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Cimeira em Astana para segurar a trégua

Prevista para a próxima semana, a cimeira de Astana sobre a guerra na Síria poderá possibilitar o primeiro encontro entre a Rússia e os Estados Unidos da era Trump. Em cima da mesa, estarão, apenas e só, aspetos militares do conflito. Grupos rebeldes já confirmaram a sua presença no Cazaquistão

Começa a ganhar forma a cimeira de Astana, a iniciativa diplomática que se segue visando o fim do conflito na Síria. Promovida por Rússia e Turquia — que no terreno estão em lados opostos da barricada (Moscovo apoia Bashar al-Assad e Ancara fações rebeldes) —, a reunião está prevista para a próxima segunda-feira, dia 23, na capital do Cazaquistão.

A Administração Trump, que inicia funções na próxima sexta-feira, foi convidada a estar presente. “Estamos a contar que a nova Administração aceite o convite e se faça representar por peritos a quaisquer níveis que eles entendam ser possível”, afirmou esta terça-feira, em conferência de imprensa, o ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Sergei Lavrov. “Será o primeiro contacto oficial durante o qual poderemos iniciar a discussão sobre o reforço da eficácia no combate ao terrorismo na Síria.”

As conversações de Astana irão concentrar-se exclusivamente na dimensão militar do conflito, deixando as questões políticas para um outro processo negocial já agendado, de iniciativa das Nações Unidas, previsto para fevereiro em Genebra (Suíça).

Na segunda-feira, grupos rebeldes confirmaram que estarão presentes em Astana. “Todos irão. Todos concordaram”, afirmou Mohammad Alloush, um dos líderes do Jaish al-Islam (Exército do Islão), uma aliança de grupos islamitas e salafitas. “Astana é um processo que visa acabar com a sangria provocada pelo regime e seus aliados. Queremos acabar com esta sucessão de crimes.”

Osama Abu Zeid, um advogado a trabalhar para os rebeldes, afirmou que estes foram encorajados a participar pelo facto de a ordem de trabalhos concentrar-se “apenas no cessar-fogo”.

Ofensiva sangrenta do Daesh

Apesar das iniciativas diplomáticas em curso, e da trégua oficialmente em vigor desde 30 de dezembro, no terreno a guerra está longe de estar terminada. No sábado, o autodenominado Estado Islâmico (Daesh) — que não está abrangido pelo cessar-fogo e que continua a ter na cidade síria de Raqqa a sua principal fortaleza — lançou uma ofensiva contra as forças governamentais na província de Deir ez-Zor (leste) — rica em recursos petrolíferos — que os jiadistas controlam parcialmente. Segundo o Observatório Sírio dos Direitos Humanos, o ataque fez 82 mortos.

À semelhança do Daesh, estarão também ausentes de Astana os grupos curdos. A Administração Obama defendeu a participação das Unidades de Proteção Popular (curdas), conhecidas pelas siglas PYD ou YPG, mas o ministro turco dos Negócios Estrangeiros, Mevlüt Çavuşoğlu, considerou essa possibilidade “um disparate”, defendendo: “Se for convidado um grupo terrorista, então também se deve convidar a Al-Nusra e o Daesh”. Ambos são rotulados “grupos terroristas” pelas Nações Unidas.

Para os turcos, as YPG são o braço sírio do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), que luta por um Curdistão independente na Turquia e que Ancara considera ser um grupo terrorista.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 17 de janeiro de 2017. Pode ser consultado aqui

Rebeldes sírios ameaçam boicotar conversações de paz

Está em perigo a cimeira de Astana, prevista para este mês, no Cazaquistão, sobre o conflito na Síria. Grupos rebeldes acusam o regime de Bashar al-Assad de não cumprir o cessar-fogo

Aos cinco dias de trégua na Síria, o principal grupo rebelde suspendeu a sua participação nos trabalhos de preparação das negociações de paz previstas para o final do mês, no Cazaquistão. O Exército Livre da Síria,apoiado pela Turquia, fala em em várias “violações” ao cessar-fogo por parte das forças de Bashar al-Assad .

“O regime e seus aliados continuam a sua investida e realizaram operações, especiamente no Vale de Barada, Ghouta Leste (Damasco), nos subúrbios de Hama e Daraa. Também bombardearam a nascente de Al-Fijeh que fornece água a seis milhões de sírios em Damasco e arredores”, lê-se num comunicado conjunto assinado por 12 fações rebeldes.

É um “significativo revés”, comentou Hashem Ahelbarra, repórter da Al-Jazeera colocado na cidade turca de Gaziantep, fronteira à Síria. “Os rebeldes dizem que assinaram o cessar-fogo de boa fé mas que o regime sírio e o seu aliado russo falharam” o seu cumprimento. “Dizem que os aviões continuaram a atacar áreas controladas pelos rebeldes por todo o país com bombas de barril, em particular Wadi Barada.”

Os signatários do comunicado realçam o agravamento da situação nesta área a noroeste de Damasco — crucial para o abastecimento de água à capital e cercada por forças governamentais desde meados de 2015 —, alvo de bombardeamentos quase diários por parte das forças nacionais e dos seus aliados do Hezbollah (grupo xiita libanês).

Racionamento de água em Damasco

Segundo o Gabinete da ONU para a Coordenação dos Assuntos Humanitários (OCHA), o fornecimento de água foi cortado a 22 de dezembro após a infraestrutura ter sido “deliberadamente alvejada e danificada”, sem adiantar por quem. Presentemente, há racionamento de água na capital síria, com as autoridades obrigadas a recorrer às reservas.

Segundo a BBC, a área de Wadi Barada “não está abrangida pelo cessar-fogo, dada a presença do grupo jiadista Jabhat Fateh al-Sham [antiga Jabhat al-Nusra], excluído pelo acordo”.

Promovidas pela Rússia, Irão e Turquia, as conversações de Astana ainda não tem data concreta. Os organizadores dizem não pretender substituir o processo negocial apoiado pelas Nações Unidas previsto, que deverá ser retomado em fevereiro, mas antes completá-lo.

O diálogo de Astana é o passo seguinte ao cessar-fogo mediado por Rússia e Turquia — que no pântano sírio apoiam fações contrárias. Ficaram de fora grupos jiadistas que as Nações Unidas designam como “terroristas”, como o Daesh e a Jabhat Fateh al-Sham (antiga Jabhat al-Nusra).

Não abrangidas pelo acordo de cessar-fogo estão também as milícias curdas Unidades de Proteção Popular (YPG), que o Governo turco considera serem a extensão síria do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), que luta pela autonomia do povo curdo dentro da Turquia desde a década de 80.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 3 de janeiro de 2017. Pode ser consultado aqui

Um grito em nome de Alepo

Esteve quase quatro anos em missão na Síria e foi testemunha de uma “convivência única” entre populações muçulmanas e cristãs. Hoje, a irmã argentina Maria de Guadalupe sente que é seu dever partilhar a sua experiência para alertar, sobretudo, para a situação em Alepo. Falámos com ela, aprendemos com ela, sofremos com ela

Na era da comunicação global e das grandes conquistas tecnológicas, nem sempre a verdade está à distância de um clique. E o conflito na Síria é um exemplo disso. “Estamos na era da comunicação, mas é lamentável que não se saiba a verdade sobre o que se passa em Alepo.

O que se vende no Ocidente é uma mentira, baseada em muita desinformação e ignorância”, acusa a irmã Maria de Guadalupe, de 43 anos, em entrevista ao Expresso. E concretiza: “A perseguição aos cristãos é desconhecida do resto do mundo”.

Missionária da Família Religiosa do Verbo Encarnado, congregação sediada em Buenos Aires — cidade onde nasceu o Papa Francisco —, Guadalupe esteve quase quatro anos em missão em Alepo, a segunda maior cidade síria e que hoje se encontra praticamente dizimada pela guerra. “Em termos humanos, Alepo foi a pior situação que alguma vez presenciei. Mas foi também, sem dúvida alguma, a minha melhor missão. Se voltasse atrás no tempo, pediria para ir para a Síria.”

Em Alepo, antes da guerra rebentar, a irmã testemunhou uma convivência entre muçulmanos e cristãos como nunca antes vira na região. “Nunca vi nada igual em 15 anos de missões no Médio Oriente.” A Síria era um país excecional, tinha um Estado laico e “Alepo era uma cidade desenvolvida, muito próspera, com um excelente nível académico — era uma cidade empresarial”, que rivalizava com Damasco, a capital. Pessoas de diferentes religiões eram colegas de trabalho e amigos.

Dirigindo um coro infantil na Catedral do Menino Jesus, no bairro de Shahba, onde vivem e trabalham os missionários da congregação da irmã Guadalupe FAMÍLIA RELIGIOSA DO VERBO ENCARNADO

Maria de Guadalupe chegou a Alepo em inícios de 2011, quando as manifestações populares da Primavera Árabe ainda não tinham saído às ruas da Síria e ninguém antevia a guerra sangrenta que se seguiria. Antes, tinha estado dois anos na cidade palestiniana de Belém (Cisjordânia) e 12 em Alexandria, no Egito.

Durante esse período, deslocou-se a vários países na região (Jordânia, Síria, Iraque e Tunísia) para trabalhar junto das comunidades cristãs locais. Quando lhe foi proposto que escolhesse o seu próximo destino, a missionária escolheu Alepo, pensando que iria poder desfrutar de um período mais calmo do que aquele que vivera no Egito.

“Nunca pensei estar preparada para permanecer num país em guerra, mas eu já lá estava quando a guerra começou. Apercebi-me que tinha de ficar, pois Deus mo pedia. O meu superior sempre disse que temos de ir para onde ninguém queira ir. Esse lugar é Alepo”, cidade que está, desde há anos, a ser disputada pelo exército nacional, forças rebeldes laicas e jihadistas.

Guadalupe vivia na parte ocidental da cidade, controlada pelas tropas do Presidente Bashar al-Assad. “É um erro dizer que a Síria está a sofrer uma guerra civil. O país foi invadido por grupos armados estrangeiros, terroristas, que desde o início perseguem abertamente os cristãos e qualquer outro grupo que não corresponda ao seu fundamentalismo.”

Acusa o Ocidente de defender a liberdade, a democracia e os direitos humanos e, ao mesmo tempo, de financiar o terrorismo em nome de interesses económicos.

Além do trabalho pastoral na catedral, a congregação tem uma residência para estudantes universitárias oriundas de fora de Alepo FAMÍLIA RELIGIOSA DO VERBO ENCARNADO

Quando o Daesh se fez anunciar na Síria — estabelecendo em Raqqa a sua capital —, a missionária ainda estava no país. Mas nunca o enfrentou diretamente. “Se tivesse tido algum contacto com o Daesh não estaria cá hoje para contar”, diz, fazendo o gesto de quem corta a garganta. “Não há maneira de conversar com esta gente. O Daesh pratica uma intolerância total para com os cristãos. O sequestro ou a morte são inevitáveis.”

A irmã garante que apesar da devastação e das atrocidades cometidas em Alepo e noutras cidades da Síria, as populações resistem o mais possível a deixar as suas casas ou o país. Fugir é sempre a última opção, “o êxodo é forçado”. É resultado do desespero. Estima-se que, desde março de 2011, cerca de 11 milhões de sírios tenham fugido de casa. Muitos saíram mesmo do país.

Guadalupe saiu da Síria em finais de 2014. Hoje, sente que, de certa forma, a sua missão em Alepo ainda não terminou. Viaja por vários países, dando o seu testemunho para que os cristãos perseguidos, com quem se preocupa em especial, tenham uma voz que os defenda. Uma gota no oceano, mas uma gota necessária.

Chegou a Portugal no passado dia 18, a convite da fundação pontifícia Ajuda à Igreja que Sofre. Esteve no Porto, no Estoril, em Lisboa e esta quinta-feira à noite dará o seu testemunho em Almada, na Igreja Paroquial de São Tiago, pelas 21h15.

Na quarta-feira, a irmã Guadalupe deu o seu testemunho no Colégio de São Tomás, em Lisboa FAMÍLIA RELIGIOSA DO VERBO ENCARNADO

Para quem não a irá ouvir, ela apela: “Não podemos ser indiferentes ao que se passa em Alepo. Temos de rezar por eles e pela paz. E temos de cooperar, contribuindo para a paz com o nosso próprio comportamento. Somos seres humanos e vivemos em comunidade. Se eu faço o bem, isso repercute-se na sociedade e contribui para a paz. Se eu vivo em pecado, vício, egoísmo, isso repercute-se na sociedade e contribui para a guerra. O nosso comportamento não é indiferente. Através dele, cooperamos com a guerra ou com a paz.”

(Foto principal: A irmã Maria de Guadalupe esteve em missões no Médio Oriente durante 15 anos FAMÍLIA RELIGIOSA DO VERBO ENCARNADO)

Artigo escrito em conjunto com Flor Lança de Morais e publicado no “Expresso Diário”, a 24 de novembro de 2016 e republicado no Expresso Online, no dia seguinte. Pode ser consultado aqui e aqui

Jogos de guerra

Rússia e Estados Unidos retomam hoje, em Lausana, o diálogo sobre a Síria. Em cima da mesa está mais uma tentativa de cessar-fogo, num conflito onde os hospitais já se tornaram um alvo e que está refém de interesses geopolíticos

CARLOS LATUFF

A guerra na Síria transformou-se num banho de sangue contínuo sem que, nos corredores da política, se esboce uma solução credível para lhe pôr fim. Acordos de cessar-fogo sucedem-se sem resultados efetivos. O último, no mês passado, terminou com os EUA a anunciar o rompimento das conversações oficiais com a Rússia.

Esta semana, um dos cidadãos russos mais respeitados no Ocidente alertou para as consequências deste “divórcio”. “Penso que o mundo se aproxima perigosamente da zona vermelha. Não quero dar receitas concretas, mas isto tem de acabar”, afirmou Mikhail Gorbatchov, antigo líder da União Soviética. “Temos de retomar o diálogo. Ter-lhe posto fim foi um erro.”

As conversações sobre a Síria são retomadas este sábado, com um encontro previsto para Lausana (Suíça) entre os chefes da diplomacia dos Estados Unidos, Rússia, Turquia, Qatar, Arábia Saudita e Irão. Será um diálogo ao som das bombas, já que a 3500 km de distância, prosseguem os intensos bombardeamentos levados a cabo pelo Governo sírio sobre áreas de Alepo controladas pelos rebeldes — com apoio aéreo russo e terrestre de milícias apoiadas pelo Irão — e que não têm poupado civis nem hospitais.

No xadrez sírio, Estados Unidos e Rússia estão em lados opostos da barricada, arrastando atrás de si aliados com interesses particulares num amplo conflito travado, no terreno, entre forças leais ao Presidente Bashar al-Assad, oposição antigovernamental, forças curdas e milícias jiadistas, com o autodenominado Estado Islâmico (Daesh) à cabeça.

Cinco anos após o início do conflito na Síria, “a grande tragédia deste século”, como lhe chamou António Guterres — confirmado na quinta-feira secretário-geral da ONU 2017/2021 —, está refém de interesses geopolíticos, contraditórios entre si, que tornam a solução para o problema um grande quebra-cabeças.

RÚSSIA

Em defesa do aliado de sempre

O início da intervenção militar russa na Síria, a 30 de setembro de 2015 — em resposta a um pedido de ajuda oficial do Governo de Damasco —, constituiu um “game changer”, com um “peso pesado” da política internacional a tomar parte por um dos contendores. A Rússia é um aliado antigo da Síria, presente militarmente no país desde 1971 — ano em que Damasco arrendou a Moscovo a base naval de Tartus que possibilitou aos russos a sua única saída para águas quentes (Mediterrâneo). Situada numa região conflituosa como é o Médio Oriente — fronteira ao Cáucaso e à Ásia Central, territórios que há menos de 30 anos eram soviéticos —, a Síria garante aos russos um posto de vigia estratégico. A intervenção russa contribuiu para resultados mediáticos, como a reconquista da cidade histórica de Palmira ao Daesh, e desastrosos, como os bombardeamentos a hospitais. Em setembro, Washington acusou Moscovo de “violações flagrantes do direito internacional” na Síria. Guerras de palavras, apenas e só, já que nem EUA nem Rússia arriscam colocar “botas no terreno” para defender civis ou acabar com o conflito.

ESTADOS UNIDOS

Sem iniciativa nem autoridade

Em agosto de 2012, Barack Obama fez saber, alto e bom som, que o uso de armas químicas na Síria corresponderia ao desrespeito de um ultimato. Isso poderia levar à intervenção norte-americana no conflito. Um ano depois, quando foi conhecido o ataque químico em Ghouta, o Presidente dos EUA teve oportunidade de cumprir, mas não o fez. As cedências de Washington culminaram em finais de 2015 quando os EUA deixaram cair a exigência de uma “mudança de regime” em Damasco no quadro de uma solução para o conflito. Neste momento, o “polícia do mundo” está reduzido a um papel de negociador de tréguas e de instrutor e fornecedor de equipamento a forças afetas à oposição, nomeadamente curdas. A 28 de setembro, dias antes do fim do diálogo entre EUA e Rússia sobre a Síria, o porta-voz do Departamento de Estado norte-americano era a voz da falta de iniciativa e autoridade do país nesta crise: “Grupos extremistas continuarão a explorar os vácuos na Síria para expandir operações, que podem incluir ataques contra interesses russos, talvez contra cidades russas”, disse John Kirby. “A Rússia continuará a mandar soldados para casa dentro de caixões e a perder material de guerra, nomeadamente aviões.”

TURQUIA

Curdos, nem vê-los. Negócios, bem-vindos

A Turquia está em acelerada reaproximação à Rússia, passada a tormenta provocada pelo abate de um caça russo junto à fronteira turca, a 24 de novembro de 2015. Esta segunda-feira, os Presidentes Recep Tayyip Erdogan e Vladimir Putin enterraram definitivamente o machado de guerra, assinando, em Istambul, um acordo relativo à construção de um gasoduto submarino (TurkStream) que tornará a Rússia menos dependente da Ucrânia. No conflito sírio, os dois países estão, porém, em lados opostos: Moscovo apoia Assad e Ancara grupos rebeldes. “Temos uma posição comum de que tudo deve ser feito para fazer chegar ajuda humanitária a Alepo”, disse Putin esta semana. E ficam-se por aí. Em entrevista ao “Komsomolskaya Pravda”, ontem, Bashar al-Assad desejou que a aproximação entre russos e turcos altere a política de Ancara em relação à Síria. Para a Turquia (membro da NATO), o conflito tem dois pilares difíceis de equilibrar: os turcos apoiam os rebeldes, mas não querem ver os curdos (que têm revelado serem as forças armadas mais capazes) ganhar território e aumentar o prestígio. Na Turquia, a minoria curda aspira à independência e Ancara quer evitá-la, custe o que custar.

FRANÇA

Caças nos céus da antiga colónia

Antigo poder colonial na Síria, a França tem sido o país ocidental mais ativo no conflito sírio: numa fase inicial, fornecendo “ajuda não-letal” a forças da oposição a Assad, depois apelando a uma intervenção militar após o massacre de Ghouta (2013) e, mais recentemente, armando grupos rebeldes e bombardeando. Após os atentados de Paris de 13 de novembro de 2015 — que o Presidente François Hollande atribuiu ao Daesh —, a França intensificou os ataques aéreos, ao abrigo do artigo 51º da Carta da ONU (legítima defesa). Há uma semana, no Conselho de Segurança da ONU, França e Espanha apresentaram uma proposta de resolução exigindo o fim dos bombardeamentos e dos voos militares sobre Alepo — a Rússia vetou (pela quinta vez num diploma sobre a Síria). À televisão TF1, Hollande defendeu que quem bombardeia Alepo (ou seja, Assad e Rússia) pratica “crimes de guerra” e deve ser levado ao Tribunal Penal Internacional. Na próxima semana, Putin era esperado em Paris para inaugurar uma catedral ortodoxa e visitar uma exposição de arte russa. “Fiz saber ao sr. Putin que se viesse a Paris, eu não o acompanharia em nenhuma cerimónia, mas que estaria pronto para falar sobre a Síria”, disse Hollande. “Ele decidiu adiar a visita.”

ÁRABES & IRÃO

Xiitas e sunitas complicam a equação

Além dos EUA, Rússia e Turquia, em Lausana estarão Arábia Saudita, Qatar e Irão. Os dois primeiros (árabes sunitas) apoiam rebeldes. O último (persa, xiita) é aliado de Assad, um muçulmano alauíta (xiita), que apoia de forma direta e indireta, através de combatentes do Hezbollah, o movimento xiita libanês. “O Hezbollah, integra as forças lideradas pela Rússia que apertam o cerco a Alepo em apoio de Assad. Pode pensar que com Damasco e Moscovo lhe dão mais liberdade para se armar”, alertou esta semana o diário israelita “Haaretz”. “Nessa circunstância, poderia tentar levar para o Líbano sistemas avançados, alguns de fabrico russo, que Israel disse no passado que não permitiria.” A guerra na Síria tem ainda margem para piorar.

Artigo publicado no Expresso, a 15 de outubro de 2016

Raptos, tortura e execuções sumárias. Métodos de Assad são copiados por grupos da oposição

Na Síria, em áreas controladas pela oposição a Bashar al-Assad, os civis não estão a salvo de atrocidades. Um novo relatório da Amnistia Internacional denuncia os abusos cometidos por grupos armados afetos à oposição

No conflito da Síria, ninguém cumpre as regras da guerra. Grupos jiadistas e movimentos afetos à oposição levam a cabo formas de abuso semelhantes aos métodos de tortura atribuídos às forças leais ao Presidente Bashar al-Assad, denuncia, esta terça-feira, um relatório da Amnistia Internacional.

“As forças do Governo têm sido responsáveis pela maioria das violações, incluindo crimes de guerra e crimes contra a humanidade, sujeitando dezenas de milhares [de pessoas] a detenções arbitrárias, tortura e outros maus-tratos e desaparecimentos forçados”, lê-se no documento. “No entanto, os abusos por parte de grupos armados não-estatais têm agravado o sofrimento dos civis. Os grupos armados que se opõem ao Governo sírio praticaram violações graves do direito internacional humanitário, incluindo sequestros, tortura e execuções sumárias.”

O documento — intitulado “A tortura foi o meu castigo” — tem na sua origem entrevistas a 70 pessoas que vivem ou trabalham na província de Idlib e partes de Alepo, áreas controladas por rebeldes, no noroeste da Síria.

Um deles é Ibrahim (nome fictício), que afirma ter sido raptado pelo grupo islamita Jabhat al-Nusra — o braço da Al-Qaeda na Síria —, em 2015. “Eu tinha ouvido e lido sobre as técnicas de tortura das forças de segurança governamentais. Pensei que estaria protegido disso, dado que moro numa área controlada pela oposição. Estava enganado. Fui sujeito às mesmas técnicas de tortura às mãos da Jabhat al-Nusra”, testemunhou.

Segundo o relatório, as formas de tortura atribuídas a grupos da oposição incluem o espancamento com objetos, as posições “shabeh” (a vítima fica suspensa do teto pelos pulsos durante horas) e “dulab”, em que a vítima é enfiada num pneu (a cabeça fica colada aos joelhos) sendo depois espancada.

Ouvir certa música é perigoso

Para além da Jabhat al-Nusra, o relatório enumera mais quatro grupos armados implicados em relatos de atrocidades sobre civis: a Frente al-Shamia, o Movimento Nour al-Dine Zinki e a Divisão 16, em Alepo (membros da coligação Conquista de Alepo), e a Jabhat al-Nusra e o Movimento Islâmico Ahrar al-Sham, em Idlib (que integram a coligação Exército da Conquista).

“Alguns destes grupos, compostos predominantemente por cidadãos sírios, foram controlando áreas cada vez maiores da cidade de Alepo, de Idlib e arredores, entre 2012 e 2015, e permaneceram no poder nessas zonas até hoje com o apoio de Governos como do Qatar, Arábia Saudita, Turquia e Estados Unidos”, lê-se no relatório. “E ao fazerem-no, estabeleceram instituições administrativas e quase judiciais.”

Se, numa fase inicial deste conflito, muitos civis terão sentido alívio quando as suas áreas de residência caíram nas mãos de grupos que combatiam o regime de Damasco, hoje muitos civis vivem num medo constante de serem raptados. Basta serem apanhados a criticar esses grupos ou a não cumprirem as estritas normas sociais por eles impostas.

Imad (nome fictício) relatou à Amnistia Internacional um ataque à Rádio Fresh, uma estação da cidade de Kafranbel, no norte da província de Idlib, a 10 de janeiro passado: “Alguns combatentes da Jabhat al-Nusra invadiram a estação às sete da manhã. Eu vi os carros, tinham o logotipo deles estampado nas portas. Confiscaram e destruíram algum equipamento e começaram a gritar que nós estávamos a passar música inapropriada na rádio. Nós passávamos canções revolucionárias ou então da Fairuz [uma cantora libanesa muito popular em todo o mundo árabe]. Prenderam dois funcionários. Durante dois dias não soubemos deles. Depois foram libertados após ‘confessarem’ terem praticado o mal. Continuamos a passar música mas muito menos do que anteriormente. Estamos mais cautelosos”.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 5 de julho de 2016. Pode ser consultado aqui