Comentário áudio sobre a eventual saída de Mubarak do poder. Reportagem no Egito, com fotos de Jorge Simão
Artigo publicado no “Expresso Online”, a 10 de fevereiro de 2011. Pode ser consultado aqui
Comentário áudio sobre a eventual saída de Mubarak do poder. Reportagem no Egito, com fotos de Jorge Simão
Artigo publicado no “Expresso Online”, a 10 de fevereiro de 2011. Pode ser consultado aqui
Os protestos anti-Mubarak transbordaram a praça Tahrir e chegaram ao Parlamento. O vice-Presidente Omar Suleiman advertiu para o perigo de um golpe de Estado. Reportagem no Egito, com fotos de Jorge Simão

Ao 16º dia de protestos, os manifestantes que exigem a demissão de Hosni Mubarak rumaram até ao edifício do Parlamento, não muito longe da praça, gritando “fora Mubarak”. Pretendiam exigir a dissolução da Assembleia e mostrarem-se solidários com os manifestantes que, ontem à noite, acamparam em frente ao Parlamento.
A praça continua cheia, mas o epicentro da contestação transferiu-se, assim, para junto de uma das sedes do poder. O edifício do Parlamento está protegido por um dispositivo do exército, que não interveio. Da mesma forma, o exército não impediu que os manifestantes saíssem da praça em direção ao Parlamento.

Pela primeira vez, os manifestantes reclamaram o julgamento de Mubarak, responsabilizando-o pela repressão exercida pelo seu regime nos últimos há 30 anos.
Tudo isto acontece um dia após a praça Tahrir ter acolhido a maior manifestação contra o regime. Acontece também após o vice-Presidente Omar Suleiman ter afirmado que o Egito não está preparado para a democracia e ter advertido para o perigo de um golpe de Estado se o diálogo com a oposição falhar. “Não queremos lidar com a sociedade egípcia com meios policiais”, disse.
Artigo publicado no “Expresso Online”, a 9 de fevereiro de 2011. Pode ser consultado aqui
A praça Tahrir registou hoje a sua maior manifestação desde o início dos protestos contra Mubarak. De um espaço de contestação, a praça transformou-se num local de celebração. Reportagem no Egito, com fotos de Jorge Simão

A praça Tahrir encheu hoje para aquela que foi a maior manifestação anti-Mubarak desde o início dos protestos, a 25 de janeiro. Desde a manhã, longas filas de pessoas estendiam-se pelas ruas circundantes à praça e pela Qasr al-Nil, a ponte sobre o rio Nilo mais próxima da praça. Projetava-se uma jornada de luta memorável.
A entrada na praça foi mais demorada do que o habitual e, pela primeira vez, os jornalistas — a quem habitualmente os manifestantes concediam prioridade no acesso à praça — tiveram dificuldade em entrar, bloqueados na massa humana que avançava compacta.
Ultrapassados os controlos de segurança — do exército e dos manifestantes —, um ambiente de grande festa aguardava quem chegava, como que se a praça (um local de contestação) se tivesse transformado num espaço de celebração. A circulação fazia-se com dificuldade, mas os manifestantes não perdiam o sorriso. A praça transpirava confiança.
Comparativamente aos dias anteriores, era flagrante a presença de muitas mais mulheres. Os voluntários cantavam enquanto ofereciam comidas e bebidas. A meio da tarde, um cortejo de cerca de 30 homens entrava na praça carregando à cabeça pacotes de cobertores embalados em plástico, destinados a dar conforto a quem optasse por passar lá a noite.
A rotunda central — anteriormente, um espaço verde — estava transformada num campo de campismo, com coberturas de plástico a darem algum conforto a quem por lá dormitava.

Os manifestantes deixavam-se ficar junto a pequenos palcos improvisados onde, ora se repetiam slogans anti-Mubarak, ora surgiam pequenos momentos musicais. Um jovem carregava nos braços uma resma de folhas A3.
As pessoas aproximavam-se e outro jovem ia escrevendo nas folhas as palavras de ordem que as pessoas pediam. Uma longa bandeira do Egito, carregada por dezenas de pessoas percorria a praça.
Abdallah, de 31 anos, explica que as terças, as sextas e os domingos serão os dias do “protesto do milhão”, para que Mubarak não esqueça que a principal exigência da multidão continua por cumprir — a sua retirada do poder.
Apesar do Presidente ter dito que não se recandidataria, os manifestantes não confiam nas suas promessas. “Na semana passada, Mubarak discursou na televisão e, a dada altura, afirmou que queria morrer e ser enterrado no Egito. As pessoas ficaram muito emocionadas, eu inclusive. Mas depois, no dia seguinte, ele manda homens montados em cavalos e em camelos , pela praça dentro, para bater nas pessoas. Como é que ele quer que as pessoas acreditem nele?”
Abdallah é médico. Tem uma clínica no Cairo. Na semana passada, não trabalhou e, esta semana, trabalha dia sim, dia não. “Nos dias em que não trabalho, venho para a praça. Temos uma missão a cumprir.”
Ultrapassados os dias mais complicados, a praça parece ter recuperado energia. Os manifestantes sabem que a demissão de Mubarak pode ser demorada. Até lá, não arredam pé.
Com o cair da noite, a praça ficava tomada pelo “efeito pirilampo” provocado pelos telemóveis levantados, sempre a filmar e a fotografar. Às cavalitas dos pais, muitas crianças gritam palavras de ordem que a multidão em redor, divertida pelo desembaraço dos miúdos, repete.
“As crianças são a nossa segurança”, comenta Hisham, um jornalista que, por estes dias, tem-se recusado a trabalhar em protesto contra a linha editorial da sua rádio, que não cobre as manifestações na praça. “É muito bom vê-las por aqui. Significa que estão a captar a mensagem.”
Artigo publicado no “Expresso Online”, a 8 de fevereiro de 2011. Pode ser consultado aqui
Governo e oposição começaram a dialogar no Egito. Mas na praça Tahrir, milhares continuam sem arredar pé. Ao fim do dia, o exército disparou… Reportagem no Egito, com fotos de Jorge Simão

O dia fora festivo na praça Tahrir até que, cerca das oito da noite, soaram rajadas de fogo, disparadas pelos militares.
Na chamada ‘linha da frente’ — a área junto ao Museu Egípcio que, esta semana, foi palco dos violentos confrontos entre manifestantes anti-Mubarak e apoiantes do Presidente Mubarak —, um tanque do exército queria movimentar-se. Os manifestantes não libertaram o espaço necessário e os militares — que continuam posicionados à entrada da praça — dispararam para mostrar quem era a autoridade ali.
Este episódio acontece num dia em que Governo e oposição começaram a dialogar com vista ao fim do impasse político em que se encontra o país. O Governo egípcio e a oposição concordaram na criação de um comité de trabalho para estudar as possíveis reformas à Constituição, designadamente o fim do estado de emergência (em vigor desde 1981), a limitação dos mandatos presidenciais a dois períodos e mudanças nos requisitos para um candidato se apresentar às eleições.

Paralelamente à reforma constitucional, a oposição exige a saída de Mubarak do poder, um Governo de transição e eleições livres. A reunião foi liderada pelo vice-Presidente Omar Suleiman e, entre os grupos da oposição representados, esteve a Irmandade Muçulmana (ilegalizada).
O arranque das conversações coincide com o início do regresso do país à normalidade. Hoje, os bancos abriram, as caixas de multibanco começaram a disponibilizar dinheiro e os negócios começaram a abrir as portas. Nas ruas do Cairo, voltaram os engarrafamentos, as buzinadelas e o caos na circulação.
Milhares de pessoas continuam a ocupar a praça Tahrir e a pedir a partida de Hosni Mubarak. Hoje, o dia foi festivo. Os manifestantes gostaram de saber que Gamal Mubarak não poderá candidatar-se para suceder ao pai. “Estamos muito próximos da libertação”, diz Tariq, de 50 anos. “Mubarak está quase a ir embora.” Houve muita música e pequenas bancas a vender tudo e mais alguma coisa, de porta-chaves a tremoços.
Artigo publicado no “Expresso Online”, a 6 de fevereiro de 2011. Pode ser consultado aqui
Joana é uma “bellydancer” portuguesa que vive no Cairo há quatro anos. Com a agenda preenchida, espera que a turbulência passe para voltar a brilhar nos palcos egípcios. Reportagem no Egito, com fotos de Jorge Simão

Joana é uma apaixonada por aquilo que faz. Mas com o Cairo transformado num campo de batalha, esta “bellydancer” lisboeta de 30 anos – a viver na capital egípcia há quatro anos – viu-se confinada ao seu apartamento na ilha Zamalek, sem poder cumprir a sua agenda artística. “Tenho espetáculos marcados praticamente todas as noites. Mas está tudo fechado. É muito frustrante.”
Joana decidiu-se a ir para o Cairo movida por dois objetivos: escrever um livro sobre dança oriental, com base na sua própria vivência em solo egípcio, e procurar melhores condições para desenvolver a sua arte.
“O trabalho que estou a fazer aqui, jamais, em 1000 anos, poderia desenvolver em qualquer outro país do mundo. Tenho uma equipa de músicos dos melhores do Egito a trabalharem para mim. Com muito esforço e luta, tenho construído o meu nome” – Joana Saahirah, assim batizada pelo seu primeiro professor.
Desde que começou a trabalhar no Cairo – como bailarina, coreógrafa e professora de dança e folclore egípcios -, recebeu convites para trabalhar no mundo inteiro. “O Egito foi o palco que me projetou para o mundo. Em Buenos Aires, dei ‘workshops’ para mais de 1000 alunos.”

Diz que os egípcios são tolerantes face a outras religiões, mas, “por exemplo, muitas vezes, vou a uma loja levantar material que encomendei para os meus espetáculos e a pessoa que está encarregue disso está a rezar”. A religião primeiro, o trabalho depois.
Quando chegou ao Cairo, vigorava uma lei que proibia as bailarinas estrangeiras de fazerem, profissionalmente, dança oriental e folclore egípcio. Felizmente para ela, a lei foi revogada. “Tive de assinar documentação em que me comprometia a não usar roupas que fossem contra a religião muçulmana. Como é que é possível?”
A polícia tem um departamento especial que fiscaliza o que as bailarinas vestem — Joana chama-lhe “a Polícia das Bailarinas”. “Nunca aconteceu comigo, mas sei de muitas bailarinas que foram levadas. Não é nada agradável. São tratadas como prostitutas. E depois são levadas para a esquadra exatamente como estão, com roupa de dança.”
Por força da sua vivência no Egito e das suas deslocações pelo Médio Oriente, Joana tem uma percepção das motivações que leva os povos — como o egípcio — a questionarem os respetivos regimes: “Existe uma abertura àquilo que eles consideram que é a qualidade de vida do ocidente. Nós sabemos que nem sempre essa imagem corresponde à realidade, mas eles não”, diz.
“Assim como nós sentimos um fascínio e um interesse pelo Médio Oriente, neste região — sobretudo após o advento da Internet, que veio abrir janelas —, começou a haver uma vontade de usufruir da qualidade de vida que eles projetam no ocidente. Há um desejo de liberdade de expressão e de esperança no futuro que é básico no ser humano.”
Joana Saahirah é já um nome reconhecido no Egito. A Portugal, já só vai de vez em quando, para ver a família. “Aqui, tenho os holofotes virados para mim. Quando saio do Egito é para atuar para milhares de pessoas, com condições que não existem em Portugal. Seria fantástico que, através do meu trabalho, eu pudesse criar uma ponte entre o Egito e Portugal.”
Com o Egito num impasse, os planos de Joana estão, por agora, hipotecados. À espera de dias melhores, a “bellydancer” viajou até Portugal. Em Lisboa, não consegue desligar de tudo o que se passa no Cairo: “Sofre-se mais à distância…”
Artigo publicado no “Expresso Online”, a 6 de fevereiro de 2011. Pode ser consultado aqui