote do lixo da história. (…) É hora de mudar de rumo”
Javad Zarif, ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão

A saída de cena de Netanyahu significa para o Irão o desaparecimento de um entrave ao diálogo com o Ocidente. Mas se esse tipo de política é defendida pelo atual Presidente iraniano (o moderado Hassan Rohani), poderá não ser a do seu sucessor, que será eleito nas presidenciais de hoje.

Esta semana, no Parlamento israelita, Bennett não se distanciou da posição do seu antecessor, considerando “um erro” a reativação do acordo nuclear de 2015 (de que Donald Trump retirou os EUA, mas a que Joe Biden quer regressar). “Israel não permitirá que o Irão se equipe com armas nucleares”, disse o novo primeiro-ministro. Este dossiê será, porventura, o principal braço de ferro entre Israel e a Administração Biden.

“Israel não tem melhor amigo do que os EUA”
Joe Biden, Presidente norte-americano

Após entrar na Casa Branca, a 20 de janeiro, Biden demorou quase um mês para fazer o seu primeiro telefonema para Netanyahu (Trump ligara-lhe no segundo dia em funções). A demora na cortesia causou ansiedade em Israel e suspeitas de que Biden quisesse menosprezar Netanyahu, que era unha com carne com Trump.

Desta vez, o Presidente dos EUA ligou a Bennett no próprio dia em que o Parlamento o confirmou como primeiro-ministro. Num ato paralelo, o secretário de Estado americano, Antony Blinken telefonou ao seu homólogo Yair Lapid (que a meio da legislatura trocará de cargo com Bennett). “O vínculo que une os nossos povos é prova dos valores que partilhamos e de décadas de estreita cooperação” disse Biden. “Os Estados Unidos permanecem inabaláveis no seu apoio à segurança de Israel.”

“Estou convosco, amigos, na batalha diária contra este mau e perigoso Governo de esquerda, para derrubá-lo”
Benjamin Netanyahu, ex-primeiro-ministro israelita

Netanyahu demorou apenas três dias a declarar guerra à coligação de oito partidos — da extrema-direita judaica ao islamismo árabe — que se uniram para o afastar do poder. Na quarta-feira, o seu partido (Likud, direita) apresentou uma moção de censura ao Executivo, acusando-o de ter sido formado com base em “fraude e mentiras”. Será votada na próxima segunda-feira, no mesmo Parlamento que aprovou o Governo Bennett por um triz: 60 votos contra 59.

Artigo publicado no “Expresso”, a 18 de junho de 2021. Pode ser consultado aqui

‘Impeachment’ traz Trump de volta ao palco da política numa altura em que a América precisa de esquecê-lo

Donald Trump começa a ser julgado esta terça-feira, no Senado, pelo papel que teve na invasão ao Capitólio. Ao Expresso, o americanólo José Gomes André defende que o processo, nesta altura, é um erro. “Num momento em que a América precisa de superar o trauma Trump e virar a página, vai-se falar dele”, diz. Será o quinto impeachment da História dos EUA. Nenhum dos anteriores resultou na condenação do Presidente, e este não deverá ser diferente

A caminho de cumprir 245 anos de vida, os Estados Unidos já sujeitaram quatro presidentes a processos de impugnação (impeachment). Metade dos casos aconteceu nos primeiros 200 anos; os outros dois nos últimos 25. Esta terça-feira, começa no senado o julgamento de Donald Trump, o único Presidente norte-americano a ser impugnado duas vezes.

“Em pouco mais de um ano, e com um só Presidente, houve tantos impeachments como nos primeiros 200 anos da História americana. Isto significa que podemos estar a entrar numa fase em que o impeachment deixa de ser considerado um recurso de última instância para se vulgarizar e banalizar como arma política”, comenta ao Expresso o americanófilo José Gomes André, professor na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

“O que começa a acontecer é que de cada vez que a maioria que controla o Congresso desgosta ou não concorda com quem está na Casa Branca, inicia um impeachment. Um dia destes o impeachment passa a equivaler a um protesto, um desagrado. É assim, também, que se desvalorizam as instituições.”

Emoções à solta

Vinte dias apenas após deixar a Casa Branca, Trump volta a ter sobre si o foco da política norte-americana para se defender das acusações de incitamento à insurreição que levou à invasão do Capitólio. “A meu ver, é uma opção política errada. Vamos continuar a falar de Trump, vamos ter mais Trump no palco político, vamos ter outra vez as emoções à solta e a sociedade norte-americana confrontada com uma decisão maniqueísta — ‘Condenação ou absolvição?’ —, quando o que os Estados Unidos precisam rapidamente é de superar este trauma”, defende o académico.

O facto de o ex-Presidente enfrentar um processo de destituição numa altura em que já não pode ser destituído (deixou o cargo a 20 de janeiro, na sequência de derrota eleitoral) levanta dúvidas em relação à oportunidade desta medida. “O argumento a favor da inevitabilidade do impeachment a Trump [atendendo à gravidade dos factos naquele que foi um evento sem precedentes na História americana] está muito relacionado com a dimensão moral do que se passou. Trump não só foi conivente como esteve ligado, mesmo que tacitamente, a um certo incitamento, sublinhando a necessidade de um protesto veemente”, recorda José Gomes André.

O investigador de Filosofia Política acrescenta, porém: “Aquilo que me parece ser má ideia tem sobretudo que ver com o facto de o impeachment surgir numa altura em que Trump já não é Presidente”.

“Isto significa que o que está por trás deste impeachment é muito mais um fenómeno de vingança e punição do próprio Trump e uma tentativa de precaver uma recandidatura presidencial. É nesta segunda dimensão que este impeachment me parece bastante criticável e questionável, porque a dimensão moral é indiscutível.”

As reservas de José Gomes André — autor de uma tese de doutoramento sobre o pensamento de James Madison, o 4.º Presidente dos EUA (1809-1817), considerado “o Pai da Constituição” — decorrem do contexto histórico em que tudo acontece.

“Num momento em que o próprio Presidente Joe Biden fala em reconciliação, na necessidade de curar as feridas, de todo um processo de divisão crescente, de uma América quase traumatizada, de manhã apela-se à reconciliação e à tarde discute-se o impeachment”, critica o investigador.

“Isto vai voltar a colocar Trump no núcleo da discussão política. Num momento em que a América precisa de superar o trauma Trump e virar a página, vai-se falar dele. Vai-se alimentar ainda mais, inclusive, a convicção dos seus apoiantes de que ele é perseguido pelos adversários, de que é uma vítima, um mártir. Parece-me um erro enorme da parte dos democratas, que só vai dividir ainda mais o país. Ainda por cima, tudo isto é reforçado pelo facto de este impeachment ter muito poucas hipóteses de vingar.”

Para Trump ser condenado, o impeachment tem de ser aprovado nas duas câmaras do Congresso: na Câmara dos Representantes por maioria simples e no Senado por maioria de dois terços dos seus membros.

A votação na Câmara dos Representantes aconteceu a 13 de janeiro, ainda antes do final do mandato do 45.º Presidente. A destituição foi então aprovada por 232 votos, contra 197. Dez republicanos tiraram o tapete a Trump e votaram ao lado dos democratas.

No Senado, a aprovação requer a anuência de pelo menos 67 senadores. Isso significa que, além dos 50 democratas (incluindo neste total dois independentes alinhados com o partido de Biden), 17 republicanos terão de votar contra Trump. Isso não está garantido nesta altura.

“Há várias maneiras de sancionar os atos de Trump. Umas já foram usadas, como uma condenação política pública. Outra é um caminho judicial tradicional” nos tribunais, que tem uma carga de neutralidade que o Congresso não tem.

“Outra é o impeachment. Tem de haver uma escala”, explica o americanófilo. “O impeachment é uma figura de última instância, fundamentalmente de condenação política. Não tem outra dimensão além dessa.”

Impeachment… a Joe Biden

A febre dos impeachments poderá, no entanto, não ficar por aqui. A 21 de janeiro, no dia seguinte a Joe Biden tomar posse como 46.º Presidente, Marjorie Taylor Greene, deputada na Câmara dos Representantes, eleita pelo estado da Georgia, e simpatizante do movimento QAnon (que espalha teorias infundadas sobre uma rede de pedófilos canibais patrocinada pelo Partido Democrata), avançou com um pedido de destituição do novo Presidente.

A congressista fundamentou o pedido dizendo que Biden, enquanto vice-Presidente, “permitiu suborno e outros crimes graves e contravenções, ao autorizar o seu filho [Hunter Biden] a influenciar a política interna de um país estrangeiro [Ucrânia] e aceitar vários benefícios — incluindo compensação financeira — de estrangeiros em troca de certos favores”.

José Gomes André não acredita que o atual Presidente saia minimamente beliscado deste processo. “É símbolo apenas da tal radicalização do discurso e da invocação do impeachment por tudo e por nada, mas não tem impacto possível, nem pouco mais ou menos.”

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 9 de fevereiro de 2021. Pode ser consultado aqui