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Conferência DE paz adiada para julho

Previstas para 25 de junho, em Genebra, as conversações de paz visando o fim do conflito na Síria foram adiadas. Deveriam sentar à mesma mesa regime e oposição

Na Síria, “as partes não estão preparadas” para conversações de paz, disse hoje Lakhdar Brahimi. O enviado das Nações Unidas e da Liga Árabe para o conflito sírio proferiu a afirmação após uma reunião preparatória, em Genebra, com representantes norte-americanos e russos.

Segundo a agência Reuters, a reunião que visava discutir a organização da Conferência de Genebra sobre o conflito, prevista para 25 de junho, terminou sem acordo relativamente à participação do Irão no encontro. Teerão é, à semelhança da Rússia, um forte apoiante do regime de Damasco. 

“A questão mais difícil prende-se com o universo de participantes na conferência”, afirmou Gennady Gatilov, vice-ministro dos Negócios Estrangeiros, citado pela agência Interfax. Gatilov confirmou que a Conferência de Genebra, que visava reunir regime e oposição, não se realizará antes de julho.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 5 de junho de 2013. Pode ser consultado aqui

A incómoda entrada em cena de Israel

De olho no Hezbollah, Israel fez dois ataques em território sírio. A sua repetição pode incendiar o Médio Oriente

ILUSTRAÇÃO DE CARLOS LATUFF

Ainda não há data, mas o apoio dos Estados Unidos e da Rússia já está garantido. “Assim que for viável, possivelmente no final deste mês”, realizar-se-á uma conferência internacional sobre a guerra civil na Síria — anunciaram, na terça-feira, John Kerry e Sergei Lavrov, respetivamente, chefes da diplomacia norte-americana e russa, após um encontro em Moscovo. “É a primeira notícia a dar esperança a um país infeliz faz muito tempo”, reagiu o enviado na ONU e da Liga Árabe para a Síria, Lakhdar Brahimi.

No conflito sírio, Washington e Moscovo estão em lados opostos da barricada. Para os EUA, Bashar al-Assad não é opção para a fase de transição: “É impossível para mim, como pessoa, compreender como é que a Síria poderia ser governada no futuro pelo homem que fez as coisas que todos sabemos”, disse Kerry. Já a Rússia — aliada do Presidente sírio desde a primeira hora — não está “interessada no destino de pessoas em concreto”, disse Lavrov, sem mencionar o nome de Assad.

“Há razões para ceticismo quanto aos planos da Rússia e dos EUA em relação a uma conferência internacional sobre a Síria — os diplomatas, muitas vezes, propõem reuniões quando não têm soluções”, escreveu, quarta-feira, em editorial, o influente “The New York Times”. “Mas, numa altura em que a guerra civil está a piorar em todos os aspetos, esta iniciativa é um sinal de esperança.”

A ‘linha vermelha’ de Israel

A realizar-se, será a primeira vez que regime e oposição se sentam à mesa do diálogo, após dois anos de guerra que já fez mais de 70 mil mortos, 4,25 milhões de deslocados internos e mais de um milhão de refugiados — “o pior conflito desde o fim da Guerra Fria”, disse António Guterres, alto comissário da ONU para os Refugiados (ACNUR).

Entretanto, a guerra civil síria ameaça extravasar como conflito regional. Domingo passado, a força aérea israelita bombardeou o Centro de Investigação Jamraya, nos arredores de Damasco. Dois dias antes, já tinha atacado o que se pensa ser um carregamento de armas para o Hezbollah, que incluía mísseis Fateh-110, de fabrico iraniano, que colocariam Telavive ao alcance dos rockets do movimento xiita libanês.

“Se Israel atacar, será das coisas mais perigosas para o Médio Oriente”, reagiu segunda-feira o Presidente da Turquia, Abdullah Gül, a bordo do avião que o trazia para Portugal, que visitou durante três dias. “Vai arruinar tudo. O regime (sírio) vai beneficiar disso”, disse, citado pelo jornal turco “Today’s Zaman”.

À semelhança da Administração Obama — que tem no uso de armas químicas o alerta para intervir no conflito —, também Israel tem a sua “linha vermelha”: o Hezbollah, fortemente apoiado pelo Irão. “Com o Hezbollah a empenhar talvez metade das suas forças na Síria, ajudando o regime do ditador Assad a lutar pela sobrevivência, a organização xiita libanesa vai querer ‘recompensas’ para as suas ações”, lê-se numa análise publicada pelo diário israelita “The Jerusalem Post”. “O Hezbollah e o seu patrono Irão poderão ter pedido a Assad que mande para o Líbano armas mais sofisticadas (leia-se mísseis ou gases).”

ONU na mira rebelde

Do ponto de vista tático, os ataques israelitas serviram os interesses rebeldes. Mas entre a oposição, a entrada em cena de Israel é incómoda. “O regime (sírio) usou as suas forças para reprimir as exigências de mudança do povo, enfraquecendo a defesa síria e assim permitindo que forças externas ocupantes (da Palestina) atinjam posições sírias”, lê-se num comunicado da Coligação Nacional da Revolução Síria e das Forças da Oposição, publicado no seu site.

Quarta-feira, forças leais a Assad reconquistaram uma cidade estratégica no sul da Síria — Khirbet Ghazaleh, situada junto à autoestrada que liga Damasco e Amã (Jordânia). Entre os rebeldes, parece reinar a desorientação. Na terça-feira, a Brigada dos Mártires Yarmouk, um grupo rebelde formado há menos de um ano, raptou quatro capacetes azuis da UNDOF — a missão da ONU que, desde 1974, superintende o cessar-fogo entre Israel e a Síria, nos Montes Golã (ocupados por Israel em 1967). Os rebeldes afirmam que os quatro filipinos foram detidos “para sua própria proteção”.

IMPACTO DA GUERRA

40%
da população da Jordânia será composta por refugiados sírios em 2014, se o fluxo continuar

4,25
milhões de sírios (um quinto da população) são deslocados internos, a maioria em Alepo e nas áreas rurais de Damasco

ATAQUES NA ERA BASHAR

JULHO 2001
Com Bashar al-Assad há um ano no poder, aviões israelitas atacam um radar militar sírio instalado no Líbano (país ocupado pela Síria), em resposta a um ataque do Hezbollah a bases israelitas nas Quintas Shebaa (ocupadas por Israel e reivindicadas pelo Líbano).

OUTUBRO 2003
Israel bombardeia o campo de Ain es Saheb (25 km a noroeste de Damasco), usado por militantes palestinianos, respondendo a um ataque suicida em Haifa (Israel), horas antes, feito pela Jihad Islâmica.

JUNHO 2006
F-16 israelitas sobrevoam a Síria e o Líbano, a baixa altitude, num voo de intimidação a Damasco. Os caças passam sobre a residência de verão de Bashar al-Assad, em Latakia.

SETEMBRO 2007
Israel desencadeia a Operação Pomar: raides aéreos noturnos contra um reator nuclear sírio, perto da cidade de Deir ez-Zour.

NOVEMBRO 2011
Com a revolta contra Bashar al-Assad em curso, Israel dispara contra território sírio, em resposta a tiros de morteiro contra os Montes Golã (ocupados por Israel em 1967).

JANEIRO 2013
Israel ataca uma coluna que transportava armamento antiaéreo sofisticado, com origem no centro de investigação científica de Jamraya (noroeste de Damasco) e que teria como destino o Hezbollah, no Líbano.

MARÇO 2013
Israel destrói uma posição militar síria, como retaliação por disparos contra soldados israelitas nos Montes Golã.

MAIO 2013
Caças israelitas bombardeiam Jamraya, alegadamente atingindo um carregamento de mísseis de fabrico iraniano destinados ao Hezbollah.

Artigo publicado no Expresso, a 11 de maio de 2013

Cessar-fogo na Síria só no papel

O cessar-fogo acordado na Síria para assinalar o fim da grande peregrinação a Meca durou escassas horas

A explosão de uma viatura armadilhada, hoje, perto da mesquita Omar Ibn Khattab, no bairro sunita de Daf al-Shok (sul de Damasco), fez “dezenas de mortos e feridos”, informou o Observatório Sírio para os Direitos Humanos (OSDH).

O incidente culminou mais um dia de grande violência na Síria que deitou por terra o cessar-fogo acordado entre o Presidente sírio, Bashar al-Assad, e o Exército Sírio Livre, principal grupo rebelde, para vigorar durante os quatro dias comemorativos da Festa do Sacrifício (‘Id al-Adha), um dos feriados mais sagrados para os muçulmanos e que assinala o fim da peregrinação anual a Meca.

“O cessar-fogo não foi cumprido em muitas regiões, mas ainda assim a violência é menor e há menos vítimas do que habitualmente”, disse Rami Abdel Rahman, diretor do OSDH. Estima-se que hoje tenham morrido cerca de 50 pessoas na Síria. Ontem, segundo a mesma organização, o número de vítimas mortais ascendeu aos 135.

O ativista referiu que entre os rebeldes havia militantes da Frente Islamita Al-Nusra, um grupo armado que surgiu durante o conflito e que assumiu a autoria de vários atentados suicidas em Damasco e Alepo. Esta Frente já havia anunciado que não iria respeitar o cessar-fogo temporário, mediado pelo enviado da ONU e da Liga Árabe, Lakhdar Brahimi.

Paralelamente aos combates, várias manifestações de protesto saíram à rua em Damasco, Alepo, Deraa e Deir Ezzor. As palavras de ordem visaram invariavelmente o Presidente Assad: “Traidor, covarde, tu destruiste a Síria”.

A revolta na Síria dura há 19 meses. Estima-se que a contestação ao regime alauita já tenha custado a vida a cerca de 35 mil pessoas.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 26 de outubro de 2012. Pode ser consultado aqui

Presidente da Síria tem os dias contados

Aumentam as vozes, entre os governantes internacionais, que vaticinam a queda iminente de Bashar al-Assad. No terreno, os rebeldes investem sobre Alepo, a maior cidade e capital comercial da Síria

“Bashar al-Assad vai cair, é uma questão de tempo”, afirmou hoje o ministro francês dos Negócios Estrangeiros, Laurent Fabius, em entrevista à televisão France 2.

O governante disse ainda que a França rejeita qualquer tipo de impunidade para o Presidente da Síria. “A Liga Árabe fez essa proposta, mas penso que, a longo prazo, todos os ditadores devem pagar pelos seus crimes.”

Fabius recordou que, desde o início da revolta contra o regime, em março de 2011, “20 mil pessoas foram mortas”, na Síria. “Para Assad e para outros ditadores, não haverá impunidade”, concluiu.

Transição como no Iémene

Em curso, poderá estar já um processo negocial tendo em vista a saída de Bashar al-Assad do poder.

George Sabra, porta-voz do Conselho Nacional Sírio (que concentra os grupos anti-regime), afirmou hoje à agência noticiosa AFP que a oposição “poderá aceitar o afastamento de Assad e a transferência de poderes para uma figura do regime, o qual iria liderar um período de transição como o que aconteceu no Iémene.”

Sabra esclareceu também que, neste momento, a prioridade é “acabar com os massacres e proteger os civis, e não julgar Assad”.

Alepo a ferro e fogo

Na semana passada, os combates concentraram-se na capital, Damasco, onde um atentado suicida no interior da sede do aparelho de Segurança Nacional que pôs em evidência as fragilidades do regime.

Desde sexta-feira que, segundo a Al-Jazeera, está em curso uma ofensiva rebelde pelo controlo da Cidade Velha de Alepo (património mundial da UNESCO).

Situada no norte, Alepo é a maior cidade (com mais de dois milhões de habitantes) e a capital comercial da Síria. Um motim na prisão da cidade, reprimido com armas de fogo e gás lacrimogéneo, resultou na morte de 15 detidos.

Armas de destruição maciça na fronteira

Nabil Elaraby, secretário-geral da Liga Árabe, afirmou hoje que o regime de Assad tem “os dias contados”. No mesmo sentido, também o primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, disse que a rebelião contra o Presidente está “mais próxima da vitória do que nunca”.

Erdogan avisou também que a Turquia responderá a qualquer hostilidade com origem na Síria. Segundo um comunicado divulgado hoje pelo Exército Sírio Livre (rebelde), o Governo sírio deslocou armas químicas e biológicas para aeroportos situados junto às fronteiras. Damasco diz tratar-se de uma medida de “auto-defesa”, prevenindo a eventualidade de uma “agressão externa”.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 24 de julho de 2012. Pode ser consultado aqui

Ninguém sabe do Presidente da Síria

Com Damasco tomada por confrontos, o paradeiro do Presidente da Síria Bashar al-Assad é uma incógnita — uns dizem que continua em Damasco outros que terá fugido para o litoral

Vinte e quatro horas após o atentado suicida em Damasco que decapitou uma parte importante do aparelho de segurança sírio, o paradeiro do Presidente da Síria é uma incógnita.

Bashar al-Assad não reagiu ao atentado. Fontes da oposição citadas pela Reuters dizem que o Presidente poderá ter-se refugiado na cidade costeira de Latakia. Informações recolhidas pelo jornal francês “Figaro” garantem que ele continua em Damasco.

A capital da Síria está envolta em confrontos entre membros do Exército Livre Sírio (rebeldes) e o Exército regular e os apelos para que a população se afaste das áreas de combate multiplicam-se. Hoje, de manhã, registou-se uma intensa troca de fogo perto da sede do Conselho de Ministros.

“Estes combates, de uma violência extrema, devem continuar nas próximas 48 horas visando limpar Damasco de terroristas antes do início do Ramadão (na sexta-feira)”, afirmou à agência noticiosa France Press uma fonte da segurança síria, sob anonimato.

“Até ao momento, o exército tem dado mostras de contenção nas suas operações”, continuou. “Mas, depois do atentado de ontem, decidiu utilizar todas as armas ao dispor para acabar com os terroristas.”

Batalha continua… na ONU

Os combates em Damasco começaram no domingo passado, após insurgentes munidos com armas ligeiras e lança-granadas RPG terem conseguido entrar na capital.

O atentado de ontem foi um feito importante na estratégia rebelde para “libertar Damasco” e tem sido referido por muitos analistas internacionais como um ponto de viragem na crise síria.

Segundo o Observatório Sírio dos Direitos Humanos, só ontem morreram 214 pessoas, das quais 124 civis, 62 soldados e 28 rebelde.

Prevista para ontem, a votação de um novo pacote de sanções não-militares à Síria deverá realizar-se hoje no Conselho de Segurança das Nações Unidas. O adiamento foi solicitado por Kofi Annan, enviado da ONU e da Liga Árabe para a crise na Síria.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 19 de julho de 2012. Pode ser consultado aqui