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A janela está a fechar-se e a Europa ainda não sabe como responder à anexação israelita da Palestina

Onze ministros dos Negócios Estrangeiros da União Europeia — incluindo o português — querem que Bruxelas elabore um documento com opções de resposta ao plano de Israel para anexar partes da Cisjordânia palestiniana. “É importante haver clareza sobre as implicações legais e políticas da anexação”, alertam

Há cerca de 30 anos, comentando a postura da União Europeia durante a Crise do Golfo — desencadeada pela invasão iraquiana do Kuwait, em 1990 —, Mark Eyskens, então ministro dos Negócios Estrangeiros da Bélgica (e posterior primeiro-ministro), afirmou que a Europa era “um gigante económico, um anão político e um verme militar”.

Nos dias que correm, a questão da Palestina talvez seja dos assuntos onde essas dimensões são mais evidentes. A União Europeia (UE) é um importante parceiro económico de israelitas e palestinianos mas, em matéria política, revela-se incapaz de tomar iniciativas que contribuam para travar o desgaste contínuo da perspetiva de paz entre os dois povos.

Essa erosão pode conhecer novo capítulo se Israel for avante com a intenção de estender a sua soberania a até 30% da Cisjordânia ocupada, e em relação à qual ainda não se conhece uma posição de força por parte dos europeus.

“Falta uma estratégia política comum contra a violação contínua dos direitos humanos do povo palestiniano e, neste caso específico, de uma nova anexação ilegal de território palestiniano”, diz ao Expresso Giulia Daniele, investigadora no Centro de Estudos Internacionais do ISCTE, de Lisboa.

Recentemente, 11 ministros dos Negócios Estrangeiros europeus — entre os quais o português Augusto Santos Silva — deram conta desse desnorte e enviaram uma carta conjunta a Josep Borrell, chefe da diplomacia dos 27. Acreditam que Israel pode ser dissuadido de avançar com a anexação se for alvo de medidas punitivas e solicitaram uma lista de ações possíveis.

“Gostaríamos de ver um documento, elaborado em estreita consulta com a Comissão, que forneça uma visão geral das relações entre a UE e Israel, uma análise das consequências legais da anexação, bem como uma lista de possíveis ações como resposta”, lê-se na missiva enviada a 10 de julho.

“É importante haver clareza sobre as implicações legais e políticas da anexação”, continuam. “Compreendemos que este é um assunto sensível e que o tempo é importante, mas o tempo também é curto. Estamos preocupados que a janela para impedir a anexação se feche rapidamente.”

Para a UE, a anexação constitui a machadada final na solução de dois Estados (para dois povos), que continua a marcar a sua narrativa, ainda que no terreno essa seja uma realidade cada vez mais difícil de acontecer.

“Continuar a falar sobre a solução de dois Estados é irrelevante e fora do contexto atual, que demonstra como isso já não é possível nem praticável sob nenhum ponto de vista”, defende a investigadora do ISCTE. “Pelo contrário, analisar com mais profundidade os factos no terreno e levar em maior consideração o que está a acontecer dentro das sociedades israelita e palestiniana poderia ajudar a UE a consolidar o seu papel no debate atual.”

Uma questão moral e legal

Se Israel concretizar a anexação — estendendo a sua soberania às áreas dos colonatos judeus e às terras férteis do Vale do Jordão —, na prática uma Palestina independente ficará condenada a um rendilhado de pequenos territórios não contíguos que impossibilita um Estado viável.

Para lá da dimensão moral, a perspetiva de Israel tomar terras palestinianas é também uma questão legal, já que viola o direito internacional. “Qualquer violação do direito internacional deve ser condenada”, defende Giulia Daniele.

“Se essa prática continuar, é necessário tomar decisões para contrariá-la, como, por exemplo o uso de sanções, que já aconteceu em muitos outros contextos históricos. A UE deve ter a coragem de propor uma política própria no sentido de influenciar as decisões da agenda internacional e de condenar abertamente a continuação do regime de apartheid” que visa os palestinianos.

Além de Portugal, assinaram a carta enviada ao Alto Representante da UE para a Política Externa e de Segurança a Bélgica, Irlanda, Itália, França, Malta, Suécia, Dinamarca, Luxemburgo, Holanda e Finlândia.

Do rol, apenas Malta e Suécia reconhecem o Estado da Palestina — fizeram-no em 1988 e 2014, respetivamente. Entre os 27, há outros países que também reconhecem a Palestina a nível bilateral, mas alguns comportam-se hoje de forma contrária à posição que assumiram no passado.

É o caso da Hungria, que reconheceu a independência da Palestina em 1988 (antes de aderir à UE) e hoje, com o nacionalista e eurocético Viktor Orbán no poder, é um dos mais sólidos defensores dos interesses de Israel, dificultando dessa forma a obtenção de um consenso na UE.

A voz de 1080 deputados

“Todos sabemos que o papel dominante sempre foi e continua a ser o da política norte-americana, mas, ainda mais neste momento de protestos tanto em Israel como nos Estados Unidos, é importante pressionar a UE a avançar finalmente com um objetivo muito simples: a aplicação do direito internacional, ao abrigo do qual o plano de anexação é ilegal.”

Recentemente, duas tomadas de posição conjuntas a nível internacional foram apelaram nesse sentido. A 23 de junho, 1080 deputados de 25 países europeus — entre os quais cinco deputados portugueses — endereçaram uma carta aos governos e líderes europeus. “A aquisição do território pela força não tem lugar em 2020 e deve ter consequências proporcionais”, defenderam.

Uma semana antes, 47 peritos das Nações Unidas na área dos Direitos Humanos adotaram uma posição pública no mesmo sentido: “A manhã seguinte à anexação será a cristalização de uma realidade já de si injusta: dois povos a viver no mesmo espaço, governados pelo mesmo Estado, mas com direitos profundamente desiguais. Esta é uma visão de um apartheid do século XXI”.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 17 de julho de 2020. Pode ser consultado aqui

As fronteiras entre Portugal e Espanha reabrem esta quarta-feira com algumas regras novas

Três meses e meio depois de Portugal fechar as fronteiras terrestres com Espanha, por causa da pandemia, as portas voltam a abrir-se entre os dois vizinhos, numa cerimónia com honras de Estado. Por terra, não haverá, pelo menos para já, qualquer tipo de controlo sanitário a quem entre e saia de Portugal, mas por via aérea e marítima as regras são mais apertadas

Vai haver controlo sanitários aos turistas que entrarem por via terrestre?

Não, pelo menos para já. Portugal vai seguir as diretrizes da Comissão Europeia, que é contra a restrição discriminatória de viajantes que circulem no interior da União Europeia. Sobre os controlos sanitários a aplicar nas fronteiras terrestres, as autoridades de saúde pública explicara ao Expresso no sábado que “ainda” se encontravam “em preparação”. Em todo o caso, as autoridades espanholas já revelaram que a partir da abertura de fronteiras, esta quarta-feira, só haverá controlos nos aeroportos, não na fronteira terrestre. A reabertura entre Portugal e Espanha terá honras de Estado. Entre Elvas e Badajoz estarão o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, e o rei Felipe VI, de Espanha, mas também os dois chefes de Governo, António Costa e Pedro Sánchez.

Como será feito o controlo sanitário a quem entre por via aérea ou marítima?

A Direção-Geral da Saúde revelou que está a preparar um reforço das medidas para todos os portos, aeroportos e aeródromos nacionais, estando em curso uma atualização das orientações produzidas. “Para o efeito estão previstas três medidas essenciais que já estão implementadas: a medição da temperatura, o reforço da informação aos passageiros, nomeadamente através da distribuição de folhetos, e o preenchimento dos PLC – cartões de localização de passageiros.” A DGS ressalva que relativamente às medidas aplicadas por outros países, nomeadamente Espanha, “estas decisões ainda estão a ser articuladas no contexto da União Europeia”

O Reino Unido vai abrir o corredor de viagens a Portugal?

Ainda é uma incógnita. O Reino Unido adiou para o final desta semana o anúncio de países que a partir de 6 de julho terão um corredor de viagens, ou seja aqueles para onde os viajantes britânicos se desloquem e fiquem isentos de quarentena ao regressarem ao país após as férias. A medida é muito importante para Portugal, sobretudo para a região do Algarve, cujo turismo depende muito dos turistas britânicos. Só no ano passado, o Turismo de Portugal contabilizou quase 10 milhões de dormidas de britânicos, um número que deu ao nosso país mais de 3 mil milhões de euros de receitas. Portugal, ao contrário da Grécia ou Espanha, pode ficar fora desta lista, por causa do elevado número de casos de covid-19 das últimas semanas, o que causa apreensão entre as autoridades e empresários.

Quem são os países que impõem restrições à entrada de portugueses?

Bulgária. Fronteiras abertas desde 1 de junho a países da UE. Quem chega de Portugal, Bélgica, Suécia e Reino Unido cumpre quarentena de 14 dias.

Estónia. Desde 1 de junho tem fronteiras abertas à UE e Espaço Schengen. Quem chega de países com uma taxa de infeção superior a 15 casos por 100 mil habitantes fica de quarentena.

Finlândia. A 15 de junho, abriu a fronteira a Noruega, Dinamarca, Islândia, Estónia, Letónia e Lituânia. Os outros fazem quarentena.

Irlanda. As fronteiras nunca fecharam, mas a quarentena é obrigatória, exceto para cidadãos da Irlanda do Norte.

Islândia. A fronteira reabriu à UE a 15 de junho. Os visitantes são testados gratuitamente (pago após 1 de julho). Quem não faz o teste fica de quarentena.

Reino Unido. A fronteira nunca fechou, mas uma quarentena de 14 dias é obrigatória desde 8 de junho.

Roménia. A fronteira está aberta para 17 países da UE e Espaço Schengen. Para outros, como Portugal, há quarentena.

E quais são os países que abrem portas a portugueses?

Alemanha. Fronteiras abertas desde 15 de junho. As restrições de viagem para 31 países europeus, incluindo os Estados-membros da UE, foram levantadas e substituídas por recomendações individuais de viagem.

Bélgica. Fronteiras abertas desde 15 de junho com UE e Espaço Schengen, sem restrições.

Croácia. Fronteiras abertas a todos os países da UE (Reino Unido incluído) desde 15 de junho.

França. Fronteiras abertas e sem restrições desde 15 de junho para os países da UE e do Espaço Schengen. Quem chega do Reino Unido tem de ficar 14 dias em quarentena, uma medida recíproca ao que acontece em solo britânico.

Holanda. Abriu as fronteiras a 15 de junho a cidadãos de 12 países europeus, entre os quais Portugal. Outros 16 deverão ser autorizados até 6 de julho. Dinamarca, Suécia e Reino Unido ficam para mais tarde. Desde 18 de junho que as fronteiras estão abertas a cidadãos da UE e também da Sérvia, Suíça, Liechtenstein, Noruega e Islândia.

Itália. As fronteiras abriram a 3 de junho para países da UE (incluindo Reino Unido) e Espaço Schengen.

Luxemburgo. As fronteiras nunca fecharam.

Polónia. A 13 de junho, as fronteiras reabriram para países da UE e outros europeus, sem restrições nem quarentena obrigatória.

Suécia. As fronteiras abertas foram um pilar da estratégia sueca de combate à pandemia. Não há restrições para visitantes da UE, apenas alertas de viagem. A 30 de junho, será levantado o alerta relativamente a vários países e Portugal é um deles.

Suíça. As fronteiras reabriram-se a 15 de junho aos países da UE e do Espaço Schengen, sem restrições.

Quais são os 15 países considerados seguros e cujos cidadãos podem entrar na UE a partir desta quarta-feira?

Argélia, Austrália, Geórgia, Canadá, Japão, Montenegro, Marrocos, Tunísia, Nova Zelândia, Ruanda, Tailândia, Coreia do Sul, Sérvia, Uruguai. São estes os 14 países aos quais a União Europeia deverá concordar em abrir portas a partir de 1 de julho. O décimo quinto da lista é a China, mas, ao contrário dos restantes, para beneficiar da abertura europeia terá de garantir reciprocidade. Ou seja, em troca Pequim terá de permitir a entrada de europeus em solo chinês. Portugal tentou incluir Angola na lista, mas o país africano acaba por ficar de fora. Em causa esteve o critério de escolha: uma média de infeções por cem mil habitantes (nos últimos 14 dias) igual ou inferior à europeia registada a 15 de junho. Assim, ficam também excluídos os Estados Unidos, o Brasil, a Rússia ou a Índia.

Texto escrito com Hugo Franco e Susana Frexes, correspondente em Bruxelas.

(IMAGEM PXHERE)

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 30 de junho de 2020. Pode ser consultado aqui

Um olho no mapa, outro nos relatórios da covid

A Europa quer repor a livre circulação de pessoas, mas esbarra na instabilidade do combate à pandemia

Na Europa, a pressa em abrir fronteiras e normalizar a livre circulação de pessoas dentro do Espaço Schengen é muita, ditada em especial pela urgência em revitalizar a economia. Contudo, a persistência de focos de contágio do novo coronavírus — ao estilo de reacendimentos de um grande incêndio que custou a extinguir — obriga cada país a fazer muitos cálculos.

Nos 26 países que compõem o Espaço Schengen — 22 dos quais são membros da União Europeia — olha-se com igual cuidado para os mapas e para os boletins epidemiológicos nacionais, na expectativa de perceber quais os que são seguros e quais os que ainda justificam a imposição de restrições.

Na esmagadora maioria dos casos as reservas à reabertura de fronteiras a países que continuam a reportar diariamente um grande número de casos resolve-se com uma quarentena obrigatória de 14 dias, o que torna impraticáveis as deslocações de curta duração.

Em tempos caso de sucesso, Portugal é dos países que suscitam reticências (ver mapa). Lisboa e Vale do Tejo é uma das regiões com mais casos diários em toda a Europa. Na reunião técnica no Infarmed desta semana, especialistas admitiram a possibilidade de a região estar já a viver uma segunda vaga de covid-19. Tal obrigou à adoção de medidas restritivas em 19 freguesias de cinco concelhos, mas Portugal não é o único país europeu a ter de dar passos atrás.

De volta ao início

Na Alemanha, por exemplo, o governo estadual da Renânia do Norte-Vestefália ordenou, terça-feira, a suspensão parcial da vida pública na localidade de Gütersloh (onde vivem 370 mil pessoas), até 30 de junho, após 1553 funcionários de uma fábrica de embalar carne terem sido infetados (ver pág. 30). De igual modo, na vizinha Espanha — onde esta semana ainda estavam confirmados 12 surtos ativos — foram reintroduzidas medidas restritivas em três concelhos da província de Huesca, na comunidade autónoma de Aragão (norte).

Fora da Europa, países que já tinham dado por adquirido o controlo da pandemia — como a China, a Coreia do Sul e Israel — registaram recentemente preocupantes focos de contágio.

Aniversário agridoce

Para o projeto Schengen, que comemorou este mês 25 anos de vida — o acordo foi assinado a 14 de junho de 1985 na localidade luxemburguesa com o mesmo nome —, este encerramento generalizado de fronteiras foi algo inédito.

No passado, vários países fecharam fronteiras por iniciativa própria em circunstâncias muito específicas. Em novembro de 2015, após os atentados terroristas em Paris, a França decretou o estado de emergência e restabeleceu o controlo de fronteiras.

No ano seguinte, pelo menos sete países do Espaço Schengen reintroduziram temporariamente o controlo de passaportes em resposta ao fluxo de migrantes e refugiados para a Europa. Em maio de 2017, também Portugal suspendeu o Acordo de Schengen por ocasião da visita a Fátima do Papa Francisco. Em 2020 tudo é diferente, quer em dimensão quer ao nível da causa, que é invisível.

(IMAGEM PXHERE)

Artigo publicado no “Expresso”, a 27 de junho de 2020. Pode ser consultado aqui

“A UE está a tentar ganhar tempo. E entretanto saca milhões e milhões de euros dos recursos dos sarauís”

A questão do Sara Ocidental é, para a União Europeia, um embaraço. Enquanto as instituições políticas se empenham em aprofundar a parceria económica com Marrocos, o Tribunal de Justiça da UE diz que os acordos entre Bruxelas e Rabat, se aplicados ao território ocupado do Sara Ocidental, são ilegais. Este artigo dá voz aos 21 eurodeputados portugueses (prestes a terminar mandato) que tiveram de deliberar sobre o assunto

THE LEFT IN THE EUROPEAN PARLIAMENT

Estão quase nos antípodas um do outro, não só em termos geográficos mas políticos também. Em determinado período da História, Timor-Leste e o Sara Ocidental trilharam juntos um caminho sinuoso. “Recuemos até à década de 1970”, propõe ao Expresso Pedro Pinto Leite, da Plataforma Internacional de Juristas por Timor-Leste. “Os dois países ibéricos têm duas colónias que, num momento em que poderiam ascender à independência, são ocupadas por países vizinhos: Timor pela Indonésia, o Sara por Marrocos. Esses ocupantes vivem sob ditaduras: Suharto na Indonésia, Hassan II em Marrocos. Ambos recebem ‘luz verde’ para as invasões do mesmo homem: Henry Kissinger, secretário de Estado dos EUA. As invasões têm lugar com um mês de diferença: a do Sara em novembro de 1975, a de Timor um mês depois.”

Durante anos, Timor e Sara constaram da lista das Nações Unidas de territórios não autónomos, à espera de exercerem o direito à autodeterminação. Timor-Leste teve essa oportunidade em 1999 quando, numa consulta à população, vingou a opção pela independência. O Sara Ocidental aguarda ainda esse encontro com a História.

“Marrocos não tem legitimidade para representar o povo sarauí. A União Europeia (UE) não pode pactuar com Marrocos sobre interesses do povo do Sara”, acusa a eurodeputada Ana Gomes, a única socialista portuguesa que, a 12 de fevereiro, votou contra uma alteração ao Acordo de Pesca entre a UE e Marrocos que abriu as águas do Sara Ocidental à frota de pesca europeia.

Segundo a Comissão das Pescas do Parlamento Europeu, mais de 90% da captura feita pelos barcos de pesca europeus acontecem ao largo dos 1110 km de costa atlântica pertencentes ao Sara. “O direito de autodeterminação do povo do Sara Ocidental não é negociável a troco de vantagens político-económicas”, diz Ana Gomes. “Apoio que Marrocos beneficie de uma parceria privilegiada com a UE, mas não à custa dos direitos do povo sarauí.”

Essa alteração votada no Parlamento Europeu foi aprovada por 415 votos a favor, 189 contra e 49 abstenções. Entre os 21 eurodeputados portuguesas, apenas cinco votaram contra. Para Ana Gomes, “Portugal contradiz assim tudo o que defendeu quando se bateu pela autodeterminação do povo de Timor-Leste, levando a Austrália ao Tribunal Internacional de Justiça por pactuar com a potência ocupante relativamente a um acordo sobre o petróleo”.

“No caso de Portugal contra a Austrália”, acrescenta Pedro Pinto Leite, “os australianos defenderam-se com todos os tratados que Portugal tinha celebrado, como parte da UE, com Marrocos. Diziam eles que os portugueses atacavam a Austrália por beneficiar do petróleo no mar que pertence a Timor e, ao mesmo tempo, pescavam no mar que pertence ao Sara Ocidental. Portugal intentou uma ação contra a Austrália sem qualquer autoridade moral.”

A alteração ao Acordo de Pesca UE-Marrocos procurou dar cumprimento a objeções levantadas pelo Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE). Num acórdão de 27 de fevereiro de 2018, considerou que as águas adjacentes ao Sara Ocidental não devem ser consideradas zona de pesca marroquina já que, pelo direito internacional, Marrocos não tem soberania sobre o território.

O Expresso contactou os 21 eurodeputados portugueses no sentido de apurar que peso teve a questão do Sara no seu voto. Não responderam Nuno Melo (CDS), Fernando Ruas (PSD), Liliana Rodrigues, Maria João Rodrigues, Manuel dos Santos e Francisco Assis (PS). Cláudia Monteiro de Aguiar (PSD) esteve ausente da votação.

“Votei a favor porque esse acordo é altamente benéfico para Portugal, sobretudo para os pescadores”, diz António Marinho e Pinto (ex-MPT, depois Independente). “Eu represento o povo português, não os interesses da Frente Polisário”, a organização que luta, desde 1973, pela autodeterminação do povo sarauí.

A importância económica para Portugal do acordado foi invocada pelos deputados que votaram favoravelmente. Garantem, porém, que a questão do Sara não foi ignorada. “Tal como expresso no relatório aprovado, ‘o presente acordo não implica qualquer forma de reconhecimento da soberania de Marrocos sobre o Sara Ocidental’, traduzindo-se, isso sim, num conjunto de benefícios à população local”, diz Sofia Ribeiro (PSD).

No mesmo sentido, Pedro Silva Pereira (PSD) defende que o Acordo “não implica qualquer reconhecimento da soberania de Marrocos sobre o Sara Ocidental, antes pelo contrário”. “A União não está a antecipar o resultado do processo político sobre o estatuto definitivo do Sara Ocidental que tem lugar sob a égide da ONU”, acrescenta José Manuel Fernandes (PSD).

Não foi essa, porém, a interpretação do Governo marroquino para quem o Acordo “confirma que o reino de Marrocos é o único legalmente autorizado, no âmbito do exercício da sua soberania, a negociar e assinar acordos que incluam o Sara marroquino”, como Rabat designa o Sara Ocidental.

Ao lado de Ana Gomes, votaram também contra os parlamentares do PCP e do Bloco de Esquerda. “O meu voto contra prende-se com a defesa do direito internacional. A UE tem obrigação de deixar as águas do Sara Ocidental fora do acordo”, diz Marisa Matias (BE).

Para aceitar a aplicação do Acordo de Pesca ao Sara, o TJUE estipulou duas condições. A primeira, que houvesse uma menção explícita às águas adjacentes ao território, o que aconteceu no texto aprovado no Parlamento Europeu. “Na medida em que o Reino de Marrocos foi forçado a reconhecer no texto que a UE não confunde o território de Marrocos com o Sara Ocidental, este Acordo deve até ser visto como um passo importante a favor da causa da autodeterminação do povo do Sara”, defende Ricardo Serrão Santos (PS).

A segunda exigência do Tribunal foi a obtenção do “consentimento” por parte da povo do Sara Ocidental, que a Comissão Europeia tomou em mãos promovendo um “processo de consulta” muito polémico. “A consulta em Bruxelas e em Rabat. A Comissão Europeia não viajou até ao Sara Ocidental”, denuncia ao Expresso a espanhola Elvira Toledo, conselheira do grupo da Esquerda Unitária / Esquerda Nórdica Verde no Parlamento Europeu. “A consulta é uma figura que não existe para o Tribunal. A Comissão inventou esse procedimento para tentar dar cumprimento à sentença mas é um procedimento falso.”

No relatório que produziu após a “consulta”, a Comissão diz ter ouvido o Governo de Marrocos, organizações políticas, socioeconómicas ou da sociedade civil “suscetíveis de representar os interesses locais ou regionais do Sara Ocidental” e a Frente Polisário, que é para a ONU o legítimo representante do povo sarauí e a quem o TJUE reconhece capacidade jurídica para atuar em seu nome.

“Na lista de associações elaborada pela Comissão são nomeadas algumas com quem a Comissão nunca se reuniu. E é dito que a maioria disse que sim, mas não se diz quantas”, acusa Elvira Toledo. “A maioria das associações são de colonos [marroquinos] e também há sarauís que vivem no território ocupado e que trabalham para Marrocos.”

Num artigo que assinou no sítio EU Observer, a eurodeputada finlandesa Heidi Hautala (Verdes), que integrou uma delegação do Parlamento Europeu que visitou o Sara Ocidental em setembro de 2018, afirma que das 112 partes que a Comissão diz ter ouvido 94 ou rejeitaram participar no processo ou nunca foram convidadas. E que “a esmagadora maioria das partes interessadas consultadas era composta por marroquinos ou representantes locais com interesse direto em preservar o ‘status quo’”.

A 6 de fevereiro de 2019, uma carta enviada ao Parlamento Europeu assinada por 98 ONG sarauís oriundas do território ocupado, dos campos de refugiados de Tinduf (Argélia) e da diáspora denunciou “consultas falsas” e apelou ao voto contra para que “a UE salve a imagem de uma instituição internacional que tem sido sempre apresentada como um ‘negociador global’ na defesa da democracia, dos direitos humanos e do Estado de Direito”.

Um simulacro de consulta

“O que a Comissão Europeia fez foi um simulacro de consulta à ‘população do Sara Ocidental’, expressão usada de forma não inocente com o objetivo de ocultar a existência de um povo sarauí. Todas as organizações sarauís foram unânimes na condenação do processo”, refere Miguel Viegas (PCP), numa posição que vincula os outros eurodeputados comunistas, João Ferreira e João Pimenta Lopes.

Mas a posição das organizações sarauís pouco eco teve. Inversamente, as diligências da Comissão convenceram os eurodeputados. “A minha posição [favorável] apoiou-se nos pareceres que atestam que foi assegurado o requisito imposto pelo Tribunal de prévio consentimento da população do Sara Ocidental, o que foi feito através da consulta dos representantes eleitos da população nas estruturas políticas locais, bem como através da audição das diversas organizações representativas da sociedade civil”, diz Carlos Zorrinho (PS).

“Compreende-se a dificuldade de identificar interlocutores locais no Sara Ocidental, considerando as circunstâncias difíceis e a instabilidade da região a vários níveis, mas muitos dos agentes locais, em consultas realizadas, reconheceram o impacto positivo desta parceria no desenvolvimento de atividades económicas locais, relacionadas com o sector das pescas”, corrobora Carlos Coelho (PSD).

“Tanto quanto pudemos apurar junto de especialistas em direito internacional, a versão aprovada respeita a jurisprudência do Tribunal de Justiça. Eis o resultado que sempre quisemos obter: realização do interesse comum de Marrocos e UE, muito relevante para Portugal, com respeito pelas normas internacionais e, em particular, pelas decisões do TJUE”, diz Paulo Rangel (PSD).

Favorável ao reforço da parceria estratégica entre a UE e Marrocos, José Inácio Faria (MPT), absteve-se. “Ao abranger as águas adjacentes aos territórios ocupados do Sara Ocidental sem uma consulta prévia plenamente democrática do povo sarauí, este Acordo não só não reconhece a soberania do povo sarauí sobre os seus próprios recursos naturais, como nem sequer lhe garante uma participação justa na contribuição financeira paga para que as embarcações europeias possam operar nessas águas” — 208 milhões de euros nos próximos quatro anos.

Os críticos da extensão ao Sara Ocidental da parceria económica com Marrocos — iniciada em 2000 com o Acordo de Associação — referem o ‘mau sinal’ que Bruxelas dá a Rabat. “Qual é o incentivo para que Rabat se empenhe de forma genuína nas conversações de paz da ONU quando tem a bênção da UE para continuar a desrespeitar o direito internacional e quando se trata de ganhar com os novos benefícios de um novo acordo comercial com Bruxelas?”, questiona a eurodeputada finlandesa.

A cada novo acordo entre Bruxelas e Rabat que implique o Sara segue uma queixa no TJUE — a Frente Polisário já o fez por quatro vezes. “A UE está a tentar ganhar tempo, dois, três anos, até que haja um novo acórdão do Tribunal que anule o Acordo”, diz Elvira Toledo. “E entretanto, são milhões e milhões de euros que sacam do espólio dos recursos dos sarauís.”

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 5 de junho de 2019. Pode ser consultado aqui

Sete do Sul mandam recados para o Norte

Estão a tornar-se rotina os encontros informais dos líderes de sete países do Sul da Europa. Depois de Atenas e Lisboa, Madrid acolheu a terceira cimeira — a primeira após as polémicas declarações do presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, que visaram membros do Sul da UE

Pela terceira vez em oito meses, sete países do sul da União Europeia reuniram-se, ao nível de chefes de Estado ou de Governo, para tomarem o pulso à União e pronunciarem-se sobre as questões do momento.

Chipre, Espanha, França, Grécia, Itália, Malta e Portugal reuniram-se em Madrid, na segunda-feira, numa cimeira informal que tinha como aliciante o facto de se seguir às polémicas declarações do presidente do Eurogrupo, o holandês Jeroen Dijsselbloem, que visaram alguns países do Sul da Europa.

Numa conferência de imprensa conjunta sem direito a perguntas por parte dos jornalistas, o Presidente francês, François Hollande, recordou que “graças aos sacrifícios feitos por estes países para reduzir o défice e melhorar a competitividade, a eurozona volta a ser fiável”, escreve o “El País”.

Na mesma linha, Alexis Tsipras, primeiro-ministro da Grécia, pediu a Bruxelas flexibilidade na aplicação das regras europeias e realçou que “os superávites do norte são os défices do sul”.

O drama migratório

Quase todos ribeirinhos ao Mar Mediterrâneo — a exceção é Portugal —, os países reunidos no Palácio El Pardo abordaram a “pressão migratória extrema” que atinge sobretudo o Mediterrâneo Central. “Insistimos que a migração exige um planeamento global”, que passa por “reforçar o diálogo e a cooperação com os países de origem, trânsito e destino das migrações”, mediterrânicos, africanos e asiáticos, lê-se no comunicado final da cimeira de Madrid.

Sendo a Síria, atualmente, a principal fonte desse êxodo dramático, os sete condenaram “o ataque com armas químicas de 4 de abril em Idlib” — que segundo a Organização Mundial de Saúde provocou 84 mortos e 546 feridos —, sem atribuírem autoria. “O uso reiterado de armas químicas na Síria, tanto por parte do regime de Assad desde 2013 como por parte do Daesh, constituem crimes de guerra.”

Os países do Sul da Europa mostram-se “compreensíveis” em relação aos 59 mísseis Tomahawk lançados pelos Estados Unidos contra a base governamental síria de Shayrat, ataque “que tinha a intenção compreensível de impedir e evitar a distribuição e uso de armas químicas”. E reafirmaram que “não pode haver uma solução militar para o conflito”, apenas “uma solução política credível”.

Os sete do Sul reuniram-se pela primeira vez a 9 de setembro de 2016, em Atenas, e depois a 28 de janeiro deste ano em Lisboa. A próxima cimeira terá lugar em Chipre, após as eleições legislativas alemãs de 24 de setembro.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 11 de abril de 2017. Pode ser consultado aqui