À conquista do país de Kadhafi

Portugal vai abrir uma embaixada em Tripoli. Com olho nos negócios. Entrevista ao futuro embaixador português na Líbia, Rui Lopes Aleixo

Mapa da Líbia coberto pela bandeira do país DARWINEK / WIKIMEDIA COMMONS

Portugal vai finalmente abrir uma embaixada na Líbia — o país que hoje assinala o 38.º aniversário da revolução de Kadhafi e onde vivem… três portugueses. A liderar a missão — a 91.ª a abrir portas em Tripoli e a 21ª da União Europeia (UE) — estará o embaixador Rui Lopes Aleixo, que parte com uma certeza na bagagem: “Nos próximos dois anos, a Líbia será um país de oportunidades”.

Quais as prioridades desta embaixada?
Há três. Por um lado, era necessário completar a nossa cobertura dos países do Norte de África, que são a fronteira sul da Europa. Durante o processo de alargamento, a UE olhou muito mais para a fronteira leste e, infelizmente, só olhou para sul quando começou a haver problemas de terrorismo e de imigração ilegal.

E as outras duas?
Em segundo lugar, a Líbia representa um mercado potencial muito importante em termos de investimentos, de exportações e de fornecimento de gás e petróleo. Além disso, a Líbia tem um papel em África que não se pode ignorar. A influência do Presidente Kadhafi é muitíssimo importante e decisiva na União Africana que, no seu modelo actual, é uma concepção do próprio Kadhafi.

Os Estados Unidos de África…
Ainda não estamos lá, mas a Líbia é incontornável no diálogo mediterrânico. A curto prazo, a prioridade passa pela realização da cimeira Europa-África [Lisboa, 8 e 9 de Dezembro] em que Tripoli terá um papel muito importante como interlocutor da parte africana.

Qual a mais-valia do mercado líbio para os empresários lusos?
O Governo líbio tem um plano de investimentos em infra-estruturas rodoviárias e ferroviárias, hospitais e universidades que quer ver concluído a tempo de comemorar o 40.º aniversário da revolução, a 1 de Setembro de 2009, e que oferece aos nossos empresários enormes oportunidades. Amanhã partem daqui seis empresários para desenvolver contactos. Ao nível da indústria do petróleo, temos empresas com grande capacidade tecnológica para fornecer materiais e equipamentos.

Agora, as partes interessadas têm de se encontrar…
A embaixada vai criar um site” para anunciar os grandes concursos. E se a AICEP abrir uma delegação em Tripoli será a oportunidade para divulgar as oportunidades de negócio na Líbia e de apresentarmos as nossas potencialidades.

A cultura costuma ser um bom ponto de partida…
Tenho esperança que seja possível estabelecer uma cooperação cultural com a Líbia e ao nível da conservação dos sítios arqueológicos. Temos este grande elo do passado greco-romano…

A presidência portuguesa da UE tem iniciativas para impulsionar a cooperação com a Líbia?
Vamos pedir à Comissão um mandato para a negociação de um acordo de cooperação com a Líbia. Nesse mandato vai assentar o desenvolvimento de cooperação em áreas como a energia, o combate à imigração ilegal e o apoio à reestruturação económica e financeira e à exploração arqueológica.

ALVO: MAGREBE

Coma abertura da embaixada na Líbia, Portugal reforça a presença no Magrebe. O Expresso ouviu parceiros essenciais para o sucesso da cooperação. Basílio Horta, presidente da AICEP, diz que “não está prevista a abertura de uma delegação na Líbia”, mas revela que no futuro, “se o volume de oportunidades de negócios para as empresas portuguesas o justificar”. De mangas arregaçadas está o Instituto Camões, que vai iniciar actividades na Argélia e no Egipto. “Estamos a trabalhar na abertura de um leitorado na Líbia”, diz a presidente Simonetta Luz Afonso. Com delegações nos cinco países do Magrebe, o Instituto Luso-Árabe para a Cooperação orgulha-se de estar na Líbia desde 2004. Porém, o presidente Manuel Pechirra alerta para “a escassez de meios humanos e materiais que limita a actividade dos diplomatas e dificulta melhores resultados”.

Artigo publicado no Expresso, a 1 de setembro de 2007

Nos braços do inimigo

EUA dialogam com a Irmandade Muçulmana, grupo que inspirou Bin Laden. Contactos intensificaram-se este ano

Símbolo da Irmandade Muçulmana Síria SÍTIO OFICIAL

Na Casa Branca, fala-se do assunto em sussurro, não vá tornar-se um embaraço. Nos últimos meses, políticos e diplomatas norte-americanos reuniram-se discretamente com membros da Irmandade Muçulmana — o movimento sunita mais influente, que inspira grupos como o Hamas e a Al-Qaeda. “É um segredo muito mal guardado”, confidenciou ao Expresso um membro do Departamento de Estado dos EUA, a coberto do anonimato. “Nós falamos com membros da Irmandade Muçulmana egípcios, iraquianos, jordanos, porque não com os sírios?”

Tradicionalmente, os EUA não equacionam qualquer tipo de diálogo com a Irmandade Muçulmana. Porém, a ascensão política do Irão e o reforço da tendência xiita no Médio Oriente — acentuada com o novo poder em Bagdade — precipitou a discussão em Washington sobre como explorar as potencialidades de uma eventual parceria com a organização islâmica. Afinal, na Síria ela é a principal alternativa ao regime de Bashar al-Assad, na Jordânia é o partido mais representado no Parlamento (Frente para a Acção Islâmica) e no Egipto, apesar de ilegalizada, conta com 88 deputados, eleitos como independentes (20% da assembleia).

Um dos encontros mais importantes aconteceu em Janeiro, no Cairo, e teve como interlocutor do lado americano Steny Hoyer, o líder da maioria democrata na Câmara dos Representantes. Durante uma recepção na residência do embaixador norte-americano, Hoyer foi apresentado ao deputado Mohammed Saad el-Katatni, um conhecido líder da Irmandade. “Uma coisa deste género teria sempre de ser aprovada ao mais alto nível”, disse ao Expresso um alto funcionário do Congresso. “Claro que uma vez que Hoyer é um democrata podia-se sempre dizer que o encontro nada tinha a ver com a Administração, mas o pessoal na nossa embaixada no Cairo encontra-se regularmente com elementos da Irmandade”.

São várias as razões que ‘empurram’ os EUA para um diálogo forçado com a Irmandade Muçulmana. Desde logo, a necessidade de “encontrar moderados islâmicos para contrabalançar os modelos da Al-Qaeda. Se a Irmandade se encaixa nessa descrição ou se se revelará mais do mesmo, está por provar”, continua o membro do Departamento de Estado. “Há quem diga que apesar da Al-Qaeda e a Irmandade partilharem objectivos, como um novo califado ou a lei islâmica (sharia), não estão de acordo sobre como executá-los. A Irmandade sempre condenou oficialmente a violência, mas foi uma fonte intelectual para Bin Laden, já para não falar de recrutas. Terão sido essas consequências involuntárias dos ensinamentos da Irmandade?”, interroga.

Uma mulher na presidência?

O Expresso entrevistou Ali Sadreddine al-Bayanouni, o líder do braço sírio da Irmandade Muçulmana e um dos fundadores da Frente de Salvação Nacional (FSN), o maior grupo de opositores sírios no exílio. Al-Bayanouni confirma a realização de várias reuniões “desde o início do ano, em Washington” entre membros da Administração Bush e a FSN. Exilado em Londres desde 2000, revela não ter participado nos encontros por serem “restritos aos membros da FSN residentes nos EUA”. Mas confessa que não declinaria um convite para conversar com George W. Bush: “Estou disponível para um diálogo directo com quem quer que seja, no sentido de tentar compreender os seus pontos de vista”, afirma.

Considerado um moderado, Al-Bayanouni diz que a Irmandade não tem ambições políticas na Síria — onde, desde 1980, a militância na organização é punida com pena de morte. “Tudo o que exigimos é uma mudança democrática com a participação de todas as cores da sociedade”, diz. Porém, não se furta a descrever o regime de Damasco se a Irmandade ditasse leis. “Defendemos o estabelecimento de um Estado civil, com instituições resultantes de eleições livres e democráticas. Logo, temos de aceitar os resultados, quer o vencedor seja homem ou mulher, muçulmano ou não”. A teocracia é, pois, um mito.

Unidos contra Bashar

São dos homens mais procurados na Síria. Ali Sadreddine al-Bayanouni (de óculos), 68 anos, lidera o braço sírio da Irmandade Muçulmana. Fugiu do país em 1979 durante uma campanha de repressão contra a organização islâmica. Abdul Halim Khaddam, 74 anos, foi vice-presidente da Síria entre 1971 e 2005, altura em que se rebelou contra o regime de Bashar al-Assad e se refugiou em Paris. Hoje, são parceiros numa estratégia que visa a mudança de regime na Síria — expressa na Declaração de Damasco de Outubro de 2005. Em Março de 2006, formaram a Frente de Salvação Nacional, uma coligação de forças de oposição, no exílio, que já está em diálogo com a Casa Branca.

IRMANDADE MUÇULMANA

Origem
Fundada em 1928 por Hassan al-Banna, um professor egípcio de 22 anos, a “Sociedade dos Irmãos Muçulmanos” assume-se como um movimento sunita revivalista posterior à queda do Império Otomano. Opõe-se à disseminação dos ideais seculares e ocidentais pelo Médio Oriente.

Slogan
“Alá é o nosso objectivo, o Profeta é o nosso líder, o Alcorão é a nossa lei, a Jihad (guerra santa) é a nossa via e a morte em nome de Alá é a maior das nossas aspirações”.

Objectivos
Formar o indivíduo muçulmano; formar a família muçulmana; formar a sociedade muçulmana; formar o Estado muçulmano; formar a ‘Khilafah’ (a unidade entre Estados islâmicos); dominar o mundo através do Islão.

Implantação
A Irmandade Muçulmana tem ramos em cerca de 70 países, da Somália aos Estados Unidos. Reivindicam a participação em conflitos como as guerras israelo-árabes, na Argélia, no Afeganistão ou na Caxemira.

Sítio oficial (em inglês)
www.ikhwanweb.com
À hora de fecho desta edição, num inquérito aos internautas sobre se a Irmandade devia encetar o diálogo directo com os EUA, 51,8% diziam sim.

Artigo publicado no Expresso, a 4 de agosto de 2007

“O regime sírio tem cobertura dos Estados Unidos”

É o líder do braço sírio da Irmandade Muçulmana, a organização islâmica mais influente no mundo. Exilado no Reino Unido, Ali Sadreddine al-Bayanouni, um advogado de 68 anos considerado um moderado, luta pela mudança de regime no seu país. Entrevista

Ali Sadreddine al-Bayanouni, líder do braço sírio da Irmandade Muçulmana ALCHETRON

Confirma a existência de reuniões entre elementos da Administração norte-americana e da Frente de Salvação Nacional (FSN, o maior grupo de opositores ao regime sírio, no exílio)?
Sim, houve encontros em Washington. Foram do conhecimento de todos. Aconteceram três ou quatro vezes, desde o início deste ano.

Participou nalgum?
Não. Foram restritos a membros da FSN que vivem nos Estados Unidos.

Esteve presente algum membro da Irmandade Muçulmana?
Ninguém da Irmandade esteve presente porque o escritório da FSN em Washington não tem membros da Irmandade.

De quem foi a iniciativa dos encontros?
Inicialmente, houve um pedido da FSN. Mas depois foram os americanos a solicitar as reuniões.

O que foi discutido?
A situação na Síria e o pedido da FSN para que os americanos deixem de apoiar o regime sírio.

Os Estados Unidos apoiam o regime de Damasco? De que forma?
O regime sírio beneficia de cobertura por parte dos Estados Unidos, da comunidade internacional e também dos governos árabes. Há alguma pressão exercida pela diplomacia americana no sentido do regime demonstrar uma boa conduta. Mas isso é feito não no sentido de contribuir para uma melhoria da democracia, da liberdade de expressão ou de outros valores democráticos na Síria, mas antes em nome do interesse americano na região.

“Aceitaria falar directamente com George W. Bush”

As sanções económicas podem ser uma forma de pressionar o regime sírio?
A Irmandade Muçulmana rejeita qualquer tipo de sanções, que puniriam o povo e não o regime. Tudo o que pedimos à comunidade internacional é que diminua o seu apoio ao regime despótico sírio e que imponha sanções contra pessoas do regime.

Pode dar um exemplo da cobertura internacional a Damasco?
A comunidade internacional continua a lidar com o regime sírio de uma forma natural. O regime não foi boicotado politica ou diplomaticamente. De tempos a tempos, realizam-se visitas. Os ministros dos Negócios Estrangeiros espanhol e francês foram à Síria, congressistas norte-americanos também.

Essas visitas são um erro?
São um grande erro, porque fortalecem a moral do regime numa altura em que ele deveria ser cercado e enfraquecido.

Aceitaria falar directamente com George W. Bush sobre estas questões?
Já declarei em muitas ocasiões que estou disponível para um diálogo directo com qualquer pessoa, quem quer que ela seja.

Não teme que o diálogo entre a Irmandade Muçulmana e os Estados Unidos possa desacreditar a organização junto de alguns sectores no mundo árabe?
Somos muito claros e abertos nos diálogos que promovemos. Preocupamo-nos com o direito do nosso povo à democracia, sem qualquer tipo de intervenção estrangeira, sem ocupação e sem debilitar os direitos dos sírios.

Sabe se há contactos entre os Estados Unidos e a Irmandade Muçulmana egípcia e jordana?
Só sei o que veio nos jornais, nomeadamente um encontro entre deputados egípcios que são membros da Irmandade Muçulmana e um político norte-americano que visitou o Egipto.

Os vários braços da Irmandade Muçulmana não se contactam?
De tempos a tempos, há reuniões consultivas, mas não se fala desse tipo de assuntos.

A Al-Qaeda é um perigo maior para os muçulmanos do que para os não-muçulmanos

A Irmandade Muçulmana quer conquistar o poder na Síria?
Absolutamente. Tudo o que exigimos é uma mudança democrática no país, com a participação de todas as cores da sociedade síria.

Bashar al-Assad desiludiu-o enquanto Presidente?
Não me desiludiu porque eu não esperava que ele promovesse qualquer mudança democrática. Ele é filho do Grande Assad e faz parte desse regime. Não tem qualquer projecto democrático para a Síria, é a continuidade do pai.

Movimentos como o Hamas e a Al-Qaeda dizem-se inspirados pela Irmandade Muçulmana. A organização tem laços com esses movimentos?
Em relação à Al-Qaeda, não há qualquer tipo de ligação ou contacto. Há mesmo grandes diferenças entre as duas organizações. A Al-Qaeda vê os membros da Irmandade como renegados e infiéis. Em relação ao Hamas, que está alinhado com a Irmandade em termos ideológicos e políticos, há circunstâncias especiais que se prendem com a ocupação da Palestina.

Sente a Al-Qaeda como uma ameaça, como quase todo o mundo?
A Al-Qaeda é um perigo maior para os muçulmanos do que para os não-muçulmanos, maior nos países islâmicos do que nos ocidentais. A pressão exercida sobre os partidos e líderes islâmicos moderados só aumenta esse perigo cada vez mais.

Como se pode combater a Al-Qaeda?
Temos de nos concentrar no seu pensamento ideológico. São muito extremistas, não aceitam o outro. Por outro lado, não devemos anular os moderados. Quando a ideologia moderada é aberta, o pensamento extremista adapta-se.

O senhor é considerado um moderado, mas no Ocidente vinga a ideia que a Irmandade é, por natureza, radical. Se a Irmandade subisse ao poder na Síria, uma mulher poderia tornar-se Presidente, por exemplo?
O Ocidente tem uma informação muito limitada em relação ao Islão e à Irmandade. O nosso projecto político pode ser consultado no nosso sítio na Internet, em inglês, e lá está expressa a posição do Islão e da Irmandade em relação às mulheres. Nós apelamos ao estabelecimento de um Estado civil, com instituições resultantes de uma escolha livre e democrática. Ora, se nós apelamos à realização de eleições livres, devemos aceitar os resultados, quer o vencedor seja homem ou mulher, muçulmano ou não-muçulmano.

Artigo publicado no Expresso Online, a 3 de agosto de 2007. Pode ser consultado aqui

Alemães cantam vitória

Desgastados por um final de presidência inesperadamente turbulento, os germânicos estão satisfeitos com os resultados finais. E estão mesmo convencidos que facilitaram a vida à presidência portuguesa. Reportagem em Berlim 

A escassos dias da transferência para Portugal da presidência da União Europeia, os alemães não disfarçam a sensação do dever cumprido. O Conselho de Bruxelas sobre o futuro tratado da União saldou-se num acordo a 27 e Berlim respirou fundo.

Era claro desde o início que esta presidência iria ser julgada pela questão da Constituição, comentou Hubert Wetzel, jornalista da edição alemã do Financial Times, durante um seminário sobre as conclusões da presidência germânica que decorreu em Berlim.

Verificada a check-list das promessas feitas e dos resultados efectivamente obtidos, a diplomacia alemã estima que 80% dos dossiês fecharam conforme o previsto.

Ao nível dos sucessos, Berlim destaca o reforço do Frontex, sobretudo no campo das fronteiras marítimas, e a adopção do Tratado de Prum, um mecanismo de cooperação policial que, em nome do combate ao crime, prevê o acesso automático a registos de ADN, impressões digitais e registos de veículos.

Também no campo do combate anti-terrorista, e não para espiar ninguém, como refere Thomas Binder, que integrou a task force da presidência do Ministério do Interior, regista-se o lançamento do programa Check the web (Verificar a rede), que visa colocar técnicos europeus a patrulhar a internet em busca de indícios terroristas.

O desenvolvimento desta iniciativa alemã transita agora para a presidência portuguesa.

Com as alterações climáticas na ordem do dia, os alemães elogiam também o acordo obtido ao nível da política ambiental. Angela Merkel foi bem sucedida ao obter um consenso, mas não tão bem sucedida se olharmos ao que temos pela frente, diz Hermann Scheer, deputado pelo SPD e uma autoridade mundial em matéria energética em 1999 recebeu o Prémio Nobel Alternativo e em 2002 foi uma das figuras do ano para a revista Time.

Acérrimo defensor das energias renováveis, o próprio Scheer aconselhou Merkel neste domínio. Ela está num processo de aprendizagem. Ainda não conseguiu alterar a tendência nesta matéria dentro do seu próprio partido (CDU), diz Scheer. Há mais vontade, mas ainda não é suficiente.

À cabeça da lista de frustrações está o malogro na tentativa de negociação de um acordo de parceria e cooperação com a Rússia. Em Berlim, reina a percepção que, pelo menos até às presidenciais de Março de 2008, Moscovo deverá permanecer um parceiro desinteressado em grandes decisões com a UE.

Em estado de graça está Angela Merkel, que se revelou uma negociadora persistente, comentou Daniela Kietz, do Instituto Alemão para Assuntos Internacionais e de Segurança.

Ela luta pelas coisas sem exagerar, diz. Bem diferente do antecessor, Gerhard Schroeder, que gostava de se pavonear de charuto na mão e de afirmar a sua autoridade dando murros na mesa.

EM OFF

Referendar ou não referendar?, eis a questão

O processo de ratificação do futuro tratado será sempre uma decisão nacional dos 27, mas pelos corredores da presidência alemã prevalece a sensação de que documentos como o Tratado Reformador não são o melhor tipo para serem submetidos a referendo, sobretudo em países que não têm essa tradição política. Na memória está ainda a experiência amarga dos referendos na França e na Holanda que ditaram a morte do Tratado Constitucional na Holanda tratou-se do primeiro referendo de sempre. Por razões constitucionais, a Irlanda irá referendar o tratado. Mas a perspectiva dos referendos serem utilizados como armas de arremesso contra os governos nacionais faz com que essa forma de ratificação não colha muita simpatia em Berlim, mais favorável à aprovação parlamentar.

Portugal, do nervosismo ao brilharete

No início, os alemães sentiam os portugueses nervosos, não fosse a presidência alemã traduzir-se num presente envenenado em matéria de tratado. Durante seis meses, a pressão de Lisboa sobre Berlim para a obtenção de um consenso foi uma constante. No final, obtido o mandato aberto solicitado por Lisboa para a redacção do futuro Tratado Reformador da União Europeia, estão abertas as portas para um brilharete da diplomacia lusa. 90 a 95% do trabalho que Portugal tem agora pela frente é essencialmente técnico. De forma inédita, as querelas políticas foram limadas ainda antes da abertura da Conferência Intergovernamental (CIG), o que, para os alemãs aumenta ainda mais a responsabilidade lusa na conclusão deste dossiê.

Varsóvia não estudou a matéria toda

Em Berlim, há quem esteja convencido que os gémeos Kaczynski, que tantas dores de cabeça deram aos alemães na cimeira de Bruxelas, não estavam conscientes de que a CIG podia ser aberta sem a unanimidade dos 27. Daí que quando Angela Merkel fez tábua rasa das exigências polacas e ameaçou iniciar o processo a 26, só então Varsóvia se apercebeu dessa falha no seu plano. Berlim garante que jogou limpo e que em Abril, em nome da transparência negocial, avisara Varsóvia que, nesta questão, não havia lugar a vetos nacionais. Mas alguém deve ter-se esquecido de alertar os manos Kaczynski que, nos tempos mais próximos, pagarão uma pesada factura ao nível da credibilidade política.

Tony Blair, um enviado polémico

A nomeação do ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair como enviado especial do Quarteto para o Médio Oriente não causa particular excitação em Berlim. A presidência alemã tinha na reabilitação do Quarteto (EUA, UE, ONU e Rússia) uma das suas prioridades em matéria de política externa, mas Blair não constava dos planos. Os alemães não escondem inclusive um certo desconforto perante a forma como a nova missão de Blair foi acordada em nome do Quarteto, mas à margem do Quarteto… Daí que em Berlim há quem relembre que o mandato de Blair cinge-se a questões económicas… Não vá Blair, o aliado de George W. Bush na guerra do Iraque, atrever-se a fazer intervenções políticas num Médio Oriente prestes a pegar fogo.

(Imagem: Logotipo da presidência alemã da União Europeia, no primeiro semestre de 2007)

Artigo publicado no Expresso Online, a 28 de junho de 2007. Pode ser consultado aqui

CIA já está no terreno

Equipas de operações especiais dos EUA estarão secretamente em território iraniano

O sentimento não é consensual, mas há quem considere que a guerra no Irão é já uma realidade. “Silenciosamente, pela calada, escondida das câmaras, a guerra no Irão já começou. Várias fontes confirmam que os Estados Unidos, empenhados na desestabilização da República Islâmica, aumentaram a ajuda a movimentos armados entre as minorias étnicas azeri, baluque, árabe e curda, que correspondem a cerca de 40% da população iraniana” — é assim que Alain Gresh, editor do ‘Le Monde Diplomatique’ e especialista em Médio Oriente, inicia um artigo divulgado esta semana.

Ao Expresso, Gresh explica o raciocínio: “Os planos militares de que ouvimos falar nos EUA não visam a invasão. Os americanos não têm tropas para isso, mas pensam que se bombardearem massivamente as instalações nucleares e os comandos político e militar beneficiarão da impopularidade do regime e da ajuda dos azeris, árabes e curdos e provocarão uma mudança de regime”.
Em Abril, a televisão ABC noticiou que os EUA tinham apoiado o grupo baluque Jund al-Islam (Soldados do Islão), responsável por um ataque que matou guardas revolucionários iranianos. “Este tipo de apoioé perigoso”, diz Gresh. “Pressupõe que no Irão não há nacionalismo persa, que há azeris, curdos e que podemos usá-los. Isto foi feito no Iraque com o resultado que conhecemos…” Acredita-se que equipas de operações especiais e da CIA foram já colocadas no terreno no Irão para assinalar alvos, estudar o território e fomentar a rebelião. Pelo menos desde 2002 que grupos de planeamento da força aérea estão a “listar alvos” e os chefes de estado-maior completaram recentemente planos de contingência que permitiriam a Bush atacar o Irão em 24 horas.

Pelo menos desde 2002 que grupos de planeamento da Força Aérea dos EUA estão no Irão para listar alvos, estudar o território e fomentar a rebelião

O Pentágono tem dois porta-aviões no Golfo Pérsico que dão aos EUA a capacidade de manter uma longa campanha de bombardeamentos. O novo comandante militar regional, almirante William Fallon, é perito na coordenação do tipo de operações combinadas terra-ar.

Rufam os tambores da guerra

No círculo próximo do Presidente dos EUA não falta quem considere que é uma obrigação moral tratar do Irão antes de Bush deixar a Casa Branca. O vice-presidente Dick Cheney disse-o em público e John Bolton, o pouco diplomático ex-embaixador dos EUA na ONU, já começou a rufar os tambores. “Se a escolha é entre um Irão com capacidade nuclear e o uso da força, então temos de usar a força”, disse Bolton ao ‘The London Telegraph’. Para ele, vive-se um momento comparável àquele em que Hitler deveria ter sido parado, após a ocupação alemã dos Sudetas, e o mundo não fez nada.

Vincent Cannistraro, ex-chefe do departamento de contraterrorismo da CIA, disse ao Expresso que “a decisão de atacar o Irão foi adiada e é pouco provável que seja tomada este ano”. Cannistraro, ainda hoje próximo dos corredores da segurança nacional, não duvida que uma decisão para atacar o Irão seja possível, embora informações recentes estimem que as reacções a um tal assalto seriam “terríveis”, pois “destruiria a última hipótese de Bush estabilizar o Iraque”. No palco iraquiano, multiplicam-se entretanto sinais de nervosismo em relação a um conflito iminente: aviões de vigilância americanos sobrevoam o espaço aéreo iraniano; tropas americanas invadiram o consulado persa no Norte do Iraque capturando seis iranianos; os EUA têm açambarcado “stocks” de petróleo; milhares de ‘marines’ têm sido deslocados para a fronteira Iraque-Irão e a aviação é usada com cada vez mais agressividade.

Para Alain Gresh, um grande conflito armado no Irão não é “inevitável”. A situação no Iraque e a contestação interna desaconselham a Administração Bush a uma nova frente de guerra. Mas há motivações para o conflito. “A principal é talvez a forma como Bush vê o mundo. Ele vê-se como o líder de uma nova guerra mundial, à semelhança de Churchill na II Guerra. Bush já deixou claro que a luta é ideológica”. Em pleno Congresso o ex-conselheiro para a Segurança Nacional, Zgbniew Bzrezinski, considera que os EUA estão a caminho de um “pântano que durará 20 anos ou mais e estender-se-á ao longo do Iraque, Irão, Afeganistão e Paquistão”.

Artigo escrito em colaboração com TonyJenkins, correspondente em Nova Iorque

OUTRAS OPERAÇÕES SECRETAS

1953, Irão
A CIA e o MI6 orquestram a deposição do primeiro-ministro, Mohammed Mossadegh, e a subida ao poder do Xá

1961, Cuba
A CIA patrocina a malograda invasão da Baía dos Porcos e várias tentativas para assassinar Fidel Castro

1967, Bolívia
Uma operação militar organizada pela CIA culmina na captura e execução de Che Guevara pelo Exército boliviano

1968, Iraque
A CIA apoia o golpe contra Rahman Arif que coloca o Partido Baas no poder

1975, Angola
EUA começam a apoiar a UNITA

1979, Nicarágua
Início do apoio aos Contras, opositores do Governo sandinista

“DESTRUIR 30 ALVOS IMPLICA CHUVA DE BOMBAS”

Para o israelita Ely Karmon, investigador do Herzlya, centro de contraterrorismo, Irão, Síria, Hamas e Hezbollah formam o “eixo da desestabilização”. Entrevista

Como antevê o desfecho da crise nuclear iraniana?
Não creio que as sanções vão resultar. A Rússia parou de construir a central de Bushehr e de fornecer urânio, mas se calhar é tarde de mais… Outra opção é uma acção militar por parte dos EUA. Uma terceira é permitir que o Irão se nuclearize e depois ser dissuadido, mas não creio que esta seja a melhor solução pois permitirá aos iranianos serem muito mais agressivos.

Israel pode atacar o Irão como fez em 1981 contra o reactor iraquiano de Osirak?
Não é possível. Os peritos militares dizem que para destruir as cerca de 30 instalações nucleares, algumas enterradas a grande profundidade, seriam necessárias pelo menos duas a três semanas de bombardeamentos permanentes, o que é uma missão muito difícil, mesmo para Israel.

Teme uma proliferação nuclear no Médio Oriente?
Já começou, na Jordânia, no Egipto, nos países do Golfo… Na Turquia discute-se o assunto. A Turquia beneficia do chapéu nuclear da NATO mas não sei se o considera suficiente. Acho que a Turquia vai optar pelo nuclear.

Tem havido contactos oficiais entre os EUA e a Síria…
Também os europeus têm tentado tirar a Síria deste ‘eixo’. Os sírios continuam a entregar armas ao Hezbollah e a liderança do Hamas que está a sabotar o processo de paz está em Damasco. O regime sírio tem medo das consequências da paz e prefere correr o risco e continuar…

A alternativa a este regime é a Irmandade Muçulmana?
O problema é exactamente esse. Após a Síria sair do Líbano, houve pressões para mudar o regime. Depois pararam. Israel já declarou ter aconselhado americanos e europeus a não mudar o regime. Por isso a Síria continua a assassinar pessoas no Líbano e a apoiar Hezbollah e Hamas.

A imprensa israelita fala numa guerra contra a Síria.
Não creio que a Síria vá atacar Israel. O Hezbollah pode provocar, mas isso dependerá da decisão do Irão. Israel será reactivo.

Irão e Síria são países-chave para a estabilização do Iraque?
O Irão não quer desestabilizar o Iraque, quer controlar o Governo para poder discutir o processo nuclear. O Irão foi inteligente: em 2003 deixou os EUA atacar o Iraque sem intervir; esteve o tempo todo em contacto com a oposição xiita e pediu-lhe que não cooperasse com os EUA durante a guerra. No fim, saiu vencedor.

Artigos publicados no Expresso, a 19 de maio de 2007

Jornalista de Internacional no "Expresso". A cada artigo que escrevo, passo a olhar para o mundo de forma diferente. Acho que é isso que me apaixona no jornalismo.