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Um Observatório para lançar pontes com o mundo islâmico

O Observatório do Mundo Islâmico é apresentado ao público esta terça-feira, em Lisboa. Ao Expresso, uma das suas dinamizadoras, Maria João Tomás, fala de “um projeto transversal a todas as áreas do conhecimento” que quer “contribuir para que não sejam feitas más interpretações do Islão”

Espalhar conhecimento, combater estereótipos, lançar pontes, é a missão a que se propõe o Observatório do Mundo Islâmico, um projeto novo apresentado esta terça-feira, em Lisboa. “O desconhecimento leva ao ódio, o ódio leva à violência, e o ciclo não acaba”, diz ao Expresso a investigadora Maria João Tomás, vice-presidente da direção. “Tem de haver conhecimento para haver entendimento.”

O Observatório pretende focar-se em “todos os países onde o Islão seja religião maioritária, religião oficial ou tenha uma representatividade importante”, explica a professora da Universidade Autónoma.

Em causa está, pois, uma longa faixa geográfica contígua que se estende de Marrocos ao Paquistão, abarcando vários outros países como o Bangladesh, a Indonésia — o país muçulmano mais populoso — e a Nigéria. Esta área é “uma importante fonte de História, que nos ajuda a compreender aquilo que somos hoje”, realça Maria João Tomás.

Um dos tópicos a serem trabalhados é a questão das minorias no mundo islâmico, nomeadamente as cristãs. O Observatório pretende também contribuir para causas. “Uma delas, que para mim é prioritária, prende-se com a excisão genital feminina, que não é uma prática islâmica, não consta do Corão.”

As religiões como arma política

O Observatório contará com o contributo de um leque alargado de pessoas — académicos e investigadores, militares, personalidades da sociedade civil, membros da Comunidade Islâmica de Lisboa. “É um projeto transversal a todas as áreas do conhecimento”, diz a professora. “Vamos dinamizar para que haja uma aproximação à sociedade civil.”

Na prática, este projeto passará pela realização de conferências, debates, discussões públicas, workshops por todo o país – numa fase inicial, as iniciativas serão mais concentradas em Lisboa, Porto, Algarve e Alentejo.

O projeto passa também pela criação de um portal na Internet que disponibilize informação que vá ao encontro das dúvidas mais complexas ou mais básicas dos portugueses. “O que é o Ramadão?”, é apenas um exemplo. “Para além dessa informação básica e simples, o Observatório quer ir um pouco mais longe e contribuir para que não sejam feitas más interpretações do Islão.”

A apresentação do Observatório do Mundo Islâmico decorre esta terça-feira, a partir das 17 horas, no Auditório 1 da Universidade Autónoma de Lisboa. A sessão incluirá a realização de dois debates sobre religião — “As Religiões como instrumento político” e “O mundo islâmico, religião e poder”. Porque, como refere Maria João Tomás, “as religiões têm sido utilizadas ao longo da História como instrumento político” para acicatar ódios e justificar guerras.

(IMAGEM “Deus”, escrito em árabe, a língua do Alcorão WIKIMEDIA COMMONS)

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 30 de abril de 2019. Pode ser consultado aqui

No Porto, a festa do 25 de Abril fez-se a 1 de Maio

Quando lhe perguntam onde estava no 25 de Abril, Sérgio Valente diz sem rodeios: “Na baixa do Porto, a levar porrada da polícia”. Ao Expresso, este fotógrafo de 77 anos recorda os tempos de oposição ao regime e os primeiros dias em liberdade. Esta quinta-feira, é inaugurada na Câmara do Porto uma mostra de fotos suas com imagens inéditas da revolução

Panorâmica da Avenida dos Aliados, no Porto, a 1 de maio de 1974. O primeiro 1º de Maio em liberdade SÉRGIO VALENTE

Sérgio Valente terminou o dia 25 de abril de 1974 com um penso colado à testa. Passara o dia às voltas no Porto, tentando perceber para que lado caía a revolução. Como ele, com o passar das horas, cada vez mais portuenses rumavam à Avenida dos Aliados para — perante as informações de que, em Lisboa, o golpe militar estava no bom caminho — celebrarem a conquista da liberdade em conjunto.

“A movimentação era cada vez maior. Então o comandante da polícia mandou carregar sobre as pessoas que estavam a comemorar a liberdade”, recorda ao Expresso este fotógrafo portuense, então com 32 anos. “Vi um polícia a bater num jovem e peguei numa pedra para tentar atingi-lo, mas surgiu outro agente sem eu contar. Deu-me uma bastonada que me abriu a testa. Muitas vezes se pergunta: Onde é que tu estavas no 25 de Abril? Eu costumo responder que estava a levar porrada. Nem no dia da liberdade me pouparam.”

Aos 77 anos, Sérgio recorda um dia “muito confuso”, com algumas montras e cabines telefónicas partidas na Avenida dos Aliados. Ele despertara para o que se estava a passar de manhã quando, em casa, recebeu um telefonema da mulher, que trabalhava na cooperativa livreira Unicepe. “Disse-me que ligasse o rádio e assim fiz. Comecei a ouvir a Luísa Basto a cantar músicas que eu só ouvia nas rádios clandestinas.”

Não descansou então enquanto não saiu para a rua tentar perceber o que se passava junto dos militares posicionados na Ponte D. Luís e depois junto ao Aeroporto de Pedras Rubras (hoje, Francisco Sá Carneiro).

Sérgio guarda poucas fotos do dia 25 de Abril. “Não estava preocupado em tirar fotografias. Eu era ativista, mais do que fotógrafo. Naquele momento, queria que o fascismo caísse e não voltasse mais. Estava há tanto tempo à espera da liberdade que queria era vive-la com as pessoas.”

No dia 26 de Abril, muitos populares saudaram os militares em frente ao quartel general da Praça da República. Sérgio Valente vai em ombros, de braços erguidos e penso na testa SÉRGIO VALENTE

Consolidada a revolução, a festa na Invicta fez-se uma semana depois, com mais de 300 mil pessoas — “sem exagero”, diz o fotógrafo —, apinhados nos Aliados a celebrar o primeiro 1º de Maio em liberdade.

A ocorrência de um golpe antirregime não era uma surpresa absoluta para ele, que vinha contabilizando alguns indícios de que algo poderia estar para acontecer. Dias antes da revolução, no Grupo dos Modestos — uma companhia de teatro onde despontavam atores como Júlio Cardoso e Estrela Novais —, um amigo ligado ao Partido Comunista deixara-o desconfiado. Ao despedirem-se, aconselhou a que evitassem encontrar-se nos dias seguintes. Sérgio foi para casa a matutar no assunto.

Não havia muito tempo, num jantar de homenagem a Óscar Lopes — opositor ao Estado Novo que viria a dirigir a Faculdade de Letras do Porto entre 1974 e 1976 —, tinha havido intervenções sobre o regresso dos exilados ao país, incluindo de Álvaro Cunhal. “Quando ouvi aquele nome até olhei para o lado. Algo não estava bem. Era quase impossível falar-se de Álvaro Cunhal. Devia estar para acontecer alguma coisa…”

Quando estalou o 25 de Abril, Sérgio já levava metade da sua vida dedicada à militância antirregime. Desde 1964, estava oficialmente ligado ao PCP. Toda essa experiência permitia-lhe constatar que, no início dos anos 1970, Portugal não era o mesmo país resignado e obediente de décadas anteriores.

Entre 4 e 8 de abril de 1973, em Aveiro, o 3º Congresso da Oposição Democrática já dera alguns sinais de que o povo perdera o medo. “Por tudo o que ali foi dito, pressentimos que algo estava para acontecer.” O portuense assistiu a tudo na primeira fila, ora fotografando os trabalhos no interior do Teatro Avenida, ora observando o que se passava nas ruas, com a PSP a cercar a cidade para dificultar a chegada de opositores e, com isso, a gerar um entusiasmo crescente. “Aveiro foi um sinal.”

No Teatro Avenida, quem intervém é Álvaro Seiça Neves, um destacado antifascista aveirense. Sentada, Maria Barroso observa-o SÉRGIO VALENTE

Sérgio Valente ganhava a vida a tirar fotografias em eventos sociais. Chegara ao meio pela mão de um tio, fotógrafo, que assim o resgatou da vida na construção civil. “A minha entrega à luta era de tal ordem que, muitas vezes, em momentos cruciais, esquecia a fotografia. Eu era mais ativista do que fotógrafo”, admite. “Havia momentos em que eram necessárias pessoas com alguma coragem…”No Portugal de Salazar, quatro pessoas a conversar na rua podia ser considerado um ajuntamento. Para quem militava na clandestinidade, o 1º de Maio era sempre aproveitado para ações de insubordinação. “As células sabiam que haveria alguém que, em determinada hora e local, iria interromper o trânsito e acenar uma bandeira. Não está a ver o Sérgio Valente a fazer reportagem com a máquina fotográfica numa situação dessas…”

O batismo com Humberto Delgado

Sérgio teve os seus primeiros contactos com a oposição ao regime aos 18 anos, através de um grupo de jovens afetos ao PCP que parava no café Estrela d’Ouro, na Rua da Fábrica. Dois anos antes, o Porto vivera um episódio histórico que lhe confirmou de que lado desta luta ele queria estar.

A 14 de maio de 1958, Humberto Delgado, rosto maior da oposição a Salazar, chegou à Estação de São Bento e foi recebido por uma multidão estimada em 200 mil pessoas. “Foi o meu batismo”, recorda. “Muita polícia, a GNR a cavalo, muita bastonada. Perguntei quem era e disseram-me que era um general que se opunha ao Salazar. Nunca mais o larguei. Entrei de costas no Coliseu [onde o “general sem medo”, que se candidatava às presidenciais, fez um comício] e aos empurrões. Foi o meu despertar. A partir daí nunca mais parei.”

A sua coragem fe-lo dar nas vistas nos meandros da clandestinidade. A seu favor, tinha também um certo feitio rebelde e uma revolta interior que o acompanhava desde tenra idade quando vivia na Foz Velha, numa casa sem quartos onde chegaram a viver dez pessoas: os pais, três irmãos, duas irmãs e um casal de primos.

Nos calabouços da PIDE

A sua entrega à luta colocou-o sob os holofotes da PIDE (DGS a partir de 1969). Por três vezes — 1969, 1971 e 1973 — foi parar aos calabouços, na Rua do Heroismo, um edifício que hoje alberga o Museu Militar do Porto. “Quando eu passava diante daquele prédio tenebroso, tentava imaginar o que eles faziam lá dentro. Lia muita coisa sobre as torturas, as humilhações e pensava: ‘E se um dia eu caio aqui?’ Criava-me arrepios. Até ao dia em que isso aconteceu mesmo. Dei comigo a pensar: ‘Estou cá dentro. O que é que me vão fazer?’”

Retratos de Sérgio Valente feitos pela PIDE a 2 de maio de 1969, quando foi preso pela primeira vez SÉRGIO VALENTE

Da primeira vez que foi preso, preparava-se para participar na manifestação proibida do 1º de Maio de 1969, na Avenida dos Aliados. “Junto à Igreja dos Congregados, havia um batalhão de polícias pronto a avançar. Um deles pegou no cacetete e as pessoas começaram a atropelar-se umas às outras. Corri atrás dele e mandei-lhe um pontapé no traseiro. Nunca mais me largou.” Sérgio acabou encurralado e apanhou uma bastonada na cabeça. O ferimento caria visível nas retratos que lhe tiraram na PIDE, para onde foi levado e cou preso cerca de uma semana.

Da segunda vez, em 1971, foi tudo muito mais doloroso. “Foi uma prisão programada e premeditada. E foi muito violenta. Fizeram de tudo para me provocar. Maltrataram-me, aplicaram-me a tortura do sono, bateram-me até quase me matarem, levei socos na garganta. Vi a morte à minha frente.”

Sérgio foi preso na sequência de uma longa noite de trabalho, no seu estúdio de fotografia, num segundo andar da Rua de Entreparedes. Era ali que pernoitava com a mulher e duas crianças sempre que o trabalho se prolongava. Na noite de 22 de julho de 1971, tinha estado a tratar de fotos tiradas a turistas numas caves do Vinho do Porto.

Na manhã seguinte, a PIDE intercetou-o na rua. “Queriam revistar o estúdio. Procuravam material subversivo e também uns cartões relacionados com uma excursão que um grupo planeava a Peniche. A ideia era cantarmos canções de intervenção junto à prisão para que os presos soubessem que a luta continuava cá fora.”

Com os PIDEs dentro do estúdio, o casal Valente foi puxando da criatividade para despista-los e livrarem-se de material que os pudesse incriminar. O emblema do 50º aniversário do PCP dentro da carteira de Laura, também ela uma combatente antifascista, ligada ao Movimento Democrático de Mulheres. O envelope com jornais proibidos endereçado a RAF (“Rafael” era o pseudónimo de Sérgio). Negativos e fotografias incómodas, como as de José Dias Coelho e Catarina Eufémia, assassinados pela PIDE e pela GNR, respetivamente.

Laura Valente discursa no Coliseu do Porto, a 31 de janeiro de 1974, no âmbito de uma iniciativa comemorativa da revolta naquele dia em 1891 SÉRGIO VALENTE

Do estúdio, onde nada de relevante encontraram, os agentes quiseram inspecionar a casa onde viviam. Ali, Sérgio e Laura seriam denunciados por “uns papeis encontrados no meio da roupa”. Foram levados para interrogatório, mas só ela regressaria a casa, não sem antes protestar alto e bom som contra a detenção do marido. Viria a ser julgada e “condenada a seis dias de multa a 30$00 diários de indemnização à DGS”.

O caso foi noticiado a 18 de dezembro de 1971, no “Diário de Lisboa”, com o título “Senhora condenada por injúrias à DGS”. Para a pena contribuiu também o comportamento de Laura durante uma visita posterior ao marido, acompanhada por uns parentes. “Eles entraram, ela não, porque, como lhe disseram, estava proibida de o fazer durante trinta dias já que tivera mau comportamento da primeira vez que ali estivera”, escreve o jornal. “A ré, irritada, teria proferido palavras injuriosas para a corporação policial, quando a fecharam numa sala, tendo quebrado os vidros da porta. Um agente tentou faze-la sair o que conseguiu após grande esforço.”

Retratos de Laura Valente feitos pela PIDE, em 1971 SÉRGIO VALENTE

Da segunda vez, Sérgio ficaria preso cerca de 20 dias. Inicialmente, não conseguia dormir, atormentado com o que lhe podia acontecer. “Lembrava-me muito do que se dizia no partido: ‘Quanto menos soubermos, melhor’. Mas eu sabia muita coisa…”

Depois continuou sem dormir, mas por outras razões. Tiraram-lhe a cama da cela e começaram a aplicar-lhe a tortura do sono. Sem nada revelar, foi resistindo ao cansaço, mas não o libertavam. Em 1960, Sérgio fora mandado embora da tropa após simular ataques de epilepsia. “Eu não tinha medo da guerra, até porque a minha especialidade era das melhores que havia na tropa, Foto-Cine. Era uma questão ideológica, aquilo não era nosso…”

Onze anos depois, na prisão, tentou voltar a encenar, desta feita fingindo ter alucinações. Conseguiu voltar a ter cama na cela. “Sobrevivi. E portei-me bem, que era o que eu queria: não falei. Saí de consciência tranquila. Posso ter abandonado os aparelhos partidários, mas não posso ser acusado de alguma vez ter traído alguém.”

A terceira detenção, assinada pelo inspetor da PIDE Rosa Casaco, aconteceu em 1973, de 30 de abril para 1 de maio. “Acharam que eu podia ser um dos cabecilhas de uma possível manifestação. Pela primeira vez estive numa cela coletiva, éramos uns oito ou nove, quase todos conhecidos uns dos outros.”

Muitos desses rostos estão homenageados nas fotos do portuense, que já deram origem a dois livros: “Sérgio Valente — Um fotógrafo na Oposição” (Edições Afrontamento, 2010) e “Sérgio Valente — Um fotógrafo na Revolução” (Edições Afrontamento, 2015). A partir desta quinta-feira, podem também ser apreciadas no átrio da Câmara Municipal do Porto, numa mostra intitulada “A Substância do Tempo — 25 fotografias de Sérgio Valente, 45 anos depois do 25 de Abril”.

Exposta estará também a velha Rolleicord, a sua “arma de guerra” com que tantas vezes registou como o Norte resistiu a Salazar. E também de como a revolução se fez de homens e mulheres valentes.

Manifestação de apoio ao Movimento das Forças Armadas, a 26 de abril de 1974, em frente ao quartel general na Praça da República. Sérgio Valente tirou a foto na varanda do quartel SÉRGIO VALENTE

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 25 de abril de 2019. Pode ser consultado aqui

Estarreja de braços abertos para acolher luso-venezuelanos

O distrito de Aveiro está a ser o porto de abrigo de muitos descendentes de ‘filhos de terra’ que, há décadas, tinham emigrado para a Venezuela. Encontrar trabalho não tem sido problemático, complicado é tratar das burocracias

Fogem da Venezuela em condições dramáticas, mas, chegados a Estarreja, no distrito de Aveiro, não há drama que impeça o começo de uma nova vida. “Estarreja não sentiu alarme social” após o êxodo de luso-venezuelanos para o concelho. “A sociedade está a tomar conta dessas situações. A Câmara Municipal foi solicitada poucas vezes”, diz ao Expresso Diamantino Sabina, presidente do município.

Terra de emigrantes — em especial para a Venezuela —, Estarreja vê agora regressar filhos e netos de quem tinha partido, no século passado. Dentro de “duas, três semanas”, começa a funcionar um Gabinete de Apoio ao Emigrante (GAE), o 146º em todo o país. “Já temos local, estamos à espera que os nossos funcionários recebam formação”, acrescenta.

A Câmara estima que, no primeiro semestre de 2019, possam chegar ao concelho à volta de 3000 luso-venezuelanos. O GAE será precioso sobretudo para ajudar com as burocracias. “A maior parte das pessoas não estão reconhecidas como cidadãos. O processo no SEF está a ser muito demorado. E não tendo a sua situação regularizada, não podem usufruir de ajuda social”, diz o autarca. “Neste momento, não são peso social algum. Pelo contrário, são força produtiva. Venham eles!”

Emprego para todos

Alguns dos que chegam têm família na terra, o que facilita a integração. Outros não têm essa retaguarda, mas trazem referências de que Estarreja está de portas abertas para recebe-los e orienta-los. “Se chegam vindos de outro país europeu, por exemplo — porque nem sempre conseguem voos diretos para Portugal —, o passaporte não é carimbado. Têm então três dias para faze-lo no SEF, mas praticamente ninguém sabe disso”, diz Crispim Rodrigues, de 67 anos, um antigo emigrante na Venezuela.

Em Estarreja, é ‘à porta’ de Crispim que muitos recém-chegados batem. É ele quem lidera o Departamento de Relações Exteriores da SEMA, uma associação empresarial com associados em cinco concelhos de Aveiro — Estarreja, Murtosa, Albergaria, Sever do Vouga e Ovar —, o que lhe permite conhecer “meio mundo” num universo de mais de 3000 empresas. Sensível ao desespero de quem chega, pela sua própria história pessoal — trabalhou na Venezuela quase 40 anos —, Crispim vai arranjando emprego para todos.

O município, com 27 mil habitantes, não tem estatísticas sobre a quantidade de luso-venezuelanos que já ali procurou refúgio, sobretudo desde que, em Caracas, o inquilino do Palácio de Miraflores é Nicolás Maduro. Crispim tem uma contabilidade parcial. “Em 2018, atendemos na SEMA 547 adultos vindos da Venezuela, uma média de 5-6 por dia”, o que, somados cônjuges e uma média de dois filhos, traduz-se em cerca de 1500 pessoas.

Um médico a acartar caixas de fruta

A rápida integração no mercado de trabalho é facilitada pela existência de dois parques industriais em crescimento: a Quimiparque e o Eco Parque. Mas a oferta nem sempre corresponde à formação e aspiração de quem procura. Longe da situação ideal, há atualmente um ortopedista a acartar caixotes de fruta num armazém, uma pediatra a atender à mesa numa padaria, uma arquiteta a trabalhar num supermercado…

“Para poderem exercer as suas profissões, têm de ter equivalência, e a maior parte não consegue a apostila [formalidade necessária à autenticação de documentos]. Na Venezuela, não o estão a fazer”, diz Crispim Rodrigues.

O seu sotaque “espanholado” não ilude quase 40 anos de vida e trabalho em solo venezuelano. Os três irmãos e respetiva descendência continuam por lá. Crispim regressou com a mulher e dois filhos em 1993, ainda antes da subida ao poder de Hugo Chávez. “No tempo do Chávez, quem regressava mais era a primeira e segunda gerações de emigrantes. Vendiam os negócios e vinham passar a velhice em Portugal. A fase mais complicada começou com Nicolás Maduro.”

“Mas os venezuelanos são gente de trabalho”, diz. “De todos os que já atendi, nenhum me pediu dinheiro. Pedem ajuda para tratar da documentação e para lhes arranjar trabalho.” Daí para a frente, arregaçam as mangas e vão à luta.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 25 de janeiro de 2019. Pode ser consultado aqui

André Freire: “Os jornalistas só se indignam com o Sr. Orbán ou a esquerda na América Latina. Quando são os judeus, não se vê grande sururu”

André Freire, politólogo e professor do ISCTE, é uma das 100 pessoas, entre escritores, cantores, deputados, economistas, sindicalistas, professores universitários e jornalistas, que assinaram o manifesto “Justiça para a Palestina”, uma iniciativa do Movimento pelos Direitos do Povo Palestino e pela Paz no Médio Oriente. No dia em que o documento é apresentado ao público (18h30 desta quinta-feira na Fundação José Saramago, em Lisboa) e em que se cumprem 100 anos da Declaração Balfour, de apoio à criação de um país para os judeus na região da Palestina, o Expresso falou com André Freire. “Os jornalistas, que são sempre tão diligentes a defender os seus direitos – e eu apoio isso, claro – não têm falado sobre isto”

Porque decidiu acrescentar o seu nome a este manifesto?
Naturalmente porque me revejo no que está escrito no documento, que tem que ver com a defesa dos direitos da Palestina e do povo palestiniano. Isto não implica, obviamente, não reconhecer também os direitos ao povo judaico. Mas a verdade é que Israel tem incumprido e violado as orientações das Nações Unidas. A construção de colonatos continua e a vida das pessoas na faixa de Gaza é simplesmente impossível — vivem ali num gueto de grande densidade populacional, sitiadas, cercadas.

É preciso defender os direitos das duas partes, mas se há uma parte que tem muita força e que tem colocado, aliás, essa força à frente do direito, é Israel e são os judeus. São cometidas violações constantes dos direitos humanos. Os judeus estão a tentar fazer uma política de facto para que, quando chegar a fase das negociações, não haver sequer Cisjordânia, que está já completamente esquartejada.

O que espera que possa vir a mudar com a apresentação pública deste documento?
Tem havido uma grande indiferença em relação a este assunto. Os jornalistas, que são sempre tão diligentes a defender os seus direitos — e eu apoio isso, claro — não têm falado sobre isto. Só se indignam com o Sr. Orban [Viktor Orbán, primeiro-ministro da Hungria) ou com os tipos de esquerda da América Latina. Quando são os judeus, não se vê grande sururu e, porém, isto é uma coisa muito grave. Em Portugal não houve praticamente discussão alguma. Repito: o Estado judaico tem violado todas as orientações e normativas das Nações Unidas, impedindo o povo palestiniano de ter uma vida minimamente digna, nomeadamente na faixa de Gaza. A perseguição de que os judeus foram alvo não pode servir para justificar tudo mais de 50 anos depois. É preciso inverter este processo. Até porque, com o novo inquilino na Casa Branca, a situação parece-me estar ainda mais difícil do que já estava, sobretudo no terreno, que está claramente pior. É preciso tomar uma posição e é por essa razão que o meu nome é um dos que consta do manifesto.

O conflito entre Israel e Palestina dura há décadas. O que acha que tem falhado na aproximação entre as duas partes?
Tem havido várias falhas e uma delas, na minha opinião, tem que ver precisamente com o posicionamento das grandes potências, nomeadamente os EUA, que deveriam pressionar os judeus para encontrar uma solução e não o têm feito. Os próprios judeus têm falhado, ao desrespeitarem as orientações das Nações Unidas, ao expandirem de forma indefinida e indeterminada os colonatos e ao aplicarem políticas de punição coletiva, nomeadamente quando há alguém que escolhe uma via mais radical e comete atentados, sendo depois punidos os membros da sua família. Tudo isso não tem ajudado. Não acho que a responsabilidade pela falta de um entendimento seja só de um lado. Não penso que seja isso e também não vale a pena entrar em maniqueísmos. Agora, não tenho dúvidas sobre qual o lado que tem estado com uma política de facto, de força, e sobre quem saído mais favorecido. Tudo isto tem destruído os países à volta, nomeadamente o Líbano.

Acredita que poderá haver, em breve, uma solução para o conflito?
Confesso que não estou muito otimista. Esta situação arrasta-se há décadas. E a geopolítica atual é provavelmente das mais desfavoráveis. Houve um sinal de mudança por parte de Barack Obama, mas agora a situação está bem mais complicada. Basta ver a abordagem atual dos israelitas, que é bastante mais musculada.

LISTA DOS 100 SIGNATÁRIOS DO MANIFESTO “JUSTIÇA PARA A PALESTINA”

Adel Sidarus, Professor universitário
André Freire, Politólogo, professor do ensino superior
André Pinotes Baptista, Deputado do PS
Aniceto Afonso, Coronel, historiador
Anselmo Dias, Bancário
António Arnaut, Advogado, ex-deputado do PS
António Avelãs Nunes, Professor universitário
António Delgado Fonseca, Oficial do Exército
António Madeira Bárbara, Embaixador
António Redol, Engenheiro
Aristides Gonçalves Leitão, Jurista
Arménio Carlos, Dirigente sindical
Augusto Flor, Antropólogo, dirigente associativo
Augusto Praça, Dirigente sindical
Avelino Gonçalves, Sindicalista bancário
Boaventura Sousa Santos, Professor universitário
Bruno Dias, Deputado do PCP
Carla Miranda, Deputada do PS
Carlos Alberto Moniz, Compositor, intérprete
Carlos Almada Contreiras, Almirante
Carlos Almeida, Historiador
Carlos Araújo Sequeira, Jurista
Carlos Esperança, Escritor, jornalista
Carlos Fragateiro, Professor universitário
Carlos Matos Gomes, Coronel, escritor
Carlos Moutinho de Macedo, Jurista
Cláudio Torres, Director do Campo Arqueológico de Mértola, prémio Pessoa
Deolinda Machado, Sindicalista
Diana Andringa, Jornalista
Fernando Rosas, Professor universitário
Fernando T. Marques, Actor
Francisco Assis, Eurodeputado do PS
Francisco Duarte Mangas, Escritor
Francisco Fanhais, Cantor
Frederico Gama de Carvalho, Investigador científico, VP da Fed. Mundial Trabalhadores Científicos
Frei Bento Domingues, Teólogo dominicano
Hélder Costa, Encenador
Helena Pato, Professora
Helena Rato, Economista
Ilda Figueiredo, Economista
Isabel Allegro de Magalhães, Professora universitária
Ivan Gonçalves, Deputado do PS
Jamila Madeira, Deputada do PS
Joana Mortágua, Deputada do BE
Joana Vilaverde, Artista plástica
João Corregedor da Fonseca, Jornalista
João Duarte Freitas, Médico
João Ferreira, Eurodeputado do PCP
Joaquim Correia, Advogado
Jorge Bateira, Professor universitário
Jorge Cadima, Professor universitário
Jorge Figueiredo, Editor resistir.info
Jorge Pé-Curto, Escultor
José António Gomes, Escritor, professor do ensino superior
José Baptista Alves, Coronel engenheiro
José Barata-Moura, Professor universitário
José Costa Neves, General
José Duarte, Jornalista, divulgador musical
José Ernesto Cartaxo, Sindicalista
José Fanha, Escritor, poeta
José Goulão, Jornalista
José Luís Ferreira, Deputado do PEV
José Manuel Pureza, Professor universitário, deputado do BE
José Manuel Rodrigues, Artista plástico, prémio Pessoa
José Neves, Fundador do Partido Socialista
Júlio de Magalhães, Economista
Levy Baptista, Advogado
Lumena Raposo, Jornalista
Mamadu Ba, Advogado
Manuel Alegre, Escritor e poeta
Manuel Begonha, Capitão de Abril
Manuel Duran Clemente, Capitão de Abril
Manuel Figueiredo, Economista
Manuel Freire, Cantor, compositor
Manuel Martins Guerreiro, Almirante
Manuel Valadares, Jurista
Manuela Tavares, Professora, dirigente da UMAR
Maria do Céu Guerra, Actriz, directora d’ A Barraca
Marília Villaverde Cabral, Coordenadora da URAP
Mário Beja Santos, Escritor
Mário Pádua, Médico
Marisa Matias, Eurodeputada do BE
Micaela Miranda, Encenadora em Jenin, Palestina
Miguel Viegas, Eurodeputado do PCP
Modesto Navarro, Escritor
Paulo Carvalho, Cantor
Pedro Bacelar de Vasconcelos, Deputado do PS
Pedro Borges, Jurista
Pedro Penilo, Artista plástico
Pedro Pereira Leite, Professor universitário
Pedro Pezarat Correia, General
Pedro Santarém, Engenheiro mecânico
Pilar del Río, Presidenta da Fundação José Saramago
Regina Marques, Dirigente do MDM
Rego Mendes, Coordenador nacional do Movimento Erradicar a Pobreza
Ribeiro Cardoso, Jornalista
Rui Coelho e Campos, Jurista
Rui Namorado Rosa, Investigador, professor universitário
Santiago Macias, Professor universitário
Sérgio Machado Letria, Programador cultural
Valter Hugo Mãe, Escritor
Vânia Dias da Silva, Deputada do CDS
Vasco Lourenço, Coronel
Victor Cavaco, Engenheiro do ambiente
Zeferino Coelho, Editor

Entrevista realizada por Helena Bento.

Artigo publicado no “Expresso Diário”, a 2 de novembro de 2017, e republicado no “Expresso Online”, no dia seguinte. Pode ser consultado aqui e aqui

Dormir, comer e patinar

A patinagem artística portuguesa está de boa saúde e Ricardo Pinto é um dos seus maiores expoentes. Regressado do Mundial com uma medalha de ouro ao pescoço, o atleta de Leça do Balio desvenda a intensidade do seu treino. E partilha a sua paixão por uma modalidade que é muito mais do que um (simples) desporto

Ricardo Pinto, campeão do mundo 2017 em patinagem artística, na vertente de Solo Dance LUCÍLIA MONTEIRO

Há dez anos apenas, Ricardo Pinto era um jovem praticante de patinagem artística entusiasmado com a sua primeira chamada a um estágio da modalidade. Tinha 14 anos e já levava nove de aulas sobre patins — sem grandes objetivos ou ambições. Há pouco mais de um mês, este patinador de 24 anos saboreou, pela segunda vez, a conquista de um título mundial em séniores.

“Foi tudo muito rápido”, admite. “Quando comecei na patinagem, não sonhava que ia ganhar títulos mundiais. Fui praticando e os resultados foram aparecendo. A partir do meu primeiro estágio, ganhei um pouco mais de consciência acerca do que poderia acontecer. Pensei: ‘Quero ir a um Distrital’. Ganhei o meu primeiro Distrital e disse: ‘Fogo, quero ganhar o Nacional’. Ganhei o Nacional e… ‘Quero ir lá fora’. Concretizava um objetivo e logo surgia outro.”

Aos poucos, atinge um nível de excelência com que muitos sonham e poucos conseguem alcançar. Ironia das ironias, a patinagem entrara na sua vida — tinha ele cinco anos — um pouco por arrasto… “A minha irmã mais velha tinha um problema nos joelhos e o médico aconselhou-a a praticar patinagem para fazer correção. A minha mãe tinha vontade que eu praticasse um desporto e, por uma questão prática, colocou-me na patinagem também.”

Tudo se passa em Leça do Balio, no concelho de Matosinhos, onde Ricardo ainda vive e treina, na associação desportiva Rolar Matosinhos, uma espécie de segunda casa. É lá que o Expresso o encontra, num período de pausa dos seus treinos, três semanas após ter conquistado o título de campeão em Solo Dance, nos Mundiais de Nanjing (China), a 6 de setembro passado.

No início, cai-se muito

As férias de Ricardo são só aparentes, já que o atleta reserva alguns fins de tarde por semana para treinar os mais jovens. Na pista do pavilhão, acompanha-os com o olhar, persegue-os de patins, corrige movimentos, acode a quem cai desamparado na pista. “No início, cai-se muitas vezes”, diz. Talvez por isso, a patinagem não o tenha conquistado de imediato. Mas a mãe foi insistindo e ele foi ficando.

A primeira internacionalização — dedicava-se ele ainda à vertente de Pares de Dança (mais tarde optaria pela de Solo Dance) — surge em 2009. No ano seguinte, participa pela primeira vez num Campeonato do Mundo. E em 2011, conquista as primeiras medalhas de ouro: uma na Taça da Europa (que hoje corresponde ao Campeonato da Europa), outra no Campeonato do Mundo de júniores. O primeiro ouro num Mundial de séniores não tarda: conquista-o em 2015, em Cali (Colômbia).

Este ano, à partida para Nanjing, confessa, levava na mala o objetivo do primeiro lugar. “O título de 2015 foi um pouco inesperado. Mas, este ano, foi um objetivo definido entre mim e o meu treinador. Eu disse-lhe que queria lutar pelo primeiro lugar e ele disse-me que esse era um objetivo que ele tinha para mim. E conseguimos concretiza-lo.”

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VÍDEO FIRS (FÉDÉRATION INTERNATIONALE ROLLER SPORTS)

Após ser campeão do mundo, pela primeira vez, o atleta diz que repetir o feito não foi, por isso, mais fácil. “Muito pelo contrário! A cada ano que passa, a patinagem fica mais exigente, como é normal. E depois de se ganhar uma vez, as pessoas ficam à espera de mais. Sente-se uma pressão muito grande. E quando não se corresponde, não é fácil de digerir… Por incrível que pareça, manter é mais difícil do que chegar lá.”

Dada as características da patinagem artística que, para além da competição desportiva, tem inerente uma componente de espetáculo, — “a mistura do desporto com a arte”, como se lê no sítio da Federação Portuguesa de Patinagem —, os treinos são complexos. “Há uma parte física em que fazemos trabalho de cardio, no ginásio. Mais ou menos hora e meia todos os dias. Depois, há o trabalho técnico, com os patins”, com os treinadores que, para além das correções técnicas, escolhem as músicas e vão montando as coreografias. “Este ano, só de patins, trabalhamos cerca de três horas por dia: uma para a dança obrigatória, outra para a ‘style dance’ e outra para a dança livre”, os três estilos obrigatórios no programa individual.

Tudo somado, o título mundial “custou” a Ricardo Pinto mais de quatro horas por dia de dedicação à patinagem. “Fora o tempo que ficamos a praticar sozinhos”, acrescenta. “Se não me sentir cansado, prolongo um pouco o treino para interiorizar melhor o que estive a fazer com o meu treinador e mecanizar as correções.”

Em casa, também se treina. Descansa-se, física e psicologicamente, uma componente fundamental do treino, visiona-se vídeos, a pensar nas coreografias, e experimenta-se movimentos de sapatilhas calçadas, para depois ver como sai em patins. “Tentamos sempre inovar, de umas coreografias para as outras, e também transpor alguma coisa que já seja segura. Normalmente, há um elemento que consideramos a nossa imagem de marca e que tentamos sempre reproduzir.” A de Ricardo é um pião vertical no calcanhar. “O primeiro patinador a apresentar esse pião foi o meu treinador, depois passou-o a mim.”

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VÍDEO FIRS (FÉDÉRATION INTERNATIONALE ROLLER SPORTS)

Os triunfos na patinagem não dão azo a compensações financeiras, mas a recompensas emocionais que ficam para a vida. “Estar no pódio e ouvir o hino do nosso país a ser tocado por nossa causa faz-nos ver que todo o trabalho que desenvolvemos — todo o sofrimento, dores e chatices — valeu a pena.”

A omissão de Marcelo

Do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, que não costuma falhar nestas ocasiões, Ricardo não recebeu qualquer felicitação. Não valoriza a omissão. Congratula-se com a presença de alguns órgãos de informação à chegada dos patinadores nortenhos ao Aeroporto Francisco Sá Carneiro, no Porto. “Há uns anos, não havia nada daquilo, quase nem havia pessoas a esperar-nos. Não temos a projeção de outros desportos e temos resultados muito melhores. Se os grandes clubes de futebol tivessem secções de patinagem, se calhar teríamos uma projeção diferente, mas penso que não é uma condição necessária para que a modalidade continue a crescer.”

Ricardo não consegue falar do seu percurso sem constantemente mencionar e dividir os louros com os treinadores que o têm acompanhado: no início Pedro Craveiro, atualmente Hugo Chapouto, de 32 anos, também ele bicampeão (europeu e mundial) em Solo Dance, em 2009 e 2010.

Ao treinador cabe o enorme desafio de continuar motivar o atleta, dois títulos mundiais depois. “Eu arranjo muita motivação nas coreografias que faço”, diz Ricardo. “Como são diferentes todos os anos e, ainda por cima, este ano, mudou o sistema de ajuizamento, arranjo muito incentivo nas coisas novas. Motiva-me aprendê-las e, depois, surpreender quem as vê.”

“O Ricardo é o exemplo de como se deve encarar o desporto e que não é necessariamente a busca da medalha ou de um reconhecimento”, explica o treinador. “É a entrega e a conquista — no dia a dia, passo a passo — de pequeninas vitórias sobre si mesmo. Ele é a prova de que quando nós nos focamos naquilo que são as nossas conquistas, e trabalhamos as nossas debilidades, atingimos o nosso potencial máximo. Os campeões são aqueles que conseguem demonstrar o seu potencial máximo e não, necessariamente, aqueles que estão melhor.”

Hugo Chapouto, o treinador de Ricardo Pinto, foi o primeiro campeão do mundo da história da patinagem portuguesa LUCÍLIA MONTEIRO

“O truque do nosso trabalho”, continua Chapouto, “é o espírito de partilha por parte de um atleta que consegue dividir a pista com milhentos atletas sem problema, que recebe de braços abertos jovens que chegam à categoria máxima, e que passam a competir com ele, sempre numa perspetiva solidária. E que consegue perceber que todos os dias tem de se superar, tem de sacrificar alguma coisa, e que está nesse crescimento constante.”

O elixir do Rolar

Hugo é treinador no Rolar Matosinhos desde 2010. Nos Mundiais de Nanjing, marcaram presença sete atletas desta associação, todos em Solo Dance. O pior resultado que obtiveram foi… o quarto lugar. No total, a participação portuguesa saldou-se por três ouros, três pratas e dois bronzes.

“No Rolar, não há nenhum elixir que brota das águas e que faz com que estes atletas sejam todos talentosíssimos e campeoníssimos”, comenta o treinador. “A metodologia de trabalho baseia-se na partilha, no espírito de sacrifício e no trabalho que depois é recheado com o talento de cada um.” Chapouto diz que na fórmula “99% de trabalho e 1% de talento” prioriza o trabalho. “Só quando ambas as potencialidades estão no máximo é que aquele 1% de talento vai fazer a diferença.”

No ranking das nações que melhor patinam, a Itália é a superpotência. Na China, Ricardo Pinto bateu o pé à armada italiana: Daniel Morandin foi segundo e Alessandro Spigai quarto. Fechou o pódio, com a medalha de bronze, o português Pedro Walgode, também ele atleta do Rolar.

“Treinamos ao mesmo tempo”, diz Ricardo. “É uma competição saudável. Com ele desenvolvi um laço de amizade. Muitas vezes as coisas estão a correr mal e é ele que me dá força para continuar a treinar. Não é bem uma competição direta. Sofro muito quando ele está a competir. Muita gente não compreende como é que eu não torço para que ele falhe… Eu, para ganhar, não gosto que os outros falhem ou que as coisas não lhes corram bem. Gosto de ganhar com mérito e não pensar que só ganhei porque a outra pessoa falhou.”

Depois do ouro nos Mundiais de Cali (2015) e de Nanjing (China), Ricardo Pinto está já de olho no próximo campeonato, marcado para Nantes (2018) LUCÍLIA MONTEIRO

Ricardo Pinto divide tempo e energia entre a patinagem e os estudos na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto. “Tento ser bom aluno, mas reconheço que não sou tão bom como poderia ser. Dedico muito tempo à patinagem e, quando me sinto cansado, os estudos ficam um pouco de parte.”

Enquanto estudante universitário, beneficia do estatuto de atleta de alto rendimento. “Tenho a possibilidade de escolher as minhas aulas práticas, o que me possibilita montar o meu próprio horário, de acordo com os treinos da patinagem. E tenho a facilidade de, quando falto às aulas por causa das competições, as justificações da Federação serem aceites” pelos serviços académicos.

Sente falta, porém, de um acompanhamento diferente por parte dos docentes. “Falta um pouco de compreensão e de proximidade. Se eu me dirigir a um professor, sou tratado como um aluno regular. Compreendo que não pode haver uma valorização entre alunos, mas pelo menos alguma tolerância em relação a prazos, por exemplo. É útil termos as faltas justificadas, mas quando falhamos aulas, a lacuna em termos da matéria que se perdeu fica sempre lá.”

Ricardo estuda Biologia. Os animais são uma paixão que o acompanha desde criança, dos micróbios às girafas. “A minha profissão de sonho é trabalhar num zoo, como se vê na televisão, a cuidar dos tigres.” Quando se imagina na idade adulta, a Biologia é a área que quer exercer. “Gostava de fazer investigação”, diz. “Passamos pelo menos um quarto da nossa vida a estudar. Espero conseguir retirar alguma coisa da minha vida académica.”

Quanto à patinagem, nunca a vai querer largar — como atleta de um grupo, como treinador, como juíz, as opções são múltiplas.

Ricardo Pinto concilia a prática da patinagem com os estudos de Biologia, na Faculdade de Ciências do Porto LUCÍLIA MONTEIRO

Exclusivamente dedicado à patinagem, o treinador Hugo Chapouto viaja pelos quatro cantos do mundo, como membro de instituições internacionais e consultor de várias federações. Diz que, em Portugal, “a patinagem está de muito boa saúde”. Nos últimos dez anos, o número de praticantes aumentou bastante, em 2015 a patinagem foi reconhecida como modalidade no Desporto Escolar e, cada vez mais, a prática desportiva no país é encarada com maior seriedade.

Por avaliar está a influência da telenovela argentina “Soy Luna” (Disney Channel) na popularidade da patinagem entre os adolescentes portugueses… Na série, a jovem Luna Valente adora cantar e sonha em ser patinadora profissional. Ricardo garante que foi importante para levar alguns jovens a experimentar os patins.

“Quando comecei a praticar, aos sete anos de idade, os nossos sonhos eram muito limitados à partida”, diz Hugo Chapouto. “Não se sonhava em conquistar uma medalha num campeonato internacional. Hoje, qualquer atleta que nos aparece já ouviu falar num campeão do mundo ou da Europa. E são tantos aqui no Rolar.”

Apesar da falta de reconhecimento público dentro de portas, Portugal tem-se afirmado como uma potência internacional da patinagem artística. “A Itália não compete com ninguém, está claramente na liderança. Depois há três países mais ou menos em igualdade de circunstâncias: Portugal, Espanha e a Argentina”, diz Chapouto.

“Portugal não tem um problema em relação à patinagem, mas antes um problema de cultura desportiva. Ainda valorizamos unicamente o resultado e não o percurso. Infelizmente, os nossos jovens têm uma aproximação ao desporto que é: ‘Eu quero ser como a estrela que vejo na televisão’. E deveria ser: ‘Eu gostava de executar aquilo, gostava de jogar como aquelas pessoas’. Esse é o nosso défice.” De resto, tudo sobre rodas.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 15 de outubro de 2017. Pode ser consultado aqui