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De Nazaré a Belém, 2018 anos depois

O trilho percorrido por José e Maria a caminho de Belém, onde nasceria Jesus Cristo, far-se-ia hoje entre checkpoints militares, colonatos, campos de refugiados e paredes de betão

A Bíblia é omissa em pormenores mas, no terceiro Evangelho, São Lucas refere-se à viagem de José e Maria, nas vésperas do nascimento de Jesus. “Por aqueles dias, saiu um édito da parte de César Augusto para ser recenseada toda a terra. (…) Todos iam recensear-se, cada qual à sua própria cidade. Também José, deixando a cidade de Nazaré, na Galileia, subiu até à Judeia, à cidade de David, chamada Belém, por ser da casa e linhagem de David, a fim de se recensear com Maria, sua esposa, que se encontrava grávida. E, quando eles ali se encontravam, completaram-se os dias de ela dar à luz.”

Nos dias de hoje, esse seria um percurso bastante sinuoso. O casal teria de atravessar duas entidades políticas e ultrapassar obstáculos decorrentes de uma das disputas mais insolúveis do nosso tempo — o conflito israelo-palestiniano.

INFOGRAFIA DE JAIME FIGUEIREDO

NAZARÉ
A cidade que identifica a origem de Jesus situa-se hoje no norte de Israel. Até à criação do Estado judeu, em 1948, tinha uma matriz cristã. Após a eclosão da primeira guerra israelo-árabe (1948-49), a região recebeu um grande fluxo de palestinianos em fuga ou expulsos de suas casas. Hoje, Nazaré é a maior cidade árabe israelita, com cerca de 75 mil habitantes, maioritariamente muçulmanos.

Para os peregrinos cristãos que rumam à Terra Santa, é paragem obrigatória, como Belém (onde Jesus nasceu) e Jerusalém (onde morreu). Junto às ruínas da carpintaria de José, ergue-se a Igreja de São José. E sobre os vestígios da casa de Maria foi construída a Igreja da Anunciação, muito procurada para casamentos de cidadãos israelitas árabes cristãos.

Seguindo para sul, o caminho faz-se entre povoações que ora falam árabe e rezam em igrejas ou mesquitas ora se expressam em hebraico e frequentam sinagogas. Uma delas é o moshav de Balfurya — um moshav é uma propriedade agrícola comunitária —, fundado em 1922 e assim batizado em homenagem ao conde de Balfour, ministro dos Negócios Estrangeiros britânico, que cinco anos antes defendera um “lar judeu” no território histórico da Palestina. Em 2017, viviam ali 491 pessoas.

Não muito longe, Mqeibleh é uma aldeia árabe com população cristã e muçulmana. É o último aglomerado antes da fronteira.

JALAMAH
Cerca de 20 quilómetros para sul de Nazaré, o checkpoint de Jalamah assinala a fronteira entre Israel e o território palestiniano ocupado da Cisjordânia. Junto ao este posto de controlo, ergue-se o muro — a que Israel chama “vedação de segurança” — que, ora em betão ora em arame, vai contornando o território palestiniano.

Quem ali vive diz que o muro é uma forma de Israel roubar terras que não lhe pertencem, já que nem sempre o traçado do muro coincide com a Linha Verde, a fronteira estabelecida pelo Armistício de 1949 e internacionalmente reconhecida.

Em vários pontos, o muro corta aldeias ao meio, dividindo famílias e, por vezes, separando a casa do quintal. Para quem fica com propriedades no “lado errado” do muro, as burocracias exigidas para ir de um lado ao outro impossibilitam a prática agrícola — o ganha-pão.

No checkpoint, só passam árabes com cidadania israelita ou palestinianos da Cisjordânia devidamente autorizados pelas autoridades de Telavive. É o caso de muitos trabalhadores que moram na Cisjordânia e labutam em Israel.

JENIN
Situada no coração de uma área agrícola fértil, Jenin foi outrora uma movimentada zona comercial — até que o muro a privou de liberdade de acesso aos mercados da região e a Intifada de Al-Aqsa (a segunda, entre 2000 e 2005) fez da povoação alvo da retaliação israelita.

Em Jenin fica o campo de refugiados mais a norte da Cisjordânia, estabelecido em 1953 e onde vivem 14 mil pessoas. Vistos por Israel como bastiões de militância, nem o campo nem a cidade estão a salvo de incursões do exército judeu (Tsahal). Muitas vezes pela calada da noite, invadem povoações, revistam casas, interrogam famílias, confiscam bens e detêm pessoas sem acusação.

NABLUS
A 45 quilómetros de Jenin surge Nablus, uma das cidades mais antigas do mundo, referida na Bíblia como Shechem. À semelhança de Jenin, Nablus é uma fortaleza de resistência à ocupação israelita, o que a sujeita a raides militares israelitas. Está também exposta à violência de colonos judeus que, com frequência, vandalizam sobretudo olivais.

A sul de Nablus, o colonato de Yitzhar — fundado em 1984 e onde vivem 1500 judeus — tem fama de ser dos mais violentos. Atacam não só povoações palestinianas mas também as próprias forças israelitas.

BALATA
É o maior dos 19 campos de refugiados existentes na Cisjordânia, geridos pela UNRWA, agência das Nações Unidas criada em 1949 para responder ao êxodo palestiniano que se seguiu à criação de Israel. Então, estavam em causa à volta de 750 mil pessoas; hoje, mais de cinco milhões estão habilitadas a recorrer aos serviços providenciados pela ONU, em campos na Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Líbano, Síria e Jerusalém Oriental. Se antes viviam em tendas, hoje moram em prédios. O que devia ter sido uma situação temporária tem — na falta de paz — um carácter cada vez mais definitivo.

O atual mandato da UNRWA termina em 2020. Até lá, a agência lutará com dificuldades inesperadas: em agosto, os EUA — o maior doador — cortaram o financiamento.

HUWWARAH
Segundo a ONG israelita B’Tselem, em janeiro de 2017 havia 98 checkpoints fixos na Cisjordânia, 59 dos quais internos, como o de Huwwarah, passagem obrigatória para quem vai para sul.

A pé ou de carro, pode ser-se interrogado sobre os motivos da deslocação. A espera na fila pode ser demorada e mesmo ambulâncias podem ter de aguardar por vez. Várias mulheres já deram à luz em checkpoints. Em Huwwarah, um bebé morreu a 12 de setembro de 2008, após nascer prematuro no local.

O funcionamento dos postos de controlo obedece a horários rígidos. Em épocas de tensão — após atentados, ataques isolados ou bombardeamentos à Faixa de Gaza, por exemplo —, os checkpoints podem encerrar.

SHILO
Para Israel, os checkpoints são fundamentais para abortar planos de ataque contra judeus, nomeadamente os mais de 500 mil colonos que vivem na Judeia e Samaria (como o Estado hebraico chama à Cisjordânia). Cerca de 4 mil vivem em Shilo, colonato religioso fundado em 1978 de forma engenhosa — e em terras privadas, denunciam os palestinianos. Aproveitando a existência na zona de vestígios arqueológicos com significado para os judeus, uma comunidade liderada pelo extremista Ira Rappaport obteve autorização do Governo para aí fazer uma escavação arqueológica. O aglomerado foi crescendo, em dimensão e habitantes.

Em nome do bem-estar nos colonatos — ilegais, ao abrigo do direito internacional —, há estradas só para judeus, que beneficiam também de acesso privilegiado às melhores terras e aos recursos hídricos, com prejuízo sobretudo das populações nómadas beduínas.

Este apartheid é fonte de tensão permanente. A 9 de dezembro, sete judeus foram feridos a tiro num entroncamento perto do colonato de Ofra, na região de Ramallah, durante uma vigília noturna.

RAMALLAH
É a capital administrativa da Autoridade Nacional Palestiniana, que, pelos Acordos de Oslo (1993), é o Governo provisório até à proclamação da independência e subsequente eleição de órgãos de soberania. Em Ramallah (e na cidade adjacente de Al-Bireh) estão sediadas as principais instituições palestinianas, bem como representações diplomáticas.

A cidade é, por isso, naturalmente cosmopolita, economicamente dinâmica e socialmente mais aberta, com restaurantes modernos e bares com todo o tipo de álcool e plasmas sintonizados em partidas de futebol das principais ligas europeias.

QALANDIA
Para se ir de Ramallah a Belém, há duas opções. Uma implica atravessar o checkpoint da Qalandia, passagem obrigatória para quem quer ir para Jerusalém. No exterior, o muro que passa rente é uma autêntica galeria, transformado em tela por artistas e ativistas de todo o mundo que expressam a sua oposição à ocupação da Palestina através de grafitos.

O caminho alternativo permite contornar o posto, mas é mais longo. Esta opção dá razão aos palestinianos quando dizem que os checkpoints surgem no caminho para lhes infernizar o dia a dia, fazendo-os gastar mais tempo e dinheiro. Vencidos pelo cansaço, talvez um dia partam dali.

BEIT SAHOUR
Discreta aldeia nas imediações de Belém, estima-se que corresponda ao campo de pastores que, segundo São Lucas, recebeu a visita do anjo: “Não temais, porque aqui vos trago novas de grande alegria (…). Pois, na cidade de David, nasceu hoje o Salvador.”

BELÉM
Passados cerca de 100 quilómetros, por fim Belém. Para entrar na cidade há que atravessar mais um checkpoint junto ao muro que, como o da Qalandia, é uma montra de street art. Em 2017, à distância de uma rua para o muro, foi ali inaugurado o Walled Off Hotel, que promete “as piores vistas do mundo”. Inacessível a qualquer bolsa, é propriedade de Banksy, o misterioso artista britânico que assina muitos grafitos no muro.

Como acontece por todo o Médio Oriente, a população cristã de Belém está em queda. Outrora esmagadora, em 2016 não ia além dos 16%. Resiliente, a cidade — cujo presidente da Câmara é sempre um cristão (atualmente uma mulher, Vera Baboun) — não esquece a herança que a notabiliza. Todos os anos é montada uma grande árvore de Natal na Praça da Manjedoura. Contígua, a Igreja da Natividade abriga a gruta onde se crê que Jesus nasceu.

Artigo publicado no Expresso, a 22 de dezembro de 2018 e republicado no “Expresso Online”, no dia seguinte. Pode ser consultado aqui

Austrália reconhece (metade de) Jerusalém como capital de Israel

A embaixada australiana continuará em Telavive. A mudança fica dependente de um acordo entre israelitas e palestinianos. O Brasil poderá ser o próximo país a ir no rasto da histórica decisão de Donald Trump que reconheceu Jerusalém como capital de Israel

O Governo australiano anunciou, este sábado, o reconhecimento de Jerusalém Ocidental como capital de Israel. A embaixada australiana continuará, porém, em Telavive. A sua transferência para a Cidade Santa — bem como o reconhecimento de Jerusalém Oriental como capital do futuro Estado da Palestina — fica dependente da assinatura de um tratado de paz entre israelitas e palestinianos.

“O Governo australiano decidiu que a Austrália reconhece que Jerusalém Ocidental, o local onde se situa o Knesset [Parlamento] e muitas das instituições do Governo, é a capital de Israel”, afirmou Scott Morrison, no cargo desde agosto, num discurso no Instituto de Sidney.

O primeiro-ministro defendeu que a decisão visa apoiar a “democracia liberal” no Médio Oriente e considerou as Nações Unidas um local onde Israel é “intimidado”.

A oposição denunciou uma manobra política visando a obtenção de ganhos nas eleições legislativas previstas para o próximo ano. “Preocupa-me que o Sr. Morrison coloque os seus interesses políticos à frente do nosso interesse nacional”, reagiu o líder da oposição, Bill Shorten.

Paraguai fez marcha-atrás

A Austrália torna-se assim o último país a ir no rasto da histórica decisão dos Estados Unidos — anunciada por Donald Trump a 6 de dezembro de 2017, e que reverteu uma posição política de décadas — de reconhecer Jerusalém como capital de Israel. A embaixada norte-americana em Jerusalém foi deste ano.inaugurada por Ivanka Trump a 14 de maio

Guatemala e Paraguai seguiram a posição norte-americana. Mas em Assunção, um novo Presidente levou a um recuo na decisão. Em setembro, o novo Presidente, Mario Abdo Benítez, considerou a decisão do seu antecessor, Horacio Cartes, “absolutamente unilateral, sem consulta e sem argumentos fundados no Direito Internacional”. Benítez mandou fechar a embaixada em Jerusalém, ao que Israel respondeu encerrando a sua missão diplomática em Assunção.

O Brasil foi o último país a anunciar intenções para mudar a sua embaixada de Telavive para Jerusalém. Jair Bolsonaro referiu-se ao assunto durante a campanha eleitoral e, em finais de novembro, um dos seus filhos, o deputado federal Eduardo Bolsonaro, reuniu-se em Washington com Jared Kushner, o genro de Trump que detém a pasta do conflito israelo-palestiniano. “Isto não é uma questão de ‘se’ o vamos fazer, mas de ‘quando’ o vamos fazer”, disse Eduardo Bolsonaro.

https://twitter.com/BolsonaroSP/status/1067507960333692929

Jerusalém é a cidade desejada por israelitas e palestinianos para capital dos respetivos Estados. Na parte Oriental — ocupada por Israel na Guerra dos Seis Dias de 1967 —, localizam-se os principais lugares santos para as três religiões monoteístas: o Muro das Lamentações (judaísmo), o Santo Sepulcro (cristianismo) e a Mesquita de Al-Aqsa (islamismo).

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 15 de dezembro de 2018. Pode ser consultado aqui

Benjamin Netanyahu, o governante “cinco em um”

Para além da chefia do governo de Israel, Benjamin Netanyahu é atualmente o titular de quatro ministérios. Esta concentração de poder não é inédita no país e costuma ser sintoma de crise

Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel WWW.KREMLIN.RU / WIKIMEDIA COMMONS

primeiro-ministro de Israel chamou a si, esta semana, a condução dos ministérios da Defesa e da Imigração e Integração. Com esta acumulação de funções, Benjamin Netanyahu fica responsável, durante a semana de trabalho (e em sentido figurado), por um ministério por cada dia útil já que, para além destes três cargos, ele é ainda ministro dos Negócios Estrangeiros e da Saúde.

“Certamente que não é bom que o primeiro-ministro detenha tantas pastas”, diz ao Expresso Natan Sachs, diretor do Centro de Políticas sobre o Médio Oriente do Brookings Institution, Washington D.C.. “Neste caso, há uma combinação de três situações. [Desde o início], Netanyahu manteve os Negócios Estrangeiros para si, o que enfraquece o ministério consideravelmente em comparação com o gabinete do primeiro-ministro.”

Em relação ao da Saúde, que ele detém desde 28 de novembro de 2017, “é dirigido por um vice-ministro, e ele é ministro só no papel. Os restantes [que herdou no passado domingo] são resultado da última crise política, ou seja, Netanyahu é ministro por defeito após a renúncia dos titulares. É bem possível que ele designe ministros para alivia-lo, incluindo um ministro dos Negócios Estrangeiros.”

Desde que o atual governo iniciou funções, a 14 de maio de 2015, Netanyahu já tinha, pontualmente, assegurado as pastas das Comunicações, da Cooperação Regional, da Economia e Indústria e do Interior. “É comum os primeiros-ministros israelitas ficarem com várias pastas após crises na coligação governativa e a saída de ministros”, explica ao Expresso Aluf Benn, editor chefe do diário israelita “Haaretz”.

“Historicamente, os primeiros-ministros também asseguraram o ministério da Defesa durante 27 dos 70 anos de vida de Israel.” Aconteceu com David Ben-Gurion, Menachem Begin, Yitzhak Rabin e Shimon Peres, por exemplo.

Trégua é “rendição ao terrorismo”

Netanyahu ficou com a pasta da Defesa após a demissão do ultranacionalista Avigdor Lieberman, apresentada no dia 14 em protesto com a forma como o primeiro-ministro geriu a última crise na Faixa de Gaza. Três dias antes, os serviços secretos israelitas tinham averbado um fracasso quando comandos infiltrados no território palestiniano — para uma missão não especificada — foram detetados pelo Hamas, o movimento islamita que controla Gaza.

Perseguidos enquanto fugiam, foram “protegidos” por fortes bombardeamentos de caças israelitas, de que resultou a morte de sete palestinianos, incluindo um comandante do Hamas. Na operação, morreu também um tenente-coronel israelita.

O Hamas não foi brando na resposta e lançou sobre território israelita a ‘chuva’ de foguetes mais intensa desde a guerra de 2014. Uns foram intercetados pelo escudo antimísseis Cúpula de Ferro, outros atingiram áreas civis, matando uma mulher, em Ashkelon.

Um vídeo tornou-se popular nas redes sociais: disparado pelo Hamas, um rocket Kornet — um míssil antitanque de fabrico russo — atinge um autocarro militar israelita, criando a sensação de que o Hamas ‘batera o pé’ ao poderoso Tsahal (Forças de Defesa de Israel).

Israel retaliou com bombardeamentos em Gaza durante alguns dias. que mataram mais cinco palestinianos. Quando se temia uma nova guerra em Gaza, foi assinada uma trégua — uma “rendição ao terrorismo”, acusou Avigdor Lieberman, no mesmo dia em que se demitiu de ministro da Defesa.

“Netanyahu é um ‘falcão’ em muitas coisas, incluindo ao nível do compromisso com os palestinianos, o que torna o conflito israelo-palestiniano muito mais difícil de resolver”, comenta Natan Sachs. “Mas ao contrário da imagem que tem, ele não é aventureiro ou alguém muito interessado em ir para a guerra. Ele é primeiro-ministro há muito tempo [entre 1996 e 1999 e desde 2009], mas teve apenas um grande conflito — em Gaza, em 2014 — o qual, na verdade, ele também não queria. Netanyahu descobriu que os eleitores gostam de um líder que soa como um ‘falcão’, mas não de um líder que os mande para a guerra.”

A opção de Netanyahu por uma trégua com o Hamas afastou, por momentos, o espectro de uma nova guerra na região, mas trouxe instabilidade política ao executivo que lidera. A decisão não foi unânime dentro da frágil coligação governamental — composta por cinco partidos (Likud, Kulanu, Lar Judaico, Shas e Judaísmo Unido da Torah) e apoiada no Parlamento (Knesset) por 61 de 120 deputados — e voltou a ser notícia, em Israel, a possibilidade de antecipação das eleições agendadas para 5 de novembro de 2019.

“Estamos numa situação particularmente complexa ao nível da segurança”, afirmou Netanyahu, no domingo, num discurso transmitido pela televisão. “Em tempos como estes, não se derruba um governo. É irresponsável… Estamos numa batalha intensa e, no meio de uma batalha, não abandonamos os nossos postos. No meio de uma batalha, não fazemos política. A segurança da nação está para além da política.

Uma sondagem divulgada na terça-feira revelou que para 58% dos inquiridos não foi a segurança do país que levou Netanyahu a afastar a hipótese de eleições antecipadas, mas antes motivações de ordem política.

“Netanyahu pode ganhar ou perder com eleições antecipadas”, conclui Natan Sachs. “Por um lado, é suspeito em vários casos de corrupção, e poderia sair beneficiado se ganhasse umas eleições antes de os enfrentar. Por outro, as suas últimas movimentações em Gaza — procurando um cessar-fogo com o Hamas — foram muito impopulares em Israel, uma vez que foram acompanhadas por foguetes mortais disparados pelo Hamas que apenas foram parcialmente retribuídos. Mais tempo [no poder] permitirá a Netanyahu distanciar-se disso.”

Artigo publicado no Expresso Online, a 23 de novembro de 2018. Pode ser consultado aqui

Jerusalém, cidade disputada também nas urnas

As eleições municipais em Israel ditaram a necessidade de uma segunda volta na Cidade Santa, que se realiza dentro de duas semanas

As eleições municipais israelitas, que se realizaram na terça-feira, ditaram a necessidade de um “tira teimas” na Cidade Santa, já que nenhum candidato obteve os 40% necessários para evitar uma segunda volta.

A corrida trava-se entre um candidato conservador — Moshe Lion, de 57 anos, ex-chefe de gabinete do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu — e um candidato secular — Ofer Berkovitch, de 35 anos. Este é fundador do movimento “Hitorerut in Jerusalem” (Acorda Jerusalém), que se apresenta como “o maior partido pluralista sionista de Jerusalém. Trabalhamos na cidade e no Governo para ajudar a população sionista de Jerusalém, ao secular à religiosa sionista, a prosperar”.

Com 96% dos votos contados, Lion — que contou com o apoio expresso dos partidos ultraortodoxos Shas e Degel HaTorah — tinha garantidos 33.3% (cerca de 80 mil votos). Berkovitch tinha recebido 28.8% (à volta de 70 mil).

Ambos voltam a disputar as preferências do eleitorado de Jerusalém a 13 de novembro. Berkovitch, que parte atrás, já pediu apoio aos candidatos derrotados na primeira volta. Entre eles está Ze’ev Elkin, o atual ministro dos Assuntos de Jerusalém que, apesar do apoio do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, não foi além do terceiro lugar (19,8%). Durante a campanha, Elkin apresentou um plano de construção de um novo muro visando isolar todos os bairros árabes de Jerusalém Oriental, num novo município.

Em quarto lugar, ficou o candidato ultraortodoxo Yossi Deitch, com 17% dos votos.

Uma mulher em Haifa, pela primeira vez

Segundo números do Ministério do Interior, votaram nestas eleições 3.637.247 israelitas, o que corresponde a 55,1% do eleitorado. Esta percentagem representa uma subida de 10,5% em relação à taxa de afluência nas últimas municipais, em 2013.

Para este aumento não foi alheio o facto de, pela primeira vez no país, ter sido declarado dia de folga, uma medida tomada para combater a indiferença com que a maioria dos israelitas encarava estas eleições.

Ao nível das principais cidades, a capital Telavive manteve a confiança em Ron Huldai, “mayor” desde 1998. Já Haifa optou pela mudança e, pela primeira vez, elegeu uma mulher, a trabalhista Einat Kalisch Rotem, que derrotou Yona Yahav, que liderava a Câmara desde 2003.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 31 de outubro de 2018. Pode ser consultado aqui

Eurovisão 2019: um festival desafinado

O anúncio da cidade que vai acolher o próximo Festival da Canção está enguiçado. A Eurovisão quer garantias por parte do Governo de Israel de que as opiniões políticas dos visitantes não serão obstáculo à obtenção de visto e que será possível trabalhar durante o “shabat”, o dia de descanso dos judeus

A vitória de Netta Barzilai no Festival Eurovisão realizado em Lisboa pode vir a revelar-se um presente envenenado para Israel.

A União Europeia de Radiodifusão (UER) — a entidade responsável pelo evento — previu, para este mês de setembro, o anúncio da cidade que vai acolher o evento, mas por enquanto o que soa desde os bastidores desse concurso musical é uma grande desafinação.

Uma delegação da UER esteve recentemente em Israel, onde visitou três cidades potencialmente anfitriãs (Telavive, Jerusalém e Eilat, tendo esta última ficado fora da corrida). Para além da avaliação dos locais, os responsáveis da Eurovisão entregaram ao Governo de Benjamin Netanyahu uma lista com exigências para a realização do evento em solo israelita.

Uma delas passa pela concessão de vistos independentemente das opiniões políticas dos visitantes, o que colide com legislação aprovada em 2017 que possibilita que pessoas que apoiem boicotes ou sanções a Israel sejam impedidas de entrar no país. Este ano, ao abrigo dessa lei, pelo menos 250 pessoas não passaram do Aeroporto Internacional Ben Gurion (Telavive), do posto fronteiriço de Taba (entre o Egito e a cidade de Eilat) ou da ponte Allenby, entre a Jordânia e o território palestiniano da Cisjordânia.

Outras condições requeridas pela UER passam pela liberdade de circulação no país sem limitações em virtude de opiniões políticas, religião ou orientação sexual; liberdade de imprensa e de expressão para todos os participantes e delegações; e — porventura a exigência mais sensível — o levantamento da restrição religiosa que impede o trabalho aos sábados (“shabat”), o dia de descanso dos judeus.

“Isto é uma desgraça completa”, reagiu, na terça-feira, o ministro da Segurança Pública, Gilad Erdan. “Não entendo como eles tiveram a ousadia de fazer este tipo de exigências. Espero que o primeiro-ministro não aceite estas condições ultrajantes.”

Qualquer uma das exigências feitas pela Eurovisão desafia limites do Estado judeu. Mas para a UER, “para se fazer o Festival Eurovisão da Canção tem de ser possível trabalhar-se as 24 horas do dia, os sete dias da semana, todas as semanas – não apenas na do evento e dos ensaios, mas nas semanas anteriores, quando se constrói o cenário, quando se prepara o local do espetáculo”, explicou, em entrevista à televisão pública israelita KAN, o norueguês Jon Ola Sand, supervisor executivo da organização. “Lamento ter de o dizer, mas não há forma de realizar a Eurovisão sem se poder trabalhar também aos sábados. É absolutamente impossível, isso é fundamental para nós!”

Para os judeus, o período que decorre entre o pôr do sol de sexta-feira e o de sábado é dedicado a Deus, pelo que as obrigações profissionais devem ser evitadas. Os ultraortodoxos levam o preceito ao limite, recusando-se a conduzir um carro ou a enviar sms. Em novembro, o rabino Yaakov Litzman demitiu-se do cargo de ministro da Saúde, em protesto contra umas obras de reparação da linha ferroviária realizadas a um sábado. (A coligação governamental integra três partidos religiosos: Shas, Judaísmo da Tora Unida e Casa Judaica.)

Ativistas de mangas arregaçadas

Das três vezes que Israel venceu a Eurovisão — em 1978, 1979 e 1998 —, Jerusalém acolheu o espetáculo por duas vezes.

A exceção aconteceu após o triunfo em 1979: Israel fez saber que não conseguia financiar o festival dois anos seguidos e o evento realizou-se em Haia (Holanda).

A possibilidade de a Cidade Santa voltar a receber o Eurofestival, em maio do próximo ano, deixa antever uma grande politização do evento, em virtude do polémico reconhecimento de Jerusalém como capital do Estado de Israel por parte dos Estados Unidos. Se Jerusalém for a escolha da Eurovisão, será pois de prever uma maior contestação ao evento do que se for Telavive — ou não…

“Independentemente de onde se realizar, se a Eurovisão de 2019 for organizada pelo regime de apartheid de Israel, tem de ser boicotada para impedir cumplicidade e negócios com este regime e para evitar manchar a marca Eurovisão, de forma irreversível, com o registo chocante de Israel ao nível dos direitos humanos”, diz ao Expresso o palestiniano Omar Barghouti, cofundador do movimento Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS). “O ponto-chave é que o Governo de extrema-direita de Israel está a tentar usar a Eurovisão descaradamente como parte da sua estratégia oficial [de promoção] da marca Israel. Netanyahu considerou Barzilai ‘a melhor embaixadora de Israel’. Está desesperadamente a tentar projetar a ‘cara linda de Israel’ para branquear e desviar as atenções de décadas de ocupação e de crimes de guerra contra os palestinianos.”

“Só no dia 14 de maio”, recorda Barghouti, vencedor do Prémio Gandhi da Paz de 2017 (concedido anualmente pelo Governo da Índia), “apenas dois dias após a vitória na Eurovisão, Israel massacrou 62 palestinianos em Gaza, incluindo seis crianças. Nessa mesma tarde, Netta Barzilai atuou num concerto comemorativo [da vitória] em Telavive, organizado pelo presidente da Câmara Municipal que afirmou: ‘Temos uma razão para estarmos felizes’.”

Nascido no Qatar em 1964, Barghouti diz que o movimento BDS já está a preparar uma campanha de boicote à Eurovisão em Israel. Vários apelos nesse sentido já soaram, entretanto. “Acho que a Irlanda não devia enviar um representante”, defendeu Micheal Mac Donncha, presidente da Câmara Municipal de Dublin. “A terrível provação do povo palestiniano tem de ganhar destaque.” Na Islândia, mais de 26.700 pessoas — 8% da população total (330.000 habitantes) — já assinaram uma petição no mesmo sentido.

Em maio passado, a participação de Israel no evento de Lisboa já tinha sido objeto de uma batalha fora de palco. O movimento BDS saiu a público com a campanha “Zero pontos para a canção do apartheid israelita”, que teve o resultado inverso ao pretendido, já que “Toy” foi a mais votada.

Barghouti desvenda a razão do fracasso: “O Governo israelita e organizações lobistas investiram muitos recursos humanos e fundos recordes em publicidade numa campanha de propaganda em toda a Europa para ganhar votos para a sua canção”, diz. “A bem oleada propaganda israelita recorreu ao ‘pinkwashing’ — o uso cínico dos direitos dos LGBT [lésbicas, gays, bissexuais e transexuais] para encobrir a ocupação e o apartheid de Israel — e apelou aos movimentos feministas ao mesmo tempo que deixou de enfatizar Israel na mensagem.”

Uma das plataformas ao serviço dessa estratégia foi a aplicação Grindr, “a maior app mundial para pessoas gay, bi, trans e queer”, criada pelo israelita Joel Simkhai.

Após o apuramento de “Toy” para a final, mal abriam a aplicação, os utilizadores começaram a ser surpreendidos com uma fotografia de Netta e o apelo ao voto na canção nº 22.

(Foto: De troféu na mão, Netta Barzilai atua no Altice Arena, em Lisboa, a 12 de maio de 2018, como a grande vencedora da 63ª edição do Festival Eurovisão da Canção ANDRES PUTTING / EUROVISION)

Artigo publicado no Expresso Diário, a 7 de setembro de 2018. Pode ser consultado aqui