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Uma sombra negra desceu sobre o Iraque

O grupo jihadista EIIL nasceu no Iraque e deu nas vistas na Síria. Atingidos por essa ameaça, os dois países estão a desintegrar-se

Bandeira do Estado Islâmico, também usada pelos grupos terroristas Al-Shabaab, Al-Qaeda na Pemínsula Arábica, Al-Qaeda no Magrebe Islâmico e Boko Haram WIKIMEDIA COMMONS

A ofensiva de grupos jihadistas em direção a Bagdade coloca uma dúvida inquietante: poderá o Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL) conseguir, no Iraque, aquilo que a Al-Qaeda nunca conseguiu? Controlar um país? “Duvido”, diz ao Expresso Bernardo Pires de Lima, investigador do Instituto Português de Relações Internacionais (IPRI). “Além de ser difícil conquistar áreas predominantemente xiitas, como Bagdade, surgirão diferentes abordagens e tensões entre os jihadistas e as tribos sunitas que também estão em campo contra o primeiro-ministro Nuri al-Maliki (xiita). Nesse sentido, prevejo uma dupla dificuldade no controlo do país.”

Em menos de uma semana, os jihadistas içaram a bandeira negra em cidades do norte e centro e controlam uma área maior do que Israel, com petróleo, linhas de alta tensão, prisões e armas, algumas fornecidas pelos EUA. No norte a única força militar credível é o exército do território autónomo curdo que, preventivamente, ocupou Kirkuk após a debandada das tropas de Bagdade.

A marcha do EIIL parou em Samarra, a 120 km da capital. Para Pires de Lima, a tomada de Bagdade é, porém, “uma probabilidade distante. Sendo sobretudo xiita, a cidade oferece pouco apoio sunita a uma investida militar. Por outro lado, tanto o exército, fortemente xiita, como as milícias xiitas não darão margem a que a capital seja tomada. Além disso, potências interessadas, como EUA e Irão, já estão preparadas para dar auxílio.”

O ataque irrompeu no dia 10 com a conquista de Mossul, a segunda cidade, numa zona rica em petróleo. Ao estilo de um Estado dentro do Estado, os jihadistas usam os recursos minerais em seu proveito, “fazendo como já fazem na Síria (onde controlam Deir Ezzor, província rica em petróleo): revendendo ao regime, a bom preço, para se financiarem”, diz Pires de Lima.

“A importância da Síria no mercado de petróleo é menor do que a do Iraque, e é provável que os principais compradores financiem mais segurança nas refinarias. Refiro-me à China que compra metade da produção.”

A pobretanas Al-Qaeda

Numa medida que mais parece destinada a exibir potencial e seduzir financiadores, o EIIL publica, desde 2012, o relatório anual de atividades, dando informações sobre ataques à bomba, assassínios, checkpoints, missões-suicidas, conversões de “apóstatas” e ganhos territoriais. Em 2013, o grupo diz ter feito 10 mil operações no Iraque, que provocaram 1000 mortos e resultaram na libertação de centenas de prisioneiros radicais.

Estima-se que o EIIL tenha, atualmente, 15 mil combatentes. E que antes de tomar Mossul, o EIIL já cobrasse, por mês, oito milhões de dólares (seis milhões de euros) em extorsões aos comerciantes locais. Após conquistar Mossul, o grupo assaltou o edifício local do Banco Central de onde levou 425 milhões de dólares (313 milhões de euros). Crê-se que por alturas do 11 de Setembro, o orçamento anual da Al-Qaeda rondasse os 30 milhões de dólares (22 milhões de euros).

Mais do que a sua capacidade militar, o sucesso do EIIL — com origem na Al-Qaeda do Iraque, nascida no contexto da invasão americana de 2003 e que se alimentou do colapso institucional que se seguiu à queda de Saddam Hussein — ilustra, acima de tudo, a implosão do exército de Bagdade. Vários comandantes foram dos primeiros a fugir de Mossul.

Traduz ainda a impopularidade, dentro do ‘triângulo sunita’ (os vértices são Bagdade, Ramadi e Tikrit), do Governo iraquiano que tem marginalizado a minoria sunita, em que, até 2003, Saddam (natural de Tikrit) se apoiou. Por isso e não tanto por admirarem o EIIL, muitos sunitas alinham com os jihadistas.

Para Pires de Lima, investigador também na Universidade Johns Hopkins, em Washington DC, esta ofensiva jihadista era “absolutamente previsível”. “Em janeiro, já tinham tomado Fallujah e Ramadi, pondo a nu as enormes fraquezas do exército. E, no último ano, quando se incompatibilizaram com os grupos laicos e moderados da oposição síria, aproveitaram a livre circulação entre as duas fronteiras para apontar forças ao norte e oeste iraquiano, onde os sunitas mais odeiam o Governo de Maliki, que tudo tem feito para dividir o país com um chauvinismo xiita e uma perseguição política a líderes civis e militares sunitas.”

Territórios aos bocados

O analista recorda que “o Iraque faz parte do sonho do EIIL, o Al-Sham ou a Grande Síria, geografia que não respeita as fronteiras desenhadas no fim dos impérios, antes procura agrupar a comunidade sunita submetendo-a à sharia sem qualquer contemplação”.

Quarta-feira, o Governo português repudiou “as imagens particularmente chocantes de atrocidades cometidas” por grupos terroristas, apelou “à imediata libertação dos cidadãos turcos” reféns em Mossul e defendeu que “a unidade do Iraque deve prevalecer”.

No Iraque e na Síria, essa unidade é, porém, cada vez mais artificial. A Síria “está desintegrada. Assad controla o terço territorial mediterrânico, os curdos autoproclamaram um estado autónomo a norte e os sunitas (terroristas ou militantes anti-Assad) o resto”, diz Pires de Lima. “A manutenção de Assad no poder pode ser um ponto de partida para uma investida militar de ocidente para leste. Nesse sentido, a integridade síria pode ser um capítulo em aberto. Julgo ser o quadro que mais agrada aos EUA, UE, Rússia, Irão e Turquia. A questão é a reação da Arábia Saudita e de grandes financiadores sunitas como o Qatar.”

A desintegração atinge também o Iraque, “embora exista uma estrutura mais descentralizada do Estado. Podemos ter como solução uma federação pouco dirigida pelo Governo central (como querem as tribos sunitas) e com regiões autónomas autossuficientes, como existe a norte com os curdos. Este seria o compromisso político depois de eliminada a ameaça terrorista, o que vai demorar.”

Bagdade já pediu ajuda aos EUA que dali retiraram no fim de 2011. O Irão já enviou tropas para defender a capital e os lugares santos xiitas de Najaf e Karbala. “Este terrorismo aproxima EUA e Irão, mas os EUA não querem abrir mão da aliança com a Arábia Saudita, vista por Maliki como o promotor financeiro do EIIL e das tribos sunitas. O Irão apoiará financeira e militarmente as milícias xiitas que estão ao lado do exército iraquiano e, como na Síria, são fundamentais para garantir o sucesso. Os EUA podem usar drones, mas não é de esperar que mandem tropas.”

Ainda os Açores

Num ensaio publicado no sítio da Faith Foundation, há uma semana, Tony Blair, ex-chefe do Governo britânico e um dos protagonistas da invasão do Iraque em 2003, afastou responsabilidades pelo estado do país, preferindo culpar “a situação na Síria”. “Temos de nos libertar da noção de que ‘nós’ causámos isto”, disse.

Autor do livro “A Cimeira das Lajes — Portugal, Espanha e a guerra do Iraque”, Bernardo Pires de Lima conclui: “Mais do que a guerra de 2003, o pósguerra foi um dos grandes falhanços geopolíticos das últimas décadas para o Ocidente. Não garantiu um aliado confiável em Bagdade, descredibilizou-se na região com os argumentos que originaram a guerra, depauperou a sua cadeia de informações e mostrou não ter noção do planeamento pósconflito.” O resultado está à vista.

Artigo publicado no Expresso, a 21 de junho de 2014

Favorito nas presidenciais escapa a atentado

Abdullah Abdullah sobreviveu a uma dupla explosão, em Cabul. ‘Modus operandi’ do ataque aponta para os talibãs. Morreram pelo menos quatro civis

O candidato favorito às eleições presidenciais no Afeganistão sofreu, esta sexta-feira, uma tentativa de atentado, da qual saiu ileso. Abdullah Abdullah terminara uma ação de campanha, em Cabul, quando a sua caravana sofreu o impacto de duas explosões. 

Segundo o porta-voz do ministério do Interior, o cortejo foi atingido por um bombista suicida e, num segundo momento, por uma bomba colocada à margem da estrada, na área de Kote Sangi, perto do Hotal Ariana. Morreram pelo menos quatro civis.

Abdullah surgiu, de imediato, na televisão dizendo que estava bem mas que guarda-costas seus tinham ficado feridos.

O ataque não foi imediatamente reivindicado, mas o modus operandi aponta para os talibãs, que lutam para derrubar o Governo apoiado pelo ocidente e que, há menos de um mês, iniciaram a sua tradicional “ofensiva da Primavera” (operação Khyber).

A segunda volta das eleições presidenciais no Afeganistão realiza-se a 14 de junho. Abdullah Abdullah, ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, enfrentará Ashraf Ghani Ahmadzai, um ex-ministro das Finanças que trabalhou para o Banco Mundial.

Na sua conta no Twitter, Ahmadzai condenou o ataque ao seu adversário. “Isto é a ação dos inimigos do Afeganistão para perturbar o processo democrático no país.”

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 6 de junho de 2014. Pode ser consultado aqui

Espectro do terrorismo islamita volta a assustar

Dois atentados suicidas frustrados mostram o risco do terrorismo no país onde nasceu a Primavera Árabe e onde o Governo islamita moderado agoniza

Não passou de um susto, mas as duas tentativas de ataques suicidas, esta semana, na Tunísia provam que a ameaça terrorista está a ganhar dimensão. Quarta-feira de manhã, um homem fez-se explodir numa praia junto ao turístico Hotel Riadh Palm, na cidade costeira de Sousse, após ser descoberto.

Horas depois, em Monastir, igualmente na costa, as forças de segurança neutralizaram um suicida de 18 anos que planeava detonar a sua carga junto ao mausoléu do ex-Presidente e líder da independência tunisina Habib Bourguiba.

Vários suspeitos foram detidos e a segurança foi reforçada. Segundo Mohamed Ali Laroui, porta-voz do Ministério do Interior, o grupo salafita Ansar al-Sharia (Defensores da lei islâmica literal) está envolvido. O Governo de Tunis já o tinha rotulado de “organização terrorista”.

Na véspera desta jornada tensa, o embaixador português em Tunis alertava, numa conferência no Instituto de Defesa Nacional, em Lisboa, para o “fenómeno perigoso e imprevisível” que constitui o salafismo jihadista na Tunísia. “Pela primeira vez, ouço tunisinos reconhecerem que há um problema de terrorismo que tem de ser enfrentado”, disse Luís Faro Ramos.

Farol da Primavera Árabe, a Tunísia encontra-se num impasse quase três anos após a queda do ditador Ben Ali. “Hoje, a situação política assemelha-se a um processo de ajustamento de placas a seguir a um tremor de terra”, explicou o embaixador.

Ao ritmo das estações

Para este diplomata, desde a revolução de 14 de janeiro de 2011 o processo tunisino já percorreu todas as estações do ano. “A primavera durou até às eleições de outubro de 2011, ganhas pelo partido islamita Ennahda. O resultado surpreendeu muitos tunisinos que não se tinham dado conta que por baixo da ‘Tunísia de Ben Ali’ havia um país diferente. A vitória islamita iniciou um verão que se transformou em outono a 6 de fevereiro de 2013 quando se registou o primeiro assassínio político (do opositor Chokri Belaid). O outono transformou-se em inverno a 25 de julho com o segundo assassínio (do opositor Mohamed Brahmi). Agora, a primavera volta a espreitar.”

Na semana passada, islamitas (no poder) e oposição iniciaram um “diálogo nacional”. Sobre a mesa está a aprovação da Constituição, a escolha de um novo Governo provisório e a realização de eleições legislativas e presidenciais. Para Faro Ramos, o país tem instrumentos que podem contribuir para o cumprimento desses desafios: capacidade de diálogo, propensão para o consenso e aversão à violência e, ainda, “não-papel” das Forças Armadas, que se têm mantido equidistantes. “O tunisino privilegia a concertação o que, às vezes, pode criar a impressão de que as coisas demoram. Na verdade, as coisas vão-se fazendo, ao ritmo deles.”

(IMAGEM PIXABAY)

Artigo publicado no Expresso, a 2 de novembro de 2013

Samantha, britânica, viúva e terrorista

Um dos principais suspeitos do ataque ao centro comercial de Nairobi é uma britânica de 29 anos. Há algum tempo que Samantha Lewthwaite está associada a atividades terroristas

Samantha Lewthwaite é uma britânica de 29 anos suspeita de ser um dos principais operacionais da célula terrorista que atacou o centro comercial de Nairobi.

Branca, loira e mãe (as informações sobre o número de filhos variam entre os dois e os quatro), ela é a viúva de Germaine Lindsay, um dos quatro bombistas suicidas dos atentados de 7 de julho de 2005, em Londres (56 mortos).

As suspeitas sobre Samantha decorrem de testemunhos de sobreviventes, que afirmam ter visto “uma mulher branca, velada” entre os sequestradores. Alguns dizem mesmo que a mulher era a voz de comando entre os terroristas.

Segundo o diário britânico “The Mirror”, o grupo terrorista Al-Shabaab — que reivindicou o ataque — louvou, numa mensagem no Twitter, a “irmã branca” e manifestou orgulho em te-la nas suas fileiras. A conta @HSM_PRESS2 foi, entretanto, suspensa.

Uma jovem normal

Filha de um militar, Samantha é oriunda de Banbridge, County Down, na Irlanda. Aos 15 anos, converteu-se ao Islamismo e, em 2002 — tinha 18 anos —, casou-se com Germaine Lindsay, nascido na Jamaica, também ele, um convertido à religião muçulmana.

Educado pela mãe, na área de Huddersfield, West Yorkshire, Germaine (conhecido por Abdullah Shaheed Jamal) nunca escondeu os seus pontos de vista extremistas, tendo mesmo alarmado alguns professores pelas suas tentativas de radicalizar alunos mais novos.

Em setembro de 2003, o casal estabeleceu-se em Aylesbury, Buckinghamshire. “Ela era uma rapariga média, britânica, jovem, normal. Tinha uma grande personalidade. Não tinha muita confiança”, testemunha Raj Khan, vereador do distrito de Aylesbury, que conhece a família de Samantha.

Após o 7 de julho de 2005, onde Germaine matou 26 pessoas após fazer-se explodir na estação de metro de King’s Cross, Samantha foi dada como fugitiva, juntamente com os filhos.

Um rasto de atividades suspeitas 

Em dezembro de 2011, a polícia queniana invadiu um apartamento em Mombaça, onde encontrou químicos semelhantes àqueles usados nos ataques de Londres. O apartamento estava arrendado em nome de Samantha, que, porém, não foi capturada.

No local, foi detido um britânico, convertido ao Islão, Jermaine Grant, que afirmou trabalhar para Samantha. O julgamento de Grant, de 30 anos, começou hoje, em Mombaça, sob fortes medidas de segurança.

A 29 de fevereiro de 2012, o influente “The Times” publicou uma foto de Samantha na capa e titulou: “Viúva de bombista do 7 de julho perseguida em alerta terrorista”.

O artigo referia que Samantha, que usava várias identidades, incluindo a verdadeira, era procurada pelas autoridades quenianas por suspeitas de envolvimento em atividades terroristas. No mês seguinte, Samantha terá fugido para a Somália.

“Em artigos na imprensa, Lewthwaite tem sido descrita como uma financiadora, recrutadora e treinadora da Al-Qaeda e a criadora de um esquadrão jihadista feminino em África”, escreve o “Christian Science Monitor”. “Ela tem sido acusada de orquestrar ataques com granadas em centros de oração de ‘infiéis do Islão’ e cre-se que está por detrás do ataque num bar de Mombaça durante a transmissão de um jogo (Inglaterra-Itália) do Euro 2012.”

Um dos falsos passaportes que Samantha Lewthwaite terá usado
Samantha Lewthwaite, de 29 anos, nasceu na Irlanda do Norte
Samantha é viúva de um dos bombistas suicidas do atentado de 7 de julho de 2005 em Londres
As autoridades quenianas acreditam que a jovem ajudou a organizar o atentado ao centro comercial Westgate
Há relatos de sobreviventes que dizem ter visto “uma mulher branca, velada” entre os sequestradores

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 24 de setembro de 2013. Pode ser consultado aqui

Foguetes atingem estância israelita

Dois foguetes caíram em Eilat, um importante destino turístico no Mar Vermelho. Não provocou vítimas, mas relança o problema da insegurança na península egípcia do Sinai

A cidade israelita de Eilat foi atingida, na quarta-feira de manhã, por dois foguetes. Um caiu numa zona residencial, o outro numa área desabitada. O ataque provocou estragos, mas não se registaram feridos.

O Exército israelita disse que os foguetes foram disparados por terroristas islamitas, a partir da península egípcia do Sinai. Inicialmente, as autoridades egípcias negaram essa possibilidade, mas mais tarde anunciaram uma inspeção à região na procura de indícios.

Ao início da tarde, o diário israelita “Haaretz” escreveu que o ataque foi reivindicado pelo grupo salafita Magles Shoura al-Mujahddin, em retaliação à forma como as forças israelitas lidaram com os protestos de palestinianos relativos à morte de um prisioneiro.

O aeroporto de Eilat esteve temporariamente encerrado. Segundo o “Jerusalem Post”, mal soaram as sirenes de alarme, os turistas foram conduzidos para salas de segurança, nos hotéis.

Há duas semanas, uma bateria do escudo israelita antimíssil Cúpula de Ferro foi instalada perto de Eilat, que é simultaneamente um importante destino turístico no Mar Vemelho. Hoje, o sistema não foi utilizado.

A Rádio de Israel chegou a noticiar que dois outros foguetes tinham sido disparados contra Aqaba, uma estância em território jordano, a poucos quilómetros de Eilat. Mais tarde, as autoridades da Jordânia desmentiram.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 17 de abril de 2013. Pode ser consultado aqui