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Porquê na Austrália?

A Austrália vive, desde setembro, em estado de alerta. Um dos ataques frustrados recentemente pelas autoridades visava a decapitação de uma pessoa, numa investida aleatória, na baixa de Sydney

Aconteceu em Sydney, mas poderia ter ocorrido em qualquer outra grande cidade australiana. Desde 12 de setembro que a Austrália vive em estado de alerta antiterrorista “alto”, um nível inédito desde a introdução desse mecanismo de segurança em 2003.

Camberra estima que 90 australianos se tenham juntado ao Estado Islâmico na Síria e no Iraque. Vinte já terão morrido, alguns na região síria de Kobane, e outros vinte já terão regressado a casa. “É o maior risco que enfrentamos em muitos anos”, alertou o procurador-geral australiano, George Brandis.

Na frente de combate, “eles são usados como carne para canhão, bombistas suicidas e instrumentos de propaganda”, acrescentou o procurador. A 21 de julho, as autoridades de Camberra confirmaram que o bombista suicida de um ataque no Iraque era um australiano.

Temendo o regresso a casa de nacionais com experiência jihadista e com um alto nível de radicalização, a Austrália aprovou, a 4 de dezembro, nova legislação antiterrorista, criminalizando as viagens de nacionais para as zonas controladas pelo Estado Islâmico — que controla um terço da Síria e do Iraque —, sem uma justificação credível. Quem desafiar a lei incorre numa pena superior a 10 anos de prisão.

Atenção aos “lobos solitários”
Paralelamente, Camberra teme as consequências que os apelos feitos por jihadistas possam ter dentro de portas. Em meados de outubro, a revista “Dabiq”, do Estado Islâmico, publicada em língua inglesa, apelou a ações de “lobos solitários”contra as “nações de cruzados” que estão a combater o EI. A revista instrui a que se opte por ataques simples.

Anteriormente, o porta-voz do Estado Islâmico, Abu Mohammed al-Adnani, emitira uma mensagem apelando aos “lobos solitários” que atentassem contra “descrentes”, civis ou militares, nacionais de países que apoiam os Estados Unidos nos bombardeamentos ao Estado Islâmico. Um dos países-alvo que mencionou foi, precisamente, a Austrália. 

A 8 de outubro, a Austrália confirmou a sua participação na coligação internacional contra o EI efetuando os primeiros bombardeamentos sobre posições jihadistas, no Iraque. Camberra enviou ainda 600 militares, 200 dos quais forças especiais para missões de aconselhamento ao Governo de Bagdade.

“Esta decisão reflete a avaliação do Governo de que o EI representa uma ameaça significativa”, justificou o primeiro-ministro australiano, Tony Abbott. “Não só para o povo do Iraque mas para toda a região e para a nossa segurança interna.”

Decapitar na via pública
A 18 de setembro, naquela que foi a maior operação de contraterrorismo realizada no país, as autoridades australianas conseguiram frustrar uma tentativa de atentado, que tinha entre os alvos o primeiro-ministro.

Um ataque “ao estilo de Bombaim”, disseram. (A 26 de novembro de 2008, vários ataques sincronizados — bombas, tiroteios, reféns — efetuados pelo grupo terrorista Lashkar-e-Taiba, em Bombaim, provocaram 166 mortos.)

A coberto de legislação antiterrorista, as forças de segurança australianas lançaram dezenas de operações de busca nas cidades de Melbourne, Sydney e Brisbane. Um dos detidos, precisamente em Sydney, foi acusado de conspirar com um líder do Estado Islâmico na Síria para decapitar uma pessoa, num ataque aleatório, na baixa dessa cidade.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 15 de dezembro de 2014. Pode ser consultado aqui

Decapitar: História antiga e cruel

Sempre que o Daesh (“Estado Islâmico”) decapita reféns, mais do que os indivíduos em questão pretende anular tudo aquilo que representam. Foi assim com o norte-americano Peter Kassig, raptado a 1 de outubro de 2013 quando fazia trabalho humanitário na Síria, e de 12 soldados do Exército sírio, decapitados por outros tantos carrascos numa encenação filmada e posta a circular na internet esta semana. Nas mãos dos extremistas estão ainda o jornalista britânico John Cantlie e uma norte-americana de 26 anos, cuja identidade não foi revelada. Pelo menos.

Com maior ou menor teatralização, decapitar inimigos é uma tática que atravessou a História, desde o momento da forja das primeiras espadas. Separar a cabeça do corpo era uma forma de execução rápida, barata e eficaz.

Nas suas crónicas sobre as Cruzadas, Fulquério de Chartres, capelão do exército de Balduíno de Bolonha, conta como os cristãos decapitaram 10 mil judeus e árabes na conquista de Jerusalém (1099).

Rápida e reputadamente indolor, tornou-se, na Europa, uma forma de “morte digna” para a nobreza indesejada, por oposição ao infame enforcamento, reservado ao povo. Democratizou-se e industrializou-se com a Revolução Francesa, mas com o tempo as guilhotinas passaram da praça pública para o interior das prisões. A última em França foi em 1977, na prisão Les Baumettes, em Marselha. (Na Suécia foi em 1910 e na Alemanha em 1949.) A pena capital — “caput”, em latim, significa “cabeça” — só foi abolida em França em 1982.

Após o 11 de Setembro, a decapitação do jornalista americano Daniel Pearl, no Paquistão, às mãos da Al-Qaida, deu o mote para a era das trevas que se seguiria. Entre os fanáticos da Jihad popularizou-se com Abu Musab al-Zarqawi, abatido em 2006 por forças dos EUA. O jordano liderava a Al-Qaida no Iraque, precursora do Daesh, que hoje domina parte da Síria e Iraque e inspira a barbárie fora de portas. A 22 de maio de 2013, o soldado britânico Lee Rigby foi degolado por um extremista britânico numa rua de Londres à luz do dia.

65 
pessoas foram decapitadas, este ano, na Arábia Saudita, o único país que executa penas assim. Iémen, Qatar e Irão preveem o método mas não o aplicam

TRÊS PERGUNTAS A PAULO MENDES PINTO, DIRETOR DO CURSO CIÊNCIA DAS RELIGIÕES DA UNIVERSIDADE LUSÓFONA

Qual o significado de decapitar?
Historicamente, o ato de decapitar já se encontra atestado na Idade do Bronze. Na Paleta de Narmer, fonte importante para se conhecer a unificação do Antigo Egito, na passagem do IV para o III milénio a.C., o monarca surge junto a uma fiada de guerreiros inimigos mortos, deitados no chão com a cabeça entre as pernas. É uma morte “eficaz”: passar o pescoço a fio de espada é uma forma de garantir que nenhum inimigo sobrevive. Mas a simbologia do ato vai mais longe. No Mediterrâneo, a degola é a forma mais comum de sacrificar um animal. Esse sacrifício apela ao uso simbólico e ritual do sangue: os corpos devem ser sangrados. A única forma eficaz para sangrar um animal é pelo pescoço. Neste sentido, decapitar já não é apenas matar, mas tem o intuito de vazar o corpo do líquido da vida.

Com que fim?
Ao separar o órgão que se julgava do pensamento, o coração, do órgão de expressão, a boca, decreta-se ao defunto a incapacidade de proferir e realizar no Além ritos e afirmações que lhe dariam acesso à eternidade. O corpo deixa de ser uno e coeso. Para as religiões nascidas no Mediterrâneo, a inviolabilidade do corpo é condição para que num dia de Juízo Final possa haver um novo tempo.

A decapitação tem um significado especial no Islão?
Os radicais islâmicos pegam em versículos corânicos de tradução complexa e sustentam assim, teologicamente, o ato. Estes radicais seguem uma linha de leitura literalista do texto sagrado, não atualizando a sua interpretação. Quase todos os textos sagrados decretaram, algures, a morte nas formas mais bárbaras. Está na mente dos crentes seguir, ou não, a literalidade. Os textos sagrados são sempre reflexo de um tempo. Hoje, o caminho mais importante que veremos fazer muitos teólogos islâmicos é o da contemporaneização da interpretação, em vez da literalização. É inevitável que esse esforço venha a fazer-se, tanto mais que o que agora se abre com o autoproclamado “Estado Islâmico” vai deixar muitas e profundas feridas dentro do próprio Islão.

EPISÓDIOS HISTÓRICOS

A FÉ DE ABRAÃO
O patriarca das três religiões monoteístas dispõe-se a degolar o filho Isaac como prova de fé.

DAVID & GOLIAS
O gigante filisteu é derrubado por uma pedra atirada pelo israelita David que depois lhe corta a cabeça.

JUDITH VENCE O DITADOR
Viúva judia, seduz o general assírio Holofernes, no séc. VI a.C. e decapita-o, salvando a sua cidade, Betulia, do tirano Nabucodonosor.

SÃO JOÃO BATISTA, O MÁRTIR
Herodes manda executar o pregador João Batista. A sua cabeça é entregue, numa bandeja, a Salomé, neta do monarca.

ANA BOLENA, SEMPRE RAINHA
Mulher de Henrique VIII, em 1536 é decapitada por um francês. Não aceita um carrasco inglês, que usava machado; com espada, podia morrer de cabeça erguida.

REVOLUÇÃO FRANCESA
Em 1789, o médico Guillotin apresenta uma invenção na Assembleia: “Senhores, com a minha máquina, farei saltar a cabeça num abrir e fechar de olhos sem sofrimento… O mecanismo cai como um raio, a cabeça voa, o sangue jorra, o homem deixa de existir!” No máximo, o condenado terá, “na nuca, uma sensação de hálito fresco”.

GUERRA NOS PRESÍDIOS
O Primeiro Comando da Capital, criado em 1993, degola inimigos para controlar prisões brasileiras.

Artigo publicado no Expresso, a 22 de novembro de 2014 e republicado no “Expresso Online”, a 27 de julho de 2016. Pode ser consultado aqui

Talibãs dizem (e mostram) que não querem os americanos no país

Talibãs atacaram em Cabul, um dia depois de Afeganistão e EUA terem assinado o pacto que regula a presença militar americana após a saída das tropas da NATO

Dois bombistas suicidas fizeram-se explodir em Cabul, esta quarta-feira, atingindo dois autocarros que transportavam tropas afegãs. Morreram sete pessoas e 21 ficaram feridas. Os ataques tiveram o cunho — e a expressa reivindicação — dos talibãs.

Seriam mais dois atentados a somar a tantos outros que atingem o Afeganistão a um ritmo quase diário não fosse terem acontecido no dia seguinte à assinatura do acordo de segurança entre o Afeganistão e os Estados Unidos, que regula a presença militar americana no território após 1 de janeiro de 2015.

“Não só rejeitamos este documento americano como o consideramos inválido e não-vinculativo para todos os afegãos”, reagiu o Emirado Islâmico, ou seja, os talibãs afegãos, num comunicado colocado no seu site.

“Também dizemos à América e aos seus lacaios que continuaremos a nossa guerra santa e a nossa luta pela liberdade até que o nosso país seja libertado das garras dos selvagens americanos e que seja restaurado um governo islamita forte.”

Novo Presidente marca pontos
O acordo assinado terça-feira permite às forças norte-americanas continuarem em território afegão além da data prevista para a retirada. As tropas da ISAF (missão da NATO no Afeganistão) têm previsto o regresso a casa no final de 2014.

Cerca de 9800 militares norte-americanos continuarão no país após 1 de janeiro de 2015. O número será cortado para metade no fim de 2015 e reduzido gradualmente até ao fim de 2016.

O acordo foi assinado pelo embaixador dos EUA no Afeganistão, James Cunningham, e pelo conselheiro afegão para a Segurança Nacional, Mohammad Hanif Atmar, numa cerimónia que decorreu no palácio presidencial. 

Presente esteve também o novo Presidente afegão, Ashraf Ghani Ahmadzai, que tomou posse na segunda-feira. O seu antecessor, Hamid Karzai, recusou assinar este pacto de segurança com os Estados Unidos. Ao aceitá-lo, o novo Presidente recupera a degradada relação entre Washington e Cabul.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 1 de outubro de 2014. Pode ser consultado aqui

Terror com humor se paga

Várias televisões árabes emitem programas de animação gozando com os extremistas do Estado Islâmico e ridicularizando a sua ambição religiosa

A cena passa-se algures no Médio Oriente. Um jihadista entra num táxi e logo começa a reclamar porque o rádio está ligado. Para tentar acalmar o passageiro, o taxista oferece-se para ligar o ar condicionado, provocando ainda mais protestos. Afinal, nos primórdios do Islão, não havia nem rádios nem ar condicionado. O jihadista não abandona o registo e desanca no taxista quando este atende o telemóvel, outro objeto que o Alcorão não contempla.

Farto de aturar o cliente, o taxista entra no jogo e pergunta ao jihadista: “Nos primórdios havia táxis?” A resposta é pronta: “Não! Mil vezes não!” O taxista pontapeia o passageiro para fora da viatura e sugere-lhe que espere que passe um camelo.

Este é um dos sketches produzidos para o “Ktir Salbe Show”, da televisão libanesa, um dos programas que, por todo o Médio Oriente, satiriza com os jihadistas do Estado Islâmico e ridiculariza as suas pretensões religiosas. A 29 de junho, o grupo proclamou um Califado (um sistema de governo liderado por alguém que se reclama ser sucessor do Profeta) em vastas áreas da Síria e do Iraque.

“Esta gente não representa verdadeiramente o Islão. Ao ridicularizá-los, mostramos que estamos contra eles”, refere Nabil Assaf, produtor e argumentista do “Ktir Salbe Show”, à agência Associated Press. “Claro que é um tema sensível, mas esta é uma forma de rejeitarmos o extremismo e mostrarmos que as pessoas não têm medo.”

Rir é o melhor remédio

Num outro episódio, um jovem jihadista, com tiques de trapalhão, deixa cair o lança-roquetes no pé do seu chefe. Composta a situação, olha pela mira e dispara, aparentemente na direção de um posto militar, mas na realidade ao contrário, acertando no chefe. 

Na Síria, apresentadores de programas surgem nos ecrãs disfarçados, fingindo temer retaliações dos jihadistas. No Iraque, um programa na televisão estatal mostra uma grande quantidade de personagens a fugir dos militares iraquianos, incluindo jovens militantes Estado Islâmico e velhos funcionários do regime de Saddam Hussein.

“Estamos todos contra estas organizações terroristas”, diz Alaa al-Majedi, do canal estatal Al-Iraqiya. “A comédia é uma forma de consciencializar.” Para muitas populações, que veem o avanço dos jihadistas como uma ameaça imparável, é também uma forma de afastar receios.

Num outro sketch, um cristão jordano aproxima-se de dois jihadistas que se envolvem numa luta tentando definir qual deles iria matar o “infiel” e, com isso, receber a “bênção”. Aterrorizado, o cristão sofre um ataque cardíaco e morre. Os terroristas ficam devastados. 

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 2 de setembro de 2014. Pode ser consultado aqui

Radicais anunciam Estado independente

Jihadistas do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL) decretaram um califado nas regiões que controlam na Síria e no Iraque. E exigem a obediência de todos os muçulmanos do mundo

IMAGEM Bandeira do Estado Islâmico WIKIMEDIA COMMONS

Depois da Síria e do Iraque, o EIIL quer avançar à conquista do mundo. O grupo jihadista proclamou um califado nas zonas que controla nos dois países, numa área que se estende desde a província iraquiana de Diyala à região síria de Alepo. O grupo exige agora que os muçulmanos de todo o mundo lhe jurem fidelidade.

“A legalidade de todos os emirados, grupos, estados e organizações torna-se nula através da expansão da autoridade do califa e da chegada das suas tropas a essas áreas”, declarou o porta-voz do grupo, Abu Mohamed al-Adnani. “Ouçam o vosso califa e obedeçam-lhe. Apoiem o vosso Estado, que cresce a cada novo dia.”

O califa é Abu Bakr al-Baghdadi, o líder do grupo jihadista, que entretanto se rebatizou — chama-se agora Estado Islâmico (EI). “A designação ‘Iraque e Levante’ é doravante removida de todas as deliberações e comunicações oficiais e o nome oficial passa a ser Estado Islâmico”, continuou o porta-voz do grupo.

O anúncio foi feito através de uma gravação divulgada na internet e revela uma crescente confiança por parte dos extremistas, cada vez mais percecionados como um perigo maior do que a Al-Qaeda, dada a barbaridade das suas ações.

O Observatório Sírio para os Direitos Humanos denunciou, no domingo, a execução e crucificação de oito homens na zona síria de Deir Hafer, leste de Alepo. Os homens combatiam o regime de Bashar al-Assad e também os grupos jihadistas. Após a execução, o EIIL “crucificou-os na principal praça da aldeia, onde os cadáveres ali ficarão durante três dias”, disse o Observatório. Um nono homem sofreu o mesmo fim na cidade de Al-Bab, perto da fronteira com a Turquia.

O arrependimento de Maliki

Este fim de semana, o Governo de Bagdade (xiita) desencadeou a maior ofensiva, até ao momento, contra os extremistas sunitas, que vêm avançando, desde o norte, na direção da capital. Milhares de soldados iraquianos tentam recapturar Tikrit (a cidade natal de Saddam Hussein), 160 quilómetros a norte de Bagdade.

Segundo a agência russa Itar Tass, o ministério iraquiano da Defesa pediu à Rússia a entrega urgente de aviões de ataque ao solo Su-25, após os Estados Unidos atrasarem o fornecimento aos iraquianos de 18 caças F-16.

Numa entrevista à BBC, na semana passada, o primeiro-ministro iraquiano afirmou que os iraquianos foram “enganados quando assinaram o contrato [com os EUA]”, disse Nouri al-Maliki. “Deveríamos ter procurado comprar outros caças, como britânicos, franceses e russos, para assegurar a cobertura aérea das nossas forças. Se tivéssemos essa capacidade teríamos evitado o que aconteceu.”

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 30 de junho de 2014. Pode ser consultado aqui