
No Norte de África, apenas a Argélia parece ter escapado à vaga contestatária que atingiu o mundo árabe. “Houve protestos, mas não tiveram tanto peso como no Egito, Tunísia e Iémen. Isso deriva da experiência de conflitos recentes que amedronta a população na hora de sair à rua”, afirmou ao “Expresso” Eugene Rogan, professor na Universidade de Oxford. “Receiam o caos político. Sabem que o preço a pagar por desafiar o statu quo pode ser terrível e hesitam. Mas não para sempre. O mundo árabe evolui depressa e novos padrões estabelecidos num país vão influenciar os outros. A Argélia vai sentir a pressão. Seguirá o modelo marroquino, tentando fazer tantas mudanças que a oposição não exija mais? Ou como na Síria e Líbia resistirá pela força?”
No século XX, a Argélia viveu dois períodos traumatizantes: a guerra contra o colonizador francês (1954-1962), que segundo Argel fez 1,5 milhões de mortos; e uma década de violência islamita, após a anulação, pela cúpula militar, da vitória da Frente Islâmica de Salvação (FIS) na primeira volta das legislativas de 1991, que provocou 150 mil mortos. Hoje, a memória desse sofrimento parece falar mais alto na hora de protestar. Um caso elucidativo aconteceu a 29 de abril último. Rechak Hamza, um vendedor ambulante de 25 anos, imolou-se pelo fogo em Jijel (360 km a leste de Argel) após uma altercação com a polícia. Houve protestos mas logo esmoreceram. Nada como o levantamento que se seguiu à imolação do tunisino Mohamed Bouazizi, em dezembro de 2010, que culminou na queda de Ben Ali.
A 10 de maio último, o Governo de Argel foi posto à prova quando os argelinos votaram nas legislativas, as primeiras pós-Primavera Árabe. “A vitória da Frente de Libertação Nacional (FLN, ex-partido único) é um reflexo da gestão da Primavera Árabe pelo regime”, comentou ao “Expresso” Catarina Mendes Leal, autora da obra “Magrebe, Islamismo e a relação energética de Portugal”. “Apesar do descontentamento da população no início da ‘Primavera’, a aplicação de determinadas medidas atenuou e mitigou a propagação desse tipo de manifestações.”
Além da vitória da FLN, do Presidente Bouteflika — que conseguiu 220 dos 462 deputados —, o escrutínio revelou um país em contraciclo relativamente aos países da Primavera Árabe, onde as eleições têm catapultado partidos islamitas para o poder: o Movimento Ennahda (Tunísia) e o Partido Justiça e Desenvolvimento (Marrocos e Egito). Apostada na vitória, a Aliança Argélia Verde — coligação de três partidos islamitas moderados — ficou em terceiro, com 48 deputados, menos 11 do que antes.
“A Argélia tem deficiências político-institucionais, incluindo falta de participação política e repressão dos grupos de oposição”, diz a docente da Universidade Nova de Lisboa. “Há, também, uma acumulação de tensões sociais crescentes que têm a sua base no desequilíbrio demográfico que, combinado com problemas estruturais económicos, conduziu a elevadas taxas de desemprego entre os jovens. Além disso, há um conflito de valores entre as elites de influência ocidental (sobretudo francófona) e a maioria da população”.
Por consequência, “enquanto houver manutenção do statu quo do atual poder argelino, o cenário de 1991 não poderá repetir-se. A grande incerteza em torno da evolução da Argélia será após a saída de cena de Bouteflika.”
Dependente do gás argelino (50% das importações), Portugal tem razões para temer uma ‘Primavera’? “Não me parece que a integração do Islão político moderado venha a ser um foco de instabilidade que ameace o abastecimento energético a Portugal”, diz a professora. “O que pode haver é um endurecimento negocial” da parte de Argel.
Artigo publicado no “Expresso”, a 7 de julho de 2012
