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Corrupio diplomático para evitar a guerra

Há 140 mil militares russos estacionados junto à fronteira com a Ucrânia, mas a guerra não é inevitável. As conversações em curso procuram pontos de encontro que reduzam a tensão

Uma conferência de imprensa de dois dirigentes mundiais à meia-noite não é, por si só, algo digno de ficar na História. Mas pode indiciar a importância do assunto que a motivou. Foi o que aconteceu esta semana, em Moscovo, no término de uma conversa sem hora limite entre os presidentes da Rússia e da França. Na agenda de Vladimir Putin e Emmanuel Macron, um único assunto: a escalada da tensão junto à fronteira da Ucrânia, onde a Rússia tem estacionados 140 mil militares fortemente armados que, nas palavras do chefe da diplomacia da União Europeia, Josep Borrell, não estão ali “para tomar chá”.

“A diplomacia ainda pode fazer a diferença. As conversações em curso procuram pontos de encontro que facilitem os canais de diálogo e medidas concretas que possam diminuir a tensão”, afirma ao Expresso Maria Raquel Freire, professora de Relações Internacionais da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. “O sublinhar de medidas relativas a controlo de armamento, negociações de novos tratados nucleares e medidas de consolidação de confiança e transparência em matéria militar parece ganhar consistência no meio das posições irreconciliáveis da Rússia e do Ocidente no que toca ao alargamento da NATO.”

De Moscovo, Macron seguiu para Kiev, onde se reuniu com o homólogo ucraniano. Na próxima semana será o novo chanceler alemão a visitar estas duas capitais. Por estes dias, a tensão em torno da Ucrânia mobiliza a diplomacia de quatro países, e outros tantos líderes, em particular.

FRANÇA — Macron no papel de ‘sr. Europa’

Emmanuel Macron é o líder que mais se tem empenhado, de forma visível, em tentar inverter a escalada da situação entre a Rússia e a Ucrânia, com telefonemas tornados públicos e visitas aos principais protagonistas. “Podemos evitar algumas coisas a curto prazo. Mas não penso que venhamos a ter vitórias a curto prazo. Não acredito em milagres espontâneos. Há muita tensão e nervosismo”, disse o chefe de Estado francês, à partida para Moscovo.

Presidente do país que detém a presidência rotativa do Conselho da União Europeia, Macron divide as suas atenções entre o perigo de novo conflito na Europa e o próximo dia 10 de abril, primeira volta das eleições presidenciais em França, apesar de ainda não ter anunciado a recandidatura. “Naturalmente os líderes aproveitam o momento político para ganhar votos, através do protagonismo que estas ações diplomáticas acarretam”, diz Raquel Freire. “Mas há uma genuína preocupação com a questão da segurança europeia, e da segurança ucraniana.”

ALEMANHA — Scholz embaraçado pelo ‘elefante na sala’

Há apenas dois meses à frente do Executivo alemão, Olaf Scholz realizou, esta semana, a sua primeira visita aos Estados Unidos. Na Casa Branca, Scholz e Joe Biden afirmaram a amizade e união entre os dois países, mas não conseguiram disfarçar o ‘elefante na sala’ que perturba a relação no atual contexto. Biden foi inequívoco ao dizer que, se a Rússia voltar a invadir a Ucrânia, “não haverá mais Nord Stream 2, vamos acabar com isso”. Este gasoduto de 1225 km garante o fornecimento direto de gás natural da Rússia à Alemanha, contornando países politicamente instáveis, como a Ucrânia. Questionado sobre a possibilidade de o Nord Stream 2 ser usado como sanção à Rússia, Scholz deu a resposta possível: “Faz parte do processo não falarmos de tudo em público”.

RÚSSIA — Putin negoceia em posição de força

A cimeira entre Putin e Macron não produziu resultados imediatos, mas, a atentar nas palavras do russo, há espaço para prosseguir com o diálogo. “É bem possível que várias das ideias e propostas [de Macron], sobre as quais provavelmente ainda é muito cedo para falar, possam ser a base de próximos passos conjuntos”, disse.

Raquel Freire admite que esta crise possa ter um desfecho sem confronto bélico. “Ainda acredito que sim, ponderando os ganhos e custos para a Rússia de uma possível invasão. A Rússia assumiu desde o início da escalada de tensão que só a partir de uma posição de força poderia negociar. E é o que tem feito. Conseguiu retomar as conversações ao mais alto nível, suspensas desde 2014, reunindo com Joe Biden, o secretário-geral da NATO e vários líderes europeus.”

Ao enumerar pretensões, Putin indica com clareza até onde está disposto a ir para garanti-las: “Se a Ucrânia aderir à NATO e recuperar a Crimeia pela via militar, os países europeus serão automaticamente arrastados para um conflito com a Rússia”, afirmou, com Macron ao lado.

UCRÂNIA — Zelensky quer ações e não palavras

Na presença de Macron, com quem se reuniu na terça-feira em Kiev, o Presidente ucraniano comentou a abertura de Putin para reduzir a tensão. “Não confio em palavras”, disse Volodymyr Zelensky. “Acredito que todo o político pode ser transparente tomando medidas concretas.”

Mas nesta crise, também Moscovo espera ação de Kiev, desde logo a aplicação dos Acordos de Minsk (2014). Mediados por França e Alemanha, visam um cessar-fogo permanente em Donbass, no leste da Ucrânia, onde forças ucranianas e separatistas pró-Rússia travam uma guerra há oito anos que já fez 14 mil mortos.

Artigo publicado no “Expresso”, a 11 de fevereiro de 2022

Presentes, mas distantes: assim estiveram Putin e Macron enquanto conversaram sobre a Ucrânia

O Presidente francês chamou a si os esforços para tentar inverter a escalada da tensão entre a Rússia e a Ucrânia e, esta segunda-feira, reuniu-se com o homólogo russo, Vladimir Putin, em Moscovo. Esta terça-feira, viajará para Kiev, para tomar o pulso à sensibilidade ucraniana, sem “acreditar em milagres espontâneos”

Se o protocolo russo não descurou nenhum pormenor nos preparativos para o encontro entre Vladimir Putin e Emmanuel Macron, esta segunda-feira, no Kremlin, então a longa mesa a que se sentaram os chefes de Estado russo e francês tem implícita uma grande distância entre ambos.

O Presidente da França — país que detém a presidência rotativa do Conselho da União Europeia — tem assumido os principais esforços diplomáticos visando uma inversão na escalada da tensão que se faz sentir junto à fronteira entre a Rússia e a Ucrânia. Esta segunda-feira, Macron reuniu-se com Putin em Moscovo, na que foi a primeira deslocação à Rússia de um líder ocidental desde a forte mobilização de tropas russas na direção da Ucrânia.

Querido Emmanuel…

Num relato reproduzido no jornal russo “The Moscow Times”, sentados à mesa, o Presidente francês disse que ali estava para abordar a “situação crítica” na Europa. “Esta discussão pode começar na direção em que precisamos ir, que é uma desescalada”, disse Macron, solicitando “uma resposta que seja útil tanto para a Rússia como para toda a restante Europa”.

Putin dirigiu-se ao homólogo como “querido Emmanuel” e afirmou que os dois países “partilham preocupações sobre segurança na Europa”. Saudou também “o esforço que a atual liderança francesa está a fazer” por resolver as preocupações.

Baixas expectativas

Antes de partir para Moscovo, Macron desdobrou-se em declarações em relação ao que ia, descartando qualquer solução “a curto prazo”. “Devemos tentar eliminar todas as incertezas de ambos os lados e reduzir o campo de ambiguidades, para ver onde estão os pontos de desacordo e os possíveis pontos de convergência”, defendeu. No imediato, “temos que construir os termos de uma equação que possibilite a desescalada a nível militar”. Já em Moscovo, declarou: “Estou razoavelmente otimista, mas não acredito em milagres espontâneos”.

Também o Kremlin, antes do encontro, baixara as expectativas, dizendo que a cimeira Putin-Macron era “muito importante”, mas que não seria de esperar avanços significativos. “A situação é demasiado complexa para que haja avanços decisivos num único encontro”, frisou o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov.

Paris-Moscovo-Kiev

De Moscovo, Macron parte para o outro lado do conflito, a Ucrânia, onde tem encontro marcado esta terça-feira com o homólogo Volodymyr Zelensky. Na próxima semana, será a vez de o chanceler alemão, Olaf Scholz — que esta segunda-feira foi recebido por Joe Biden em Washington — se deslocar a Moscovo e a Kiev para se reunir com Putin e Zelensky.

Em antecipação à cimeira desta segunda-feira, o diário francês “Le Monde” qualificou a missão diplomática de Macron de “arriscada”. Em causa está a probabilidade de regressar de mãos vazias desta tentativa de mostrar liderança, a dois meses das eleições presidenciais francesas. O atual inquilino do Palácio do Eliseu ainda não anunciou a recandidatura.

FOTO: Vladimir Putin (à esq.) e Emmanuel Macron, reunidos no Kremlin, esta segunda-feira SPUTNIK / AFP / GETTY IMAGES

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 7 de fevereiro de 2022. Pode ser consultado aqui

História explica tensões e dá alento a quem as vive na pele

O afiar de sabres alterna com os toques de telefone. Será possível evitar a guerra?

Não entrar em pânico nem fazer o jogo de Moscovo, ao mesmo tempo que se mostra firmeza, parecem ser palavras de ordem na Ucrânia. Por um lado, o Presidente do país assegurava anteontem que “os riscos [de invasão russa] não existem há apenas um dia, e não cresceram”. Volodymyr Zelensky defendeu que o que aumentou foi “o ruído à volta desses riscos”, enquadrando a concentração de militares russos na fronteira ucraniana — estima-se que mais de 100 mil — numa “guerra de nervos”.

“Agora o conflito está muito nas notícias, mas há que recordar que os ucranianos lidam com isto há anos. Não há medo, mas há grande cansaço”, conta ao Expresso Yehven Doloshytskyy, analista financeiro, de 28 anos, que chegou a Portugal com nove. “Todos já vimos a morte, é essa experiência que nos une”, corrobora o seu compatriota Yuriy Bilinskyy, que vive em Portugal há 22 anos. Partilha a fotografia de uma mulher que ostenta uma enorme espingarda na mão com a legenda: “Mãe de três filhos protege-se contra a ameaça da Rússia.” A tensão não o impede de viajar para a Ucrânia por estes dias, para ver um sobrinho que completa um ano de vida, e assegura que a vida segue o seu curso, apesar da tensão. “As pessoas vão ao cinema, ao teatro, ao café, juntam-se em casa de amigos. Já fomos invadidos há oito anos, não é um problema recente.”

Bilinskyy, que tem uma pequena agência de viagens em Lisboa, recorre à História: “Não há império russo sem a Ucrânia. A chave mestra é Kiev, berço da Igreja Ortodoxa, por isso o senhor que manda em Moscovo precisa de nós para o seu plano de reativar a ordem geoestratégica estabelecida em Ialta, a divisão do mundo. Mas Putin tem um problema: é que nós somos independentes.” Doloshytskyy concorda: “Não vamos voltar a Ialta, isso é para esquecer, e Putin sabe-o.”

Telefonema Macron-Putin

Evitar que guerras do passado se repitam no presente tem sido a prioridade da comunidade internacional, em rondas de negociações sucessivas, de que hoje se joga novo capítulo: o Presidente francês, Emmanuel Macron, falará ao telefone com o seu homólogo russo, Vladimir Putin. Este tem exigido um compromisso firme de que a NATO não se expandirá para leste e a retirada de efetivos ocidentais dos países que fazem fronteira com a Rússia. Do lado atlântico ouve-se a defesa da soberania da Ucrânia para decidir a que alianças aderir e reclama-se uma desmobilização das tropas russas.

Que peso terão vozes como a de Macron ou do chanceler alemão, Olaf Scholz, junto do Kremlin? O Expresso falou com Bernardo Teles Fazendeiro, professor de Relações Internacionais na Universidade de Coimbra, que aponta dissonâncias entre aliados europeus. “A Alemanha tem tido posição muito cética e muito cautelosa, já antiga, em relação a hostilizar Moscovo ainda mais.” Isso explica-se por razões de interdependência económica: “Há o projeto Nord Stream, a conduta de gás que, quando finalizada, vai ligar a Rússia diretamente à Alemanha, e é uma forma de os dois países comercializarem evitando o caminho através da Ucrânia e da Bielorrússia, vistas pela Rússia e pela Alemanha como Estados potencialmente instáveis.” Isso dá a Berlim, a seu ver, vontade de “mediar e procurar soluções diplomáticas”. Quais? “Não é evidente.”

Paris depende muito menos de Moscovo do ponto de vista geoestratégico. “Muito do seu gás natural vem do Magrebe”, lembra Fazendeiro, aludindo ainda à energia nuclear, usada por França e abandonada pela Alemanha. Macron pode, pois, ser uma voz “mais vincada e assertiva em relação à Rússia”, o que agradaria aos países da Europa de Leste, mormente aos Bálticos e à Polónia. O que isto demonstra é que “a União Europeia e os Estados da NATO não têm posição concertada e clara, como é típico da UE”.

“NÃO HÁ IMPÉRIO RUSSO SEM A UCRÂNIA. MAS PUTIN TEM UM PROBLEMA: SOMOS INDEPENDENTES”, DIZ UM UCRANIANO A VIVER EM PORTUGAL

Doloshytskyy, o ucraniano ouvido pelo Expresso, sente-se desiludido com a UE, que mesmo em 2014, quando um avião da Malaysia Airlines foi atingido por um míssil russo, “impôs sanções, fez uns comunicados, e mais nada”. Está ciente de que “os europeus não querem mandar os filhos morrer numa guerra lá longe”. Embora reconheça como legítima a expectativa russa de que a NATO não cresça para oriente, diz: “Um ucraniano olha para a República Checa, para a Polónia, para aquela espécie de nova Europa Central, e quer evoluir nesse sentido. Com a Rússia sempre a ameaçar, essa estrada está bloqueada.” “Parte significativa da população ucraniana encara com bons olhos não só a adesão à UE como até à NATO”, acrescenta Fazendeiro.

EUA: prioridade é a China

A Europa está, não pela primeira vez, pendente da posição americana. Esta semana, o Presidente, Joe Biden, ameaçou Putin com sanções pessoais e recusou-se a dar-lhe as garantias que reivindica. Para Fazendeiro, “o principal objetivo geoestratégico e geopolítico de Washington é a preocupação com a China”. As distrações europeias não são bem-vindas, por tanto, mas são incontornáveis. “Os Estados Unidos não querem parecer fracos em relação à Rússia, para não parecer, em relação à China, que podem ser facilmente chantageados a tomar ou mudar de posição”, explica o académico. Acresce o compromisso com a defesa da Ucrânia, “que aumentou significativamente depois de 2014”, ano em que a Rússia anexou a península da Crimeia.

O perito crê que a garantia de a NATO não acolher a Ucrânia poderia não chegar para Putin. Num ensaio redigido no verão passado, o líder russo “fala da Ucrânia e da Rússia como Estados inseparáveis, irmãos históricos, que é uma posição antiga russa”. Referindo o desagrado russo com uma nova lei ucraniana que promove a língua nacional em detrimento do russo (que é língua materna de 30% da população), remata: “Talvez a Rússia queira uma modificação muito mais profunda dentro da Ucrânia e não apenas alterar o posicionamento do país a nível geoestratégico.”

(MAPA WIKIMEDIA COMMONS)

Artigo escrito com Ana França e Pedro Cordeiro.

Artigo publicado no “Expresso”, a 28 de janeiro de 2022

Rédea curta na ‘vizinhança próxima’

A expansão da NATO para leste desafiou as pretensões de segurança da Rússia na sua fronteira. Quem olha para Ocidente, como a Ucrânia, paga caro

Nas relações internacionais, uma dicotomia que muito revela sobre as opções geopolíticas dos Estados é a que distingue países marítimos e continentais. Os primeiros projetam poder e influência através dos mares. Os segundos vivem numa insegurança permanente. Sem mar que os proteja, depositam a sua defesa na conquista de mais território para expandirem as suas fronteiras o mais longe possível. A Rússia é o exemplo perfeito de uma potência continental. E toda a tensão que se vive, atualmente, em redor da Ucrânia é sintoma dessa circunstância.

“A Rússia é uma grande massa continental”, que abarca 11 fusos horários. “É um grande enclave, que precisa de garantir pontos de acesso, nomeadamente aos mares quentes”, navegáveis. “Assim se explica, por exemplo, a aliança com a Síria e o apoio a Bashar al-Assad”, diz ao Expresso a investigadora Sandra Fernandes, do Centro de Investigação em Ciência Política (CICP) da Universidade do Minho. “Apesar de ser, hoje, o maior país do mundo, a Rússia nunca foi tão pequena desde a conquista da Sibéria, no século XVII. Isto tem um impacto mental, ao nível das perceções das ameaças, extremamente relevante.”

Desde o fim da Guerra Fria (1989), e em especial desde a desintegração da União Soviética (URSS), em 1991, que um complexo de cerco se acentuou na forma como a Rússia perceciona a sua “vizinhança próxima” — um termo cunhado, em 1993, pelo então ministro dos Negócios Estrangeiros Andrei Kozyrev. Mais ainda após a expansão da NATO e da União Europeia (UE) para leste, à custa de territórios que faziam parte da URSS ou pertenciam à sua esfera de influência.

MAPA: EXPANSÃO DA NATO NA DIREÇÃO DA RÚSSIA

Durante a Guerra Fria, a rivalidade entre Estados Unidos (EUA) e União Soviética (URSS) originou a formação de duas alianças militares que se tocavam no Muro de Berlim. A NATO, fundada em 1949, era liderada pelos norte-americanos e o Pacto de Varsóvia, criado em 1955 e dissolvido em 1991, pelos soviéticos. Desde a queda do Muro (1989) que países da antiga esfera de influência soviética têm aderido à organização ocidental — para grande nervosismo da Rússia, herdeira do legado da URSS

“Os três países bálticos — Estónia, Letónia e Lituânia — eram repúblicas socialistas soviéticas que se demarcaram por completo da Rússia, viraram-lhe costas e aderiram à NATO e à UE. Os outros países continuaram a manter relações privilegiadas com a Rússia, não forçosamente por vontade, mas por necessidade”, diz a académica. E sempre que algum deles expressa o desejo de seguir o rasto dos Bálticos, a Rússia pressente-o como ameaça e reage.

“A Rússia moderna [pós-1991] vê-se com uma fronteira enorme, que é extremamente sensível para as suas pretensões de segurança. A Rússia sempre considerou a NATO um clube do qual não faz parte e, de certa forma, uma ameaça às suas fronteiras. Já era assim nos anos 90, mas agora a Rússia tem os meios de pressão para dizer que não quer mais um alargamento da NATO junto à sua fronteira”, prossegue Sandra Fernandes.

Ucrânia e Geórgia, os seguintes

Na fila para aderirem à NATO estão, desde 2008, dois países da “vizinhança próxima” da Rússia: Ucrânia e Geórgia. “Em 2008 houve uma grande campanha diplomática dos Estados Unidos. O Presidente George W. Bush queria deixar como legado a abertura da NATO a esses dois países. França e Alemanha foram mais cautelosas, perceberam que se tratava de uma linha vermelha para a Rússia. Então, foi oferecida a esses dois países uma perspetiva de adesão sem data.”

Precisamente em 2008, Moscovo utilizou a força armada em solo europeu pela primeira vez desde o fim da URSS, para pôr na ordem o Governo da Geórgia, liderado pelo recém-eleito Mikhail Saakashvili (pró-Ocidente e pró-NATO). Na sequência de cinco dias de guerra, Moscovo acabaria por reconhecer as regiões georgianas da Abecásia e da Ossétia do Sul como estados independentes. O que se passa em torno da Ucrânia — liderada desde 2019 por Volodymyr Zelensky, antigo comediante pró-ocidental — é um novo capítulo de um conflito iniciado em 2014, que culminou na anexação da península da Crimeia pela Rússia, e que se insere na mesma estratégia de contenção.

Quarta-feira passada, em Kiev, durante uma visita “de solidariedade” à Ucrânia, o secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, acusou a
Rússia de planear aumentar as suas tropas junto às fronteiras da Ucrânia. Na véspera, Moscovo projetou um exercício militar com a Bielorrússia — também contígua à Ucrânia e liderada por Aleksandr Lukashenko, amigo de Putin —, que terá como cenário um hipotético ataque externo. Os receios de nova invasão russa da Ucrânia já levaram a Suécia a reforçar o seu dispositivo militar na ilha de Gotland, no Mar Báltico.

Um ataque cibernético contra sites do Governo ucraniano, sexta-feira passada, foi interpretado como manobra de desestabilização visando a escalada do conflito. Desde o início do ano que missões diplomáticas russas na Ucrânia têm vindo a retirar pessoal, sem que se perceba se é bluff ou preparativo para a guerra. Tudo acontece duas semanas após a Rússia ter enviado tropas para o Cazaquistão — com quem partilha quase 7000 quilómetros de fronteira —, em socorro do Governo acossado por manifestações de rua, que o Presidente cazaque Kasym-Zhomart Tokayev diz serem orquestradas por “forças externas”. “Não permitiremos a ocorrência das chamadas ‘revoluções coloridas’”, garantiu Vladimir Putin, justificando a ajuda militar.

Traumas não muito longínquos

Na mente do chefe de Estado russo estão revoltas populares que resultaram na substituição de governos pró-Moscovo por lideranças pró-ocidentais: a “revolução rosa” (Geórgia, 2003); a “revolução laranja” (Ucrânia, 2004); e a “revolução da tulipa” (Quirguistão, 2005). Ao conter nova “revolução colorida”, a Rússia expõe uma estratégia para a região. “As tropas russas foram enviadas para o Cazaquistão através da Organização do Tratado de Segurança Coletiva [fundada em 1992 pela Rússia, Cazaquistão, Uzbequistão, Arménia, Quirguistão e Tajiquistão]. Em 2015, a Rússia criou a União Económica Euroasiática [com Cazaquistão, Bielorrússia e Arménia]. Tentou arrastar a Ucrânia, mas não conseguiu”, recorda Sandra Fernandes. Mais do que tentar recuperar a ex-URSS, “a Rússia tenta articular projetos alternativos à NATO e à UE”.

Mais de 30 anos após o fim da Guerra Fria, Washington e aliados continuam a ser o grande inimigo. Neste contexto, para Moscovo, falar-se de NATO ou UE é a mesma coisa. “Não era, mas passou a ser. A UE era uma oportunidade sobretudo de cooperação económica”, diz a investigadora do CICP. “Quando continuou com os alargamentos a leste, paralelos aos da NATO, a Rússia passou a vê-la como um ator geopolítico às suas portas que não serve os seus interesses.”

Há cerca de meio ano, a Rússia atualizou a sua Estratégia de Segurança Nacional. A nova doutrina revela “um país que se sente ameaçado e se vira para dentro, à procura de soluções. Um país que não vê os interesses servidos numa relação com o Ocidente e que está a isolar-se muito.”

Artigo publicado no “Expresso”, a 22 de janeiro de 2022. Pode ser consultado aqui

Cortar com a Rússia para amarrar a China

Donald Trump denunciou mais um tratado, este sobre armas nucleares assinado com a União Soviética. O Presidente dos EUA está aberto à renegociação, mas quer a China dentro

Donald Trump e Vladimir Putin têm encontro marcado a 11 de novembro, em Paris. À margem das comemorações do 100º aniversário do fim da I Guerra Mundial, os Presidentes dos EUA e da Rússia irão abordar a última rutura decidida pelo primeiro, que alvejou o segundo como um míssil teleguiado: o rasgar do Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermédio (INF, sigla inglesa), assinado por Ronald Reagan (EUA) e Mikhail Gorbatchov (URSS) na reta final da Guerra Fria.

“Não estou certa de que seja uma rutura. Trump quer negociar com a Rússia um novo acordo. Não devemos ver este rasgar de tratado como um fim em si, mas o princípio de outra coisa”, comenta ao Expresso a investigadora Diana Soller, do Instituto Português de Relações Internacionais. “O Tratado é muito menos abrangente do que possamos pensar, só contempla armas nucleares de alcance intermédio. Mas Trump conseguiu o que queria: dar um passo simbólico relativamente à Rússia numa tentativa de desfazer tratados que considera nocivos para os EUA.”

A desconfiança de Washington em relação ao incumprimento por parte de Moscovo não resulta de descobertas recentes. Em fevereiro, o documento “Nuclear Posture Review”, do Departamento de Defesa, já alertava para a “decisão da Rússia de violar o Tratado INF”, através da “produção, posse e teste de um míssil de cruzeiro lançado do solo” (ver infografia). Trump explodiu agora. Porquê?

Ameaças e incentivos

“Trump quer um novo tratado não só com a Rússia, mas que inclua a China”, que considera ser o principal rival dos EUA, descodifica Soller. Por um lado, o americano quer conter a Rússia do ponto de vista nuclear, por outro considera que não faz sentido, no sistema internacional de hoje, ter um tratado a dois quando o futuro é a três: EUA, Rússia e China são os atores do futuro.

Pequim reagiu através de Hua Chunying, porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, que defendeu que a retirada americana do INF “terá um efeito multilateral negativo”. Caberá a Trump “atrair a China com ameaças e incentivos”, diz a investigadora, para que Pequim saiba o que esperar se decidir ficar fora ou alinhar num novo tratado.

“As suspeitas levantadas por Trump sobre um alegado desrespeito de Moscovo não serão totalmente infundadas, mas o modo como o anúncio foi feito foi tudo menos tranquilizador”, diz ao Expresso o analista de política americana Germano Almeida. “Gorbatchov chamou-lhe ‘um erro que revela falta de sabedoria’. Mas depois do modo submisso e, para muitos, humilhante como Trump se apresentou ao lado de Putin em Helsínquia, esta demarcação terá sido estratégica.”

A 16 de julho, na capital finlandesa, a cimeira entre ambos causou desconforto nos EUA por Trump ter posto em causa a competência dos seus próprios serviços secretos na investigação à interferência russa nas eleições de 2016. Mas se dali Trump saiu diminuído, em Paris será ele a bater as cartas.

INFOGRAFIA DE JAIME FIGUEIREDO

TRUMP E A ARTE DE RASGAR TRATADOS

Para o 45º Presidente, os Estados Unidos andam a ser enganados há décadas. Acordos que não beneficiem o país são para romper

Donald Trump não vai a meio do mandato e já atirou para o lixo cinco tratados internacionais. “Ele não se revê na ordem liberal que promove grandes acordos e se funda em organizações multinacionais como a ONU e a NATO”, diz o analista Germano Almeida. “Vê as relações internacionais como um jogo de soma zero em que para os EUA saírem a ganhar outros têm de ficar a perder.”

O mote foi dado logo ao terceiro dia de presidência, 23 de janeiro de 2017, quando os EUA saíram da Parceria Transpacífica. O projeto seguiu sem os americanos, mas com 11 países a bordo. “Em vez de colocar os EUA como jogador crucial na região, abriu via verde para acelerar o crescimento da China”, comenta Almeida. “Trump teve vistas muito curtas”, complementa a investigadora Diana Soller. “Este era também um tratado de segurança que isolava a China.”

Mentalidade nova e coerente

Outro acordo rompido este ano foi o Tratado Norte-Americano de Livre Comércio, da era Bill Clinton. México e Canadá aceitaram uma nova versão, nascendo uma espécie de NAFTA 2.0. “Terá sido a jogada mais bem conseguida de Trump dentro do seu ‘mantra’ de que é preciso renegociar os ‘maus acordos’ feitos pelos antecessores democratas Obama e Clinton”, diz Almeida.

Obcecado por destruir o legado de Obama, Trump reverteu duas grandes conquistas do 44º Presidente. A 1 de julho de 2017, saiu do Acordo de Paris relativo às alterações climática. “Terá sido o gesto mais perturbador e potencialmente danoso para o prestígio da América no mundo”, diz o analista. A 8 de maio deste ano, retirou os EUA do acordo sobre o programa nuclear do Irão. “Foi o ato mais definidor desta Administração. A partir de agora, como acreditar naquilo em que os governos americanos assinam?”

Compreender Trump implica aceitar que na Casa Branca há hoje uma mentalidade assente em duas coerências. Soller descreve-as: “Uma: qualquer acordo que não esteja a beneficiar os EUA está sujeito a ser rasgado. Outra: a unidade mais importante da política internacional voltou a ser o Estado e não as organizações ou o multilateralismo”.

(Foto: Mikhail Gorbachov (à esquerda) e Ronald Reagan, chefes de Estado da União Soviética e dos Estados Unidos, assinam o Tratado INF, a 8 de dezembro de 1987, na East Room da Casa Branca, em Washington D.C. WHITE HOUSE PHOTO OFFICE)

Artigo publicado no Expresso, a 27 de outubro de 2018 e republicado parcialmente no “Expresso Online” no mesmo dia. Pode ser consultado aqui